Em 29 de dezembro, quando
a maior cantora brasileira surgida nos últimos tempos foi levada de
vez para as outras esferas, a perplexidade que se abateu sobre o Brasil não
deixou fôlego para loas ao novo ano que batia à porta. Vítima
de quatro paradas cardiorrespiratórias provocadas provavelmente
pelo excesso de compromissos profissionais em seus derradeiros meses
de vida, Cássia Eller deixava, aos 39 anos, oito álbuns
desnorteantes em termos de originalidade, vigor interpretativo e ousadia
na escolha de repertório. Qualidades que quando expostas no palco,
potencializavam-se como a fúria dos nossos tempos. Quem a viu de perto,
quem a ouviu cantando, sabe que Cássia Rejane Eller era simplesmente
a maior de todas. E sobre ela, muito ainda há de se falar por
aí.
Quem saiu na frente para
traçar a primeira biografia da artista nascida no Rio de Janeiro foi
Beatriz Helena Ramos Amaral, poeta e advogada que se debruçou sobre
artigos, críticas e entrevistas publicadas pela imprensa, coletando
também depoimentos de amigos e colegas de trabalho da garotinha, como
Nando Reis e Luiz Brasil, por exemplo. »Cássia Eller -
Canção na Voz do Fogo« chegou às livrarias brasileiras
no finalzinho de julho, numa iniciativa da editora paulistana Escrituras.
De diagramação
arejada, com o texto ocupando no máximo 60% do espaço de cada
uma das 175 páginas, de forma a não afugentar os fãs
da cantora e compositora menos chegados às leituras, o livro de Beatriz
Helena enfoca, com assumida paixão e bom teor informativo, o que foi
a carreira de Cássia Eller, uma beatlemaníaca das mais prematuras,
que já aos nove anos se deleitava com o som dos besouros de Liverpool.
A autora nos conta em narrativa fluente fatos marcantes da vida de Cássia,
alguns deles surpreendentes, como o carinho especial da cantora e seus quatro
irmãos menores pelo pai, o militar Altair Eller. Sim, ele que ficara
na nossa memória recente como o vilão que pretendia separar
o filho de Cássia, o Chicão, de sua outra mãe, Maria
Eugênia Vieira, quando a artista faleceu. Era o pai quem levava a filharada
para as sensacionais matinês musicais regadas à Jovem Guarda
no clube Mackenzie, no Méier, Zona Norte do Rio, que tanto marcariam
Cássia Eller. Segundo Beatriz, Altair teria pela sua cria uma
»relação lúdica, de cumplicidade e
doçura«.
A autora nos traz outras
revelações, como a respeito dos biscates que a intérprete
de Malandragem (Cazuza & Roberto Frejat) precisou encarar antes de cumprir
a sina artística de quinta grandeza. De servente de pedreiro à
secretária-datilógrafa, passando ainda por cozinheira e
garçonete. Tempos depois, o Brasil lhe condecoraria com algo mais
afim, o trampo como músico de restaurante em Brasília, onde
deveria cantar em estranhos almoços. »O repertório não
era muito bom para churrascaria«, contou Cássia entre risos à
MTV em 2001.
A admiração
da autora pela sua biografada merecia, no entanto, um pouquinho mais de
imparcialidade. Como no trecho em que Beatriz afirma que »felizmente,
Cássia Eller jamais se curvaria ao mercado, jamais faria concessão
alguma que não a seus próprios ideais de arte«. Quem conhece
o mínimo da famigerada indústria fonográfica, sabe que
ninguém sai ileso das imposições mercadológicas.
Nem mesmo entidades como Cássia, que teve que lançar nada menos
que três discos ao vivo em curtíssimo espaço de tempo
(um registro live é infinitamente mais barato e simples do que produzir
um álbum de estúdio), desgastando-se a artista em
regravações desnecessárias de alguns de seus maiores
sucessos. Mais à frente, quase no final da biografia, Beatriz descreve
a postura profissional de Cássia Eller como o »maior libelo de
coragem já registrado entre nós«, em mais um exagerozinho
descartável.
Apesar de ser um livro
louvável pela luz que lança em primeira mão
sobre a figura extraordinária de Cássia Eller, Beatriz Helena
falhou em optar pela não abordagem do relacionamento que a artista
manteve com as drogas, dentre elas a cocaína e o álcool. Afinal,
se a comovente sinceridade de Cássia é ressaltada com justiça
na obra, por que a autora não agiu como sua biografada, tocando em
tema tão relevante quanto este na vida (e na morte?) da cantora? Mas
a própria Beatriz reconhece na introdução do seu livro,
ser o seu relato »um esboço a delinear um percurso genial. Que
seja um começo e inaugure uma série de outros registros, olhares
e estudos«. Falou e disse.
Felipe Tadeu
Brasilkult@aol.com
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