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Rogério Manjate:
A Casa de Gotemburgo

Para Henric, Therese e Klara Holmberg

Chegámos a Gotemburgo pouco depois das catorze horas, a tarde era de Agosto, cinzenta e a precisar de agasalho. Subdividimos o grupo; eu fiquei hospedado em casa do actor Henric; ao chegar comemos algo rápido, falando da chatice de viajar de avião: isso de voarmos com as asas do outro, fechados num espaço demarcado com ordens expressas de ficar atado à cadeira e nem sequer gozar a paisagem, estática, tornando o voo pesado; por isso diz o Mia: »Já não viajamos, deslocamo-nos«. E o som contínuo do motor do avião a penetrar-nos até ao estômago e revolver as comidas plásticas que lá se comem. E o ar condicionante? E a expectativa à flor da pele seca? Falámos também sobre a vida em Moçambique e Suécia, e este conhecimento do outro veio a dominar as nossas conversas posteriores. Klara, sua filhota de 5 anos, encolhia-se nas saias da mãe sem tirar os olhos por cima de mim controlando todos meus movimentos. Ela não estava habituada a ver pretos.

Lembrei-me da viagem que fizera, dois anos antes a Oslo; a filha do Svere, de três anos, a Ingrid, fugiu aos gritos ao ver-me; durante dois dias não queria chegar perto, mas a mãe acabou por convencê-la e ela aproximou-se. O primeiro gesto dela foi de me tocar como quem pega num bicho que morde. Depois perguntou à mãe por que eu era castanho, se eu tinha queimado. Pouco tempo depois ficamos amigos. E quando ela se apercebeu que eu já estava de partida, pediu ao pai para que me comprasse. Fartámo-nos de rir.

Tinha estado mais de trinta horas desperto entre voos e esperas em aeroportos e trazia atrelados ao corpo quilómetros de cansaço. Ao despertar, ainda sem poder distinguir o sonho da realidade, via a menina Klara na penumbra. Ondéquestou? Serenei. Concluí que não estava no céu apesar de ela se parecer com um anjo. Era mesmo a Klara, sentada numa cadeira junto à cabeceira, quieta, olhar concentrado, como se estivesse no cinema. Ou será que estava realmente a ver o filme do meu sonho a deambular pelo quarto? Não me lembro dos sonhos que tive, só sei que acordei novo. Talvez ela queria saber como é o sono ou sonho de um preto. Espero não ter ressonado muito. Ou era só para comprovar que dormir em moçambicano era igual ao dormir em sueco: deitado, olhos fechados e ressonando. Sonha-se. Mas será que os sonhos eram iguais?

Lembro-me quando era criança, muitos de nós gostaríamos de ser brancos. Eles eram os patrões. Os nossos sonhos eram os brinquedos nas mãos dos meninos brancos. Hoje em dia todo patrão é tratado por mulungo, branco em changana.
Um sonho nas mãos. Eu tinha onze anos e estava na quinta classe quando a professora de português leu-nos Fábula, poema do mais velho: Menino gordo comprou um balão / e assoprou / assoprou com força o balão amarelo. // Menino gordo assoprou / assoprou / assoprou / o balão inchou / inchou / e rebentou! / Meninos magros apanharam os restos / e fizeram balõezinhos. (José Craveirinha, in Karingana ua Karingana).

Mais tarde, Henric contou-me que, enquanto eu dormia, a Klara bombardeou-lhe com mil porquês a meu respeito. O que terá respondido ele quando ela lhe perguntou por que eu era preto? Não lhe perguntei, mas certamente que não lhe contou daquelas peripécias que vêm no conto As Mãos dos Pretos, do Luís Bernardo Honwana. Foi por isso que ela esteve ali a velar o meu sono? Mas será que os sonhos eram iguais?

Nada melhor que acordar e dar com os olhos de uma criança, ternamente sobre os nossos. Sorrimos um para o outro. Ela desatou a rir e voou pela porta fora, qual passarinho anunciando a manhã. E voltou com o pai puxando-o pelo braço, cochichando. Ele convidou-me a ir à mesa para jantar.

O Henric e a Therese tinham cozinhado um prato tipicamente sueco: vegetais, puré de batata, e outras coisas que não me lembro seus nomes agora mas que só lá existe. À mesa, Klara olhava para mim e tapava a cara com as mãos e espreitava dentre os dedinhos. Depois murmurava no ouvido do pai em sueco. Ela observava cada gesto meu. A princípio era difícil comunicar-me com ela e isso deixava-me agoniado, eu sentia que tinha algo para lhe dizer. Ela perguntou ao pai por que eu, grande que era, não sabia falar sueco. Após a explicação, então começou a tentar repetir o que eu falava, e achava engraçadas as palavras em português.

Uma semana depois, estávamos os quatro sentados à mesa para tomar o matabicho. Therese quis saber sobre comidas. Primeiro devo explicar que as refeições nas casas suecas além do puré de batata, são muito baseados em vários tipos de pão, e come-se com queijos, salame, caviar, fiambre, salsichas, ovos, tomate, pepino e outros vegetais (saladas ou cozidos), e também comidas salgadas com molhos doces; mas sempre bastante leves: são quase as mesmas comidas para matabichar, almoçar e jantar. Eu comia. Era uma outra forma de comer. Não me queixava, à partida aquelas comidas pareciam insignificantes, mas eram bastante nutritivas.

Therese perguntou-me se eu gostava da comida. Respondi que sim, era uma outra forma de comer, mas... lá estava o »mas« — que eu não comia assim na minha terra, todavia, eu estava bem e contente.
— Então como é que se come na tua terra? Perguntou-me a Therese, e eu respondi: — A gente come à base de arroz, massa de farinha de milho, mas sempre com molho, é tão boa a comida molhada.
— Ah, nós também temos, mas nem sempre fazemos, requer tempo, mas aqui quase todos comemos assim à base de "secos", ripostou e quis saber que molhos eram.
— Carnes ou peixe guisados, às vezes com influências árabes e indianas, mas também à moçambicana com amendoim ou coco, e principalmente vegetais cozidos com amendoim - mathapa, mboa, couve... para depois explicar-lhe como se fazia cada prato.
— Ah, como nós comemos tão diferente, meu Deus! - exclamou rindo-se. Mas fui logo avisando: — Só sei como se faz.

Passei o resto da manhã a brincar com a Klara; porque após o jantar do primeiro dia ela e eu estávamos amigos, apesar da língua. Afinal a língua falada só serve para dizer pensamentos, mas como nós não pensávamos, éramos, entendíamo-nos. Brincávamos às escondidas pela casa, ela me mostrava as suas habilidades, no baloiço preso no aro da porta da biblioteca. Ensinávamos jogos um ao outro e descobríamos que muitos deles eram iguais, salvo pequenas variações. Ela gostava muito de desenhar. Seus desenhos eram lindos, sempre coloridos a acompanhar a sua inocência, seu riso e seus gestos de flor.

À meio da tarde fui ao teatro ensaiar e à noite fizemos o espectáculo »Irmãos de Sangue«, no Backa Teater. À saída, com o Celso e Filipinho fomos ao bar Nefertiti onde se tocava jazz ao vivo, mas que depois da meia-noite se transformava em discoteca que ia até madrugada fora. Quando cheguei à casa, dentro dessa madrugada fora, fui à cozinha para beber água, como tinha bebido muita cerveja, convinha-me para não acordar desidratado e mal disposto. Durante todos aqueles dias eu sempre voltava tarde. Achei a cidade bastante nocturna e agradável, então eu ia sempre à rua nas noites passear pelos bares, ouvir jazz. Tanto que o Henric, sem se queixar, disse-me que já não estava habituado a ouvir fantasmas nas madrugadas desde que o seu filho fora viver noutra cidade. Por isso que carinhosamente tratava-me por filho.

A cozinha cheirava bem nesse dia. Eu tinha jantado salmão num restaurante algures e antes de abandonar o Nefertiti tinha comido uma sanduíche. Quando ia a recolher as tigelas para guardá-las na geleira, abri para saber qual tinha sido o jantar: arroz branco e guisado de galinha, com molho condimentado, abundante e apetitoso. E agora, rapaz? Mas eu não podia comer, ainda estava de barriga cheia. Dei uma única colherada. Era uma delícia. Meti tudo na geleira. Bebi água. E fui dormir.

Foram somente dez dias, o menino que eu era transbordava-se-me no coração. Eu não tinha como agradecer à Klara pelos momentos em que voltei aos becos da Malanga, a bola de meia, o zotho, o matuè-tuè, as escondidas, o muravarava, os banhos de chuva. Carreguei-a no colo e dei-lhe um beijinho. Klara ofereceu-me um desenho que trazia escondido nas costas. Ainda hoje o tenho guardado. Pela primeira vez ela desenhou pretos.

© Rogério Manjate, 6 de Junho de 2002

Rogério Manjate nasceu em Abril de 1972, na cidade de Maputo, no bairro da Malanga, onde cresceu e vive.

É actor de teatro, no grupo de Teatro Mutumbela Gogo, desde 1992; sendo que em 91, começou no grupo Mbêu, e trabalhou em ambos grupos os até 1995. Além disso é estudante de Agronomia na UEM.

Em 2001 publicou o livro de contos »Amor Silvestre« – Ed. Ndjira (Prémio Literário TDM 2001 – Conto) e em 2000 fez a selecção dos textos do livro, »Colectânea Breve de Literatura Moçambicana« – Ed. Projecto Identidades e Gesto Cooperativa Cultural – Porto. Em breve publicará seu primeiro livro infanto-juvenil: »Casa em Flor« (Prémio de Literatura para Crianças do FBLP 2002).
Além disso é membro da AEMO e tem colaborado em jornais e revistas com contos e poemas.

Como jornalista é o responsável e editor da Revista Literária Maderazinco, na Internet — www.maderazinco.tropical.co.mz


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