O corpus das 500 cantigas d' amigo, compostas entre 1220 e 1350, por um total
de 88 poetas, é o maior corpus de poesia amorosa de voz feminina que
sobreviveu da Europa medieval e antiga. Oferece um campo ainda pouco explorado
para o estudo da voz feminina, ou seja, do discurso, do direito, da sexualidade,
da mentalidade (por muito que essa voz possa ser manipulada, os aspectos
arcaicos destes poemas, a nível social, linguístico e musical,
sugerem que essa voz é genuína nas suas origens). Além
disso, muitos estudiosos defenderam que entre as cantigas d' amigo há
sequências organizadas para execução. Se elas existem
e acredito que possa ser demonstrado que sim estas seriam as
primeiras sequências de cantigas amorosas em qualquer língua
vernácula na história da literatura europeia, providenciando
uma oportunidade única para estudar a evolução de uma
forma de arte lírico-dramática a partir das suas partes
constituintes, algo com que Aristóteles aparentemente apenas podia
sonhar.
Assim, lemos cantigas d' amigo não apenas porque as achamos belas,
musicais, engenhosas, eróticas, bem delineadas, mas porque são
a fonte principal para um capítulo ainda por escrever na história
da cultura europeia. Mas isso será assunto para uma outra ocasião.
Aqui direi, tão brevemente quanto possível, quais as suas fontes,
quando e como foram editadas até hoje e como as tratei nesta
edição.
Rip Cohen
(informação da editora) |