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Luandino Vieira:
A vida verdadeira de Domingos
Xavier
reedição
Caminho
116 páginas |
«De todos os cantos da prisão chegaram vultos que se sentaram,
silenciosos, à volta do irmão a morrer. Um moço tirou
seu velho casaco de fardo e cobriu com ele o peito pisado e rebentado do
tractorista. Só a cara estava agora descoberta, banhada na luz da
lua entrando na janela. O velho bêbado continuou a choramingar no seu
canto. A lua espreitava nas frinchas, nas janelas altas, e veio cobrir na
cara serena e tranquila de Domingos Xavier. O sangue foi correndo, noite
fora, cada vez com mais devagar, respiração cada vez mais fraca,
a cara esmagada virando naquela cor esbranquiçada da morte. O moço
que estava espreitar atrás de várias cabeças arriscou
mesmo baixinho:
- Aiuê! Parece é, tá dormir ainda...
Verdade mesmo, Domingos Xavier dormia para os seus irmãos, feliz em
sua morte, de madrugada, com a luz da lua da sua terra a sair embora para
contar depois, todas as noites, a história de Domingos Xavier.»
Domingos António Xavier, o tractorista, nunca fizera mal a ninguém.
Só queria o bem do seu povo e da sua terra. E por lhes querer bem
não falou os assuntos do seu povo nem se vendeu. E por lhes querer
bem o mataram. E por isso, no dia da sua morte, ele começou a sua
vida de verdade no coração do povo angolano.
(informação da editora)
A vida verdadadeira de Domingos Xavier é um clássico da literatura
angolana. Foi traduzido para vários idiomas. |
Todos os livros apresentados na novacultura estão
disponíveis na Alemanha através do TFM-Centro do Livro e do
Disco de Língua portuguesa:
http://www.TFM-online.de |
Leia também:
Nosso Musseque
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O romance, escrito na prisão da PIDE em Luanda entre
Dezembro de 1961 e Abril de 1962, manteve-se até hoje inédito.
A sua publicação agora, 40 anos depois de ter sido escrito,
revela um Luandino Vieira no seu melhor: um retrato do musseque luandense,
retrato físico, paisagístico e humano, que só um grande
escritor pode conseguir. A galeria de figuras humanas que o romance nos apresenta
Carmindinha, a jovem costureira; Capitão Abano, marinheiro
de cabotagem; sô Augusto, o electricista, derrotado pela vida e convencido
de que a pode derrotar com o seu famoso livro; Albertina, a prostituta branca
do musseque, que vende e dá amor às mãos largas; Zito,
o endiabrado conquistador compulsivo; e tantos, tantos outros, constituem
um vasto mundo que, pela arte com que está apresentado neste livro,
fascina o leitor e o arrasta irremediavelmente para dentro de si.
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