| Cruzei-me com o Daniel duas vezes. Não conheço
o Daniel. É um estranho com quem me cruzei e com o qual simpatizo.
A segunda vez que me cruzei com o Daniel foi na apresentação
pública do seu primeiro livro, Olhos de Cão, das
Publicações D. Quixote, que aconteceu na livraria Bulhosa,
em Entrecampos, Lisboa.
Li o livro. O livro demonstra a cidade. Demonstra a cidade que se impregna
e cresce em nós. Uma cidade. A cidade de cada um. A cidade de personagens
tingidas pela afirmação simples de serem humanos: homens.
Temporalmente localizados entre 1997 e 1998 e escritos posteriormente, os
textos que se encontram no livro, fazem de Lisboa o centro de mobilidade
das personagens. Uma Lisboa comum, mas desconhecida de muitos: o Chiado,
o Bairro Alto, a rua de S. Bento... nesta Lisboa, vamos encontrar os nossos
personagens (re)conhecendo-se por sinais, por sentimentos... e, por partilha
dos mesmos lugares físicos. Mas existe lugar às raízes
de infância, a terra da avó. Existe o lugar à morte das
razões que nos ligam às raízes... e que nos renovam.
Daniel J. Skråmestø é um autor nascido na geração
da movida individualista, os grupos não existem! O que existe é
uma comunhão de ideias que se interseccionam, mas nunca são
aceites no seu todo pelos indivíduos que as partilham. Os personagens
principais deste conjunto de textos são homossexuais. Libertam-se
e comprometem-se com o tempo, mas sofrem encarcerados pela incompreensão
dos outros... a falta de empatia... a falta de conclusão dos seus
desejos... a incomunicabilidade, como referiu Eduardo Prado Coelho e confirmada
pelo autor, na sessão de apresentação do livro.
A escrita de Daniel J. Skråmestø é simples e aberta,
isto é, não esconde o que se pretende dizer nem faz rococós.
Passa pela música de Jeff Buckley, a filosofia de Kant e Hegel e a
semiótica de Omar Calabrese, sem que seja essencial conhecer o trabalho
destes homens para sentir e mergulhar na história... na estória.
Talvez seja fácil não gostar desta estória. Se não
houver pontos de contacto com a realidade da acção, dos
sentimentos, da dor, etc. é possível que nos passem ao lado
a acção, os sentimentos, a dor, etc.. A escrita fragmentada
deixa o leitor respirar e imaginar um enredo maior do que o que é
lido... Para isso é necessário que o leitor esteja preparado,
predisposto a tal.
A escrita fragmentada deste livro vem mostrar que a nova escrita portuguesa
está bem... existe em mim uma exacerbada vontade de dizer: não
gosto de clássicos... mas isso pouco importa. O que importa é
saber que me entendo com esta escrita perdida de sentimento, romântica...
incompreendida.
José Manuel F. dos Santos |