Quem escreve versos como
este:
»Fedra está
apaixonada
por Hipólito
Hipólito não está apaixonado
por Fedra
Fedra enforca-se
Hipólito morre
num acidente«
só pode ser Adília
Lopes. Cada verso é razão suficiente para adquirir qualquer
publicação desta poetisa.
A presente é uma colectânea organizada por Valter Hugo Mãe,
que procura explorar a questão afectiva no »universo« de
Adília Lopes.
São 93 poesias selecionadas de 14 livros e alguns dispersos, selecionadas
com muito carinho e o entusiasmo de um admirador, incluindo temas irónicos
como os de »O Marquês de Chamily« mas também provas
de seu grande romanticismo particular, a tristeza, o sarcasmo, a leveza do
dramático.
Um grande volume, e uma espécie de »Best Of« de Adília
Lopes, que só nos últimos anos chegou a ser reconhecida por
um público maior.
No ano retrasado, finalmente, um volume simplesmente intitulado de
»Obra« reuniu todos os seus livros publicados desde 1985 (e até
à data, em grande parte esgotados), consagrando assim uma obra singular
e incomparável na poesia portuguesa.
Contudo, a antologia de Valter Hugo Mãe não é
supérflua. Bem ao contrário. A exploração
temática é que revela as verdadeiras qualidades de uma poesia
que reúne o humor com uma seriedade quase brutal, a atenção
pelos detalhes do quotidiano com o grande drama da condição
humana (e não só da feminina), a brincadeira com filosofia
e erudição. O posfácio do organizador, »uma
intromissão na vida afectiva de adília lopes«, aborda
algumas dessas peculiaridades em termos científicos, deixando porém,
espaço suficiente para um acesso afectivo por parte do leitor, que
por sua vez, inevitavelmente, se tornará fã. mk.
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