setembro / september
2002 |
|
 |
Paulo César de Araújo:
Eu não sou cachorro não
Record
consulte o preço
à TFM
|
Em EU NÃO SOU CACHORRO,
NÃO, o historiador carioca Paulo César de Araújo redime
os cantores chamados de cafonas ou bregas , que no período
entre 1968 e 1978 estavam no topo do mercado fonográfico nacional.
O autor mostra como Odair José, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned
e Benito Di Paula, odiados por supostamente colaborar com a ditadura, foram
tão ou mais perseguidos pelo regime militar que cantores de esquerda.
Artistas considerados bregas sempre apareceram no topo da lista de mais vendidos.
Veiculados nas rádios, freqüentavam os programas de auditório,
mas não receberam o devido respeito e espaço em livros e teses,
pois freqüentemente eram associados à ditadura militar. O historiador
carioca Paulo César de Araújo preenche essa lacuna na
historiografia da música popular brasileira e mostra como as figuras
mais demonizadas por aderirem à cultura oficial durante os anos de
chumbo, na verdade, foram tão ou mais perseguidas pelo regime quanto
os artistas de esquerda. »A produção musical brega (ou
cafona) faz parte da realidade cultural brasileira, tanto quanto o tropicalismo
e a bossa nova e merece ser analisada«, argumenta o autor.
EU NÃO SOU CACHORRO, NÃO aborda três aspectos do papel
de resistência desempenhado por esses artistas. Em primeiro lugar,
Paulo César de Araújo analisa como muitas das letras trazem
a denúncia ao autoritarismo e à segregação social.
A música O divórcio, de Luiz Ayrão, por exemplo,
que, a princípio, se chamava Treze anos pode ser lida tanto
como um desabafo de um homem infeliz quanto como um basta ao regime militar.
O autor compara a produção musical dentro do contexto
histórico, dando especial atenção ao AI5. Paulo lembra,
também, que a maioria desses cantores vivenciou o trabalho infantil:
Nelson Ned e Agnaldo Timóteo foram engraxates. Paulo Sérgio,
alfaiate.
O livro traz, ainda, diversas curiosidades do universo musical cafona. São
histórias que só agora chegam a público. Como a vez
em que Odair José teve a música A primeira noite que
fala da primeira experiência sexual de um garoto censurada e,
para escapar ao veto, apenas trocou o título. Noite de desejos passou
incólome pelas autoridades. Aliás, Odair José era
campeão de vetos da censura federal. Sua música Pare de tomar
a pílula foi proibida de ser executada nas rádios brasileiras
e em toda a América latina. Mas ele não foi o único.
Fernando Mendes teve seu Tributo a Carlinhos (o menino Carlinhos desapareceu
sem deixar traços na década de 1960, num caso policial
célebre e não resolvido até hoje) proibido já
que poderia ser interpretado como referência aos presos políticos.
Máximas de Waldik Soriano A mulher é como a música.
A música serve para limpar a alma, a mulher para limpar a casa
também estão presentes em EU NÃO SOU CACHORRO,
NÃO. Assim como situações que beiram a tragicomicidade:
Nelson Ned passava por baixo da roleta de ônibus por não ter
dinheiro para pagar a passagem. »Isso não era difícil
para mim«, brinca o cantor. Essas histórias resgatam artistas
que, entre as décadas de 1968 e 1978, se destacaram no cenário
artístico nacional. »Embora esquecida, nossa música popular
cafona permanece guardada em estruturas de comunicação
informais«, explica Paulo César.
Atire a primeira pedra quem nunca cantarolou uma letra de música popular
cafona. Apesar de gosto duvidoso, as melodias fazem parte do patrimônio
afetivo de milhares de brasileiros. Músicas como Eu não sou
cachorro, não, Pare de tomar a pílula e Cadeira de rodas fazem
parte do repertório de um Brasil dos excluídos, um país
mergulhado na ditadura militar e sacudido tanto por marchas moralistas de
apoio à família, à propriedade e à Igreja quanto
pela guerrilha urbana.
(informação da editora) |
|
 |
Paulo César de
Araújo, baiano de Vitória da Conquista, é jornalista,
historiador e mestre em Memória Social. Trabalha como professor de
História no ensino fundamental e médio da rede pública
do Estado do Rio de Janeiro.
|
|
|
|
|
|
nova
cultura (issn 1439-3077)
www.novacultura.de
© 2002 Michael
Kegler, sternstraße 2, 65719 hofheim /
novacultura@gmx.de
TFM-Zentrum für Bücher und Schallplatten
in portugiesischer Sprache
www.tfm-online.de
disclaimer
/
Haftungsausschluss
|
|