| Pícaras demandas e bem-fadados encontros
Na malha de coincidências e acasos que urdem a teia da vida, acontecem,
por vezes, bem-fadados encontros. Encontro com um autor, Paulo Moreiras,
com uma obra, A Demanda de D. Fuas Bragatela, com uma personagem,
herói (ou anti-herói) de uma epopeia de miséria e de
fome, aventureiro sonhador num mundo onde grassa a peste e o mal, protagonista
de uma »poética história« repleta »de grandes
e fantásticas cousas«. Sempre »esgalgado e
desgorgomilado«, em permanente confronto com fidalgotes »bem
cevados« e »atoucinhados«, clérigos gordurosos, ratoneiros
mal encarados, estudantes boémios, mancebas experientes em
»malícias e delícias«, mouros regatões
,
D. Fuas Bragatela arrasta-nos, ora por estradas reais, ora por semideiros
escusos, em demanda de um dos mais importantes tesouros da Cristandade. Ele
é o pícaro que »quis chegar ao alto, vindo de baixo, por
virtude e engenho próprios«. De Trancoso a Pombal, passando por
Coimbra e dando um salto a Espanha para pelejar na batalha do Salado, o percurso
da sua existência é por ele gravado num »pequeno
canhenho«, para que sirva de exemplo ao filho que, na ausência
forçada do pai, assim o poderá vir a conhecer um pouco melhor.
É esse canhenho que Paulo Moreiras nos revela, regalando-nos com uma
impressionante riqueza de linguagem recheada de termos saborosos, com uma
prodigiosa imaginação que se traduz numa vertiginosa e suculenta
sequência de peripécias surpreendentes, com uma cuidada
construção da narrativa que apela à cumplicidade atenta
do leitor, enfim, com um manancial de informações, produto
de um aturado trabalho de pesquisa sobre alimentação medieval,
costumes judaicos, fontes da literatura tradicional
Como se lê na contracapa do romance, o autor, que cultiva o amor das
palavras, »oferece-nos as irresistíveis aventuras de uma personagem
quixotesca, na qual existe um pouco de todos nós, portuguesinhos à
beira-mar plantados. Parta, pois, o leitor em sua demanda e não se
arrependerá em momento algum«. Garanto.
Margarida Cardoso |