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manuel antónio pina: os papéis de k.Manuel António Pina:
Os Papéis de K.



Assírio & Alvim
80 páginas

Onde está o Poeta Manuel António Pina neste livro Os Papéis de K.?

Claramente, Manuel António Pina é poeta. Um grande poeta, reconhecido como um dos maiores poetas portugueses vivos.

Encontro-o na postura. Questiona permanentemente. Não há certezas, antes se colocam dúvidas, hipóteses. Perspectivas possí­veis de uma mesma realidade - uma realidade multifacetada, feita de memórias.

Na passagem para a narrativa, esta realidade multifacetada concretiza-se, por exemplo, nas identidades que nos são apresentadas. Todas as personagens têm identidades, nomes e histórias alternativas. O próprio narrador duvida do seu papel em toda a história, põe em causa a sua memória "se calhar não me recordo dos factos, mas da minha recordação deles". E vê-se reinventado no final do livro, como se o mundo, subitamente, lhe tivesse dado outro papel. Assustador? Desconfortável? Talvez...

Todas as interpretações da história que nos é contada são possí­veis. A verosimilhança está muito mais na ficção do que na realidade, assim nos desafia o autor. A volubilidade do real, ao qual não é consentido nenhuma firmeza, nenhuma estabilidade.

Questiona-se, assim, o papel da literatura, que é apenas reescrita. Não é uma fraude. Nunca o poderia ser, porque «a literatura é, pela sua própria natureza, mistificação». Esconde mostrando de forma evidente. Dá com uma mão e retira com a outra. Esse é o jogo da literatura com o leitor. Sempre presente na comunicação escrita de Manuel António Pina. Seja poesia ou não.

E o papel do leitor é deixar-se levar:

»Mas não olhes para trás, não olhes para trás, ou jamais te perderás«


Ficção da ficção da ficção

Que compreensão poderemos tirar do livro? Como apreender a história simples e com tantas ressonâncias que nos é contada?

Sim, claro, o nosso papel é acreditar, sabendo que nos estão a mentir. Mas acreditar em quê? Todo o conhecimento que vamos adquirindo com a história é alterado por várias vezes.

Neste contexto, o narrador é-nos muito próximo. Apesar de ser o principal culpado das dúvidas, porque se calhar não se recorda de factos mas da sua recordação deles, é a sua principal vítima, acabando por ser reinventado pelo correr da história. É o narrador, antes me mais, que sofre com o desconforto da realidade em constante reconstrução, revisão. E diz ele a propósito de K.:

»Escrevera ele uma ficção, ou tentara, desesperadamente, descobrir um sentido, uma razão, em tudo o que acontecera, algo a que pudesse amparar-se de modo a poder, senão aceitar, pelo menos compreender? Porque, no meio do desespero, compreender pode confortar e pode, se possível, permitir um pouco de paz.«

E assim, com esta simplicidade, se levantam mais questões. Filosóficas, psicológicas, sociológicas, religiosas... Poderá parecer só literatura. Só uma novela. Está cheio de ressonâncias.

Belém Barbosa

Todos os livros e CDs apresentados na novacultura estão disponíveis na Alemanha através do TFM-Centro do Livro e do Disco de Língua portuguesa: http://www.TFM-online.de

Manuel António Pina nasceu em 1943, é poeta e jornalista profissional. É autor de »livros para crianças« em que a imaginação reina soberana e libertariamente, num estilo poético inconfundível. Além dos poemas que se encontram – em verso ou não – espalhados por »livros infantis« publicou também volumes poéticos, denotando igualmente (...)  uma vocação de escrita excepcional em que o autor visa nietzscheianamente alcançar »à beira do princípio, do precipício«, »uma segunda e mais perigosa inocência« (Roteiro da Literatura Portuguesa)

mais dados biográficos:
instituto camões
projecto vercial

na internet:
poesias e prosas
o nome do cão
amor como em casa

leia também:

uma resenha no citador.pt


livros disponíveis

poesia
Cuidados Intensivos
• Algo Parecido com Isto ,da Mesma Substância
(Poesias 1974-1991)
Pequeno Livro de Desmatemática (ill.: Pedro Proença)
Perguntem aos Vossos Gatos e aos Vossos Cães (ill.: Pedro Proença)
Aquilo que Os Olhos Vêem Ou o Adamastor
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