setembro / september
2003 |
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Urariano Mota:
Os corações
futuristas
Edições Bagaço, 1997
276 páginas |
Falar da repressão durante a ditadura militar no Brasil não
é tarefa fácil. Transformá-la em literatura sem recorrer
a clichês e falsas mistificações parece mais difícil
ainda e exige disciplina e habilidade artística que permita um
balanço rigoroso entre a narração realista de acontecimentos
reais e a ficcionalização de imaginários e sonhos daqueles
que se opuseram à ditadura, movidos de impulsos bastante diversos.
Em seu romance Os Corações Futuristas, Urariano Mota,
escritor e jornalista pernambucano, tráz nos um ponto de vista duplamente
periférico daquela época: do cenário de Pernambuco,
onde a repressão bateu tão forte como no Rio, em São
Paulo ou em Minas Gerais, mas muito menos visível ao resto do mundo,
e segundo, da perspectiva de três jovens anti-heróis, garotos
normais, cuja ingenuidade política talvez seja até representativa,
mas que mesmo assim se tornaram vítimas do sistema em corpo, mente
e coração.
João, Carlos e Samuel, cujas vidas Urariano acompanha de 1969 a 1973
não são militantes políticos guiados por ideais, ideologias
e heroismo. São jovens insatisfeitos, em fase de se tornarem independentes
dos pais, à procura de trabalho, amor, de seu lugar na sociedade e,
sim, aventuras também. Mas há sempre o medo, que tem a ver
com o seu enquadramento numa classe média baixa, sem recursos financeiros
para grandes desvios e farras. Pois é este o ambiente abafado da
»revolução« de Pernambuco, em que os três de
repente se encontram, despertam, sem sequer terem sonhado. É a
repressão que os guia, não tanto a própria vontade,
de coragem nem falar. O jogo revolucionário de discursos políticos,
música popular, poesia e filosofia, em que no final dos anos
60 uma maioria de jovens a nível mundial se envolvia, torna-se em
realidade brutal, quando a polícia assassina dois de seus companheiros,
amigos, inocentes e ingênuos como eles, acusando os de serem
»terroristas«. A seguir o grupo inteiro é tormentado pela
polícia, e alguns escolhem o caminho da clandestinidade. Agora sim,
tornam-se militantes a sério. E através de suas ações
ainda quase insignificantes e inofensivas, mas agora sim, ilegais, acabam
justificando, posteriormente, a sua perseguição, a prisão,
tortura, morte ou exílio. E ainda, nenhum deles se torna herói.
Alguns rendem-se à tortura e tornam-se traidores, outros enlouquecem,
e alguns conseguem escapar literalmente: para a Suécia, os Estados
Unidos após umas breves passagens pelo Chile de Allende,
destruído no dia 11 de Setembro de 1973.
A par de sua narrativa envolvente, linear e realista, Os corações
futuristas desenvolve também qualidades de um ensaio sobre os
efeitos do »sistema« sobre o espírito de uma sociedade.
Termo um pouco esquecido no decorrer da suposta pós-modernidade após
o »fim da história«. Diz o autor: »Uma geração
inteira teve seu destino interrompido, sem esquecer que parte dela o teve
corrompido, numa espécie de subterrânea execução
em massa de potenciais lideranças comprometidas, realmente, com os
destinos da população brasileira«. Não só
por isto é que este romance »periférico« mas altamente
inquietante, devia ser lido. Apesar de ter sido publicado 6 anos atrás
e apesar da situação política brasileira se ter afastada
mais do que nunca daquilo que foi há quase 40 anos.
(mk) |
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