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Urariano Mota:
Os corações futuristas

Edições Bagaço, 1997
276 páginas


Falar da repressão durante a ditadura militar no Brasil não é tarefa fácil. Transformá-la em literatura sem recorrer a clichês e falsas mistificações parece mais difícil ainda e exige disciplina e habilidade artística que permita um balanço rigoroso entre a narração realista de acontecimentos reais e a ficcionalização de imaginários e sonhos daqueles que se opuseram à ditadura, movidos de impulsos bastante diversos.

Em seu romance Os Corações Futuristas, Urariano Mota, escritor e jornalista pernambucano, tráz nos um ponto de vista duplamente periférico daquela época: do cenário de Pernambuco, onde a repressão bateu tão forte como no Rio, em São Paulo ou em Minas Gerais, mas muito menos visível ao resto do mundo, e segundo, da perspectiva de três jovens anti-heróis, garotos normais, cuja ingenuidade política talvez seja até representativa, mas que mesmo assim se tornaram vítimas do sistema em corpo, mente e coração.

João, Carlos e Samuel, cujas vidas Urariano acompanha de 1969 a 1973 não são militantes políticos guiados por ideais, ideologias e heroismo. São jovens insatisfeitos, em fase de se tornarem independentes dos pais, à procura de trabalho, amor, de seu lugar na sociedade e, sim, aventuras também. Mas há sempre o medo, que tem a ver com o seu enquadramento numa classe média baixa, sem recursos financeiros para grandes desvios e farras. Pois é este o ambiente abafado da »revolução« de Pernambuco, em que os três de repente se encontram, despertam, sem sequer terem sonhado. É a repressão que os guia, não tanto a própria vontade, de coragem nem falar. O jogo revolucionário de discursos políticos, música popular, poesia e filosofia,  em que no final dos anos 60 uma maioria de jovens a nível mundial se envolvia, torna-se em realidade brutal, quando a polícia assassina dois de seus companheiros, amigos, inocentes e ingênuos como eles, acusando os de serem »terroristas«. A seguir o grupo inteiro é tormentado pela polícia, e alguns escolhem o caminho da clandestinidade. Agora sim, tornam-se militantes a sério. E através de suas ações ainda quase insignificantes e inofensivas, mas agora sim, ilegais, acabam justificando, posteriormente, a sua perseguição, a prisão, tortura, morte ou exílio. E ainda, nenhum deles se torna herói. Alguns rendem-se à tortura e tornam-se traidores, outros enlouquecem, e alguns conseguem escapar literalmente: para a Suécia, os Estados Unidos – após umas breves passagens pelo Chile de Allende, destruído no dia 11 de Setembro de 1973.

A par de sua narrativa envolvente, linear e realista, Os corações futuristas desenvolve também qualidades de um ensaio sobre os efeitos do »sistema« sobre o espírito de uma sociedade. Termo um pouco esquecido no decorrer da suposta pós-modernidade após o »fim da história«. Diz o autor: »Uma geração inteira teve seu destino interrompido, sem esquecer que parte dela o teve corrompido, numa espécie de subterrânea execução em massa de potenciais lideranças comprometidas, realmente, com os destinos da população brasileira«. Não só por isto é que este romance »periférico« mas altamente inquietante, devia ser lido. Apesar de ter sido publicado 6 anos atrás e apesar da situação política brasileira se ter afastada mais do que nunca daquilo que foi há quase 40 anos.

(mk)

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