O álbum traz 14 faixas gravadas ao vivo no Teatro Rival, no Rio de
Janeiro, em agosto do ano passado, além de mais quatro registradas
em estúdio. Há desde o presumível Gilberto Gil, que
já vinha se dedicando a Gonzagão ao fazer a trilha do filme
Eu, Tu, Eles, repisada num segundo disco São João Vivo, até
Zeca Pagodinho, que subverte o universo sertanejo de Teixeira e Gonzaga,
desnorteando o ouvinte com toda sua categoria de sambista carioca.
A trupe reluzente que toma parte no tributo vem ainda de Chico Buarque, Caetano
Veloso, Gal Costa, Elba Ramalho, Lenine, Sivuca, Maria Bethânia, Rita
Ribeiro e Carmélia Alves, mas quem desfere mesmo a melhor punhalada
é Lirinha e o seu Cordel do Fogo Encantado, em outra surpreendente
performance deste grupo que sabe valorizar tão bem a força
de um texto. Mangaratiba, a faixa defendida por eles, revela uma parceria
pouco conhecida da dupla que se eternizou com Assum Preto, Asa Branca, Respeita
Januário e Qui nem Jiló, numa composição que
soa como uma Maracangalha de Dorival Caymmi, apropriada tematicamente por
Gonzaga e Teixeira. No canto alucinado de Lirinha, ela é um trem
descarrilhado de desejos que serpenteia pelas serras, rumo a uma Pasárgada
impressionante.
Outra que se sai muito no disco é Rita Ribeiro com a Sinfonia do
Café, que endossa a impressão de que o melhor do cd O Doutor
do Baião está mesmo nas músicas menos badaladas da dupla.
Assim como na Deus me Perdoe interpretada por Pagodinho, na Baião
de Dois de Caetano e em Mangaratiba, a Sinfonia do Café vem à
tona como outra preciosidade de Gonzaga e Teixeira que todo mundo precisava
conhecer. Rita Ribeiro aparece bem à vontade nesta parceria enxarcada
de ufanismo, bem à moda da Carmem Miranda exportada para os States.
O belo trabalho concebido por Wagner Tiso, que como arranjador do disco optou
por minimizar em todas as faixas o acento percussivo típico do
baião, confere à Sinfonia do Café um dos melhores momentos
do tributo.
Maria Bethânia segura o rojão que é regravar Asa Branca,
o grande sucesso de Lua e Teixeira, enquanto Gal Costa faz dobradinha com
Sivuca em Adeus, Maria Fulô, dele com o letrista homenageado, num enfoque
bem distindo daquele impetrado pelos Mutantes no álbum Technicolor.
Chico Buarque vem de Kalu, que tem música e texto de Teixeira,
Carmélia Alves estampa toda a sua autoridade genuína no
baião, com Gil e Lenine perfilando duas faixas cada um. O primeiro
com No Meu Pé de Serra e Juazeiro, e Lenine em Respeita Januário
e Qui Nem Jiló.
Fagner, que tem participação majoritária no disco como
Elba Ramalho - ambos com três músicas - canta O Dono dos Teus
Olhos, Xanduzinha e Légua Tirana, esta dividida com a cantora e atriz
paraibana. Elba interpreta ainda Paraíba e também Assum Preto,
estupenda criação solo de Humberto Teixeira, que talha primorosos
texto e melodia. E, fechando o cd O Doutor do Baião (título
procedente pela formação acadêmica de Humberto Teixeira,
que era médico e advogado), o Gran Finale com Asa Branca.
Há quem tenha chorado a ausência de Alceu Valença e
Dominguinhos neste tributo da Biscoito Fino, mas isto em nada embaça
o projeto, ilustrado com muita felicidade pelo Gringo Cardia da capa e pela
foto de Humberto Teixeira, num apartamento à beira-mar, que embeleza
a contracapa.
Felipe Tadeu
Brasilkult@aol.com |