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Beatriz H.R. Amaral::
Cássia Eller – Canção na Voz do Fogo

Escrituras
176 páginas

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Em 29 de dezembro, quando a maior cantora brasileira surgida nos últimos tempos foi levada de vez para as outras esferas, a perplexidade que se abateu sobre o Brasil não deixou fôlego para loas ao novo ano que batia à porta. Vítima de quatro paradas cardiorrespiratórias provocadas – provavelmente – pelo excesso de compromissos profissionais em seus derradeiros meses de vida, Cássia Eller deixava, aos 39 anos, oito álbuns desnorteantes em termos de originalidade, vigor interpretativo e ousadia na escolha de repertório. Qualidades que quando expostas no palco, potencializavam-se como a fúria dos nossos tempos. Quem a viu de perto, quem a ouviu cantando, sabe que Cássia Rejane Eller era simplesmente a maior de todas. E sobre ela, muito ainda há de se falar por aí.

Quem saiu na frente para traçar a primeira biografia da artista nascida no Rio de Janeiro foi Beatriz Helena Ramos Amaral, poeta e advogada que se debruçou sobre artigos, críticas e entrevistas publicadas pela imprensa, coletando também depoimentos de amigos e colegas de trabalho da garotinha, como Nando Reis e Luiz Brasil, por exemplo. »Cássia Eller - Canção na Voz do Fogo« chegou às livrarias brasileiras no finalzinho de julho, numa iniciativa da editora paulistana Escrituras.

De diagramação arejada, com o texto ocupando no máximo 60% do espaço de cada uma das 175 páginas, de forma a não afugentar os fãs da cantora e compositora menos chegados às leituras, o livro de Beatriz Helena enfoca, com assumida paixão e bom teor informativo, o que foi a carreira de Cássia Eller, uma beatlemaníaca das mais prematuras, que já aos nove anos se deleitava com o som dos besouros de Liverpool. A autora nos conta em narrativa fluente fatos marcantes da vida de Cássia, alguns deles surpreendentes, como o carinho especial da cantora e seus quatro irmãos menores pelo pai, o militar Altair Eller. Sim, ele que ficara na nossa memória recente como o vilão que pretendia separar o filho de Cássia, o Chicão, de sua outra mãe, Maria Eugênia Vieira, quando a artista faleceu. Era o pai quem levava a filharada para as sensacionais matinês musicais regadas à Jovem Guarda no clube Mackenzie, no Méier, Zona Norte do Rio, que tanto marcariam Cássia Eller. Segundo Beatriz, Altair teria pela sua cria uma »relação lúdica, de cumplicidade e doçura«.

A autora nos traz outras revelações, como a respeito dos biscates que a intérprete de Malandragem (Cazuza & Roberto Frejat) precisou encarar antes de cumprir a sina artística de quinta grandeza. De servente de pedreiro à secretária-datilógrafa, passando ainda por cozinheira e garçonete. Tempos depois, o Brasil lhe condecoraria com algo mais afim, o trampo como músico de restaurante em Brasília, onde deveria cantar em estranhos almoços. »O repertório não era muito bom para churrascaria«, contou Cássia entre risos à MTV em 2001.

A admiração da autora pela sua biografada merecia, no entanto, um pouquinho mais de imparcialidade. Como no trecho em que Beatriz afirma que »felizmente, Cássia Eller jamais se curvaria ao mercado, jamais faria concessão alguma que não a seus próprios ideais de arte«. Quem conhece o mínimo da famigerada indústria fonográfica, sabe que ninguém sai ileso das imposições mercadológicas. Nem mesmo entidades como Cássia, que teve que lançar nada menos que três discos ao vivo em curtíssimo espaço de tempo (um registro live é infinitamente mais barato e simples do que produzir um álbum de estúdio), desgastando-se a artista em regravações desnecessárias de alguns de seus maiores sucessos. Mais à frente, quase no final da biografia, Beatriz descreve a postura profissional de Cássia Eller como o »maior libelo de coragem já registrado entre nós«, em mais um exagerozinho descartável.

Apesar de ser um livro louvável pela luz que lança – em primeira mão – sobre a figura extraordinária de Cássia Eller, Beatriz Helena falhou em optar pela não abordagem do relacionamento que a artista manteve com as drogas, dentre elas a cocaína e o álcool. Afinal, se a comovente sinceridade de Cássia é ressaltada com justiça na obra, por que a autora não agiu como sua biografada, tocando em tema tão relevante quanto este na vida (e na morte?) da cantora? Mas a própria Beatriz reconhece na introdução do seu livro, ser o seu relato »um esboço a delinear um percurso genial. Que seja um começo e inaugure uma série de outros registros, olhares e estudos«. Falou e disse.

Felipe Tadeu
Brasilkult@aol.com

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