Onde está o Poeta Manuel António Pina neste
livro Os Papéis de K.?
Claramente, Manuel António Pina é poeta. Um grande poeta,
reconhecido como um dos maiores poetas portugueses vivos.
Encontro-o na postura. Questiona permanentemente. Não há certezas,
antes se colocam dúvidas, hipóteses. Perspectivas
possíveis de uma mesma realidade - uma realidade multifacetada,
feita de memórias.
Na passagem para a narrativa, esta realidade multifacetada concretiza-se,
por exemplo, nas identidades que nos são apresentadas. Todas as
personagens têm identidades, nomes e histórias alternativas.
O próprio narrador duvida do seu papel em toda a história,
põe em causa a sua memória "se calhar não me recordo
dos factos, mas da minha recordação deles". E vê-se
reinventado no final do livro, como se o mundo, subitamente, lhe tivesse
dado outro papel. Assustador? Desconfortável? Talvez...
Todas as interpretações da história que nos é
contada são possíveis. A verosimilhança está
muito mais na ficção do que na realidade, assim nos desafia
o autor. A volubilidade do real, ao qual não é consentido nenhuma
firmeza, nenhuma estabilidade.
Questiona-se, assim, o papel da literatura, que é apenas reescrita.
Não é uma fraude. Nunca o poderia ser, porque «a literatura
é, pela sua própria natureza, mistificação».
Esconde mostrando de forma evidente. Dá com uma mão e retira
com a outra. Esse é o jogo da literatura com o leitor. Sempre presente
na comunicação escrita de Manuel António Pina. Seja
poesia ou não.
E o papel do leitor é deixar-se levar:
»Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás«
Ficção da ficção da ficção
Que compreensão poderemos tirar do livro? Como apreender a história
simples e com tantas ressonâncias que nos é contada?
Sim, claro, o nosso papel é acreditar, sabendo que nos estão
a mentir. Mas acreditar em quê? Todo o conhecimento que vamos adquirindo
com a história é alterado por várias vezes.
Neste contexto, o narrador é-nos muito próximo. Apesar de ser
o principal culpado das dúvidas, porque se calhar não se recorda
de factos mas da sua recordação deles, é a sua principal
vítima, acabando por ser reinventado pelo correr da história.
É o narrador, antes me mais, que sofre com o desconforto da realidade
em constante reconstrução, revisão. E diz ele a
propósito de K.:
»Escrevera ele uma ficção, ou tentara, desesperadamente,
descobrir um sentido, uma razão, em tudo o que acontecera, algo a
que pudesse amparar-se de modo a poder, senão aceitar, pelo menos
compreender? Porque, no meio do desespero, compreender pode confortar e pode,
se possível, permitir um pouco de paz.«
E assim, com esta simplicidade, se levantam mais questões.
Filosóficas, psicológicas, sociológicas, religiosas...
Poderá parecer só literatura. Só uma novela. Está
cheio de ressonâncias.
Belém Barbosa |