Chico
César esteve de volta ao continente europeu no superverão de
2003 se fazendo acompanhar por uma entrosada banda com o baixista Swami Jr,
Simone Julian nos sopros, Guilherme Kastrup na percussão e Marcelo
Jeneci nos teclados e acordeão. Na bagagem do artista paraibano, nascido
em Catolé do Rocha, canções de seu último disco,
o Respeitem Meus Cabelos, Brancos, além de uma penca de sucessos
como »Mama África«, »Onde Estará o Meu Amor?«
e »À Primeira Vista«. E como já é de praxe
em sua carreira, foi na Alemanha que Chico fez a maior parte de suas
apresentações.
Estivemos presente no concerto de Kassel, realizado sob a tenda do Kulturzelt,
e saímos de lá com esta entrevista. Lucidez e franqueza, mais
dois talentos deste nobre cidadão Francisco César
Gonçalves.
Você é um artista que vem todo ano à Europa.
Em que país daqui você faz mais sucesso?
O
país onde eu mais toco é na Alemanha, mas há muitas
manifestações especiais em outros lugares como em Portugal
e na Espanha. Em Barcelona, por exemplo, existe um clube de amigos de Chico
César. É um grupo que não é exatamente um clube
de fãs, são pessoas que gostam também de Chico Science,
Tom Jobim, Fórum Social Mundial, cachaça, caipirinha, que são
contra a globalização e gostam de Chiapas, de Manu Chao, enfim,
é uma ideologia.
Legal ser ícone de uma turma de gente esperta...
E sou também um dos sócios, já que me fizeram pagar
um euro para ter minha carteirinha. Sou o sócio número zero,
vamos dizer o »meu primeiro amigo«. No começo deste clube
eram só duas meninas que eu nem conhecia pessoalmente, nunca as tinha
visto, e elas resolveram criar este movimento e me mandaram
informações pela internet, perguntando se eu teria interesse
de entrar para o clube. Ainda agora, quando toquei em Barcelona, eles já
eram uns quarenta cantando todas as minhas músicas, do começo
ao fim. São pessoas que trabalham com crianças de rua, que
desenvolvem atividades em outros países e vão para o Fórum
Social Mundial de Porto Alegre não só para arranjar namorado.
Isto me deixa muito contente porque é sinal de que a semente que eu
plantei há muitos anos aqui na Europa tem um elemento muito próprio
da minha história, que vai frutificando cada vez mais. É
óbvio que há pontos em comum entre mim e Ben Jor, Lenine, Brown
e Daniela Mercury, mas cada um de nós tem as suas especificidades.
As minhas estão ficando cada vez mais claras, de que sou um artista
que vem do underground, mas que já faz tempo que não está
mais nele, e que tem acesso ao mainstream, mas só lida com ele enquanto
houver liberdade de expressão mesmo. Quem monta meus discos é
a minha expressão, não a minha necessidade de ganhar dinheiro.
Isto faz com que, às vezes, o meu trabalho seja pouco compreendido
num mundo onde a lógica é a de que os artistas sigam ganhando
cada vez mais dinheiro, estando sempre na crista da onda e tal. Quero ser
conhecido, ser respeitado, de forma que o meu trabalho esteja em contato
com outros trabalhos que admiro. Isto vem se tornando claro na Europa, como
já se tornou no Brasil. Assim como »bem, o Chico é um
pouco um caso à parte«.
Você nutre um carinho especial pela Alemanha. Já viveu
um tempo aqui, tomou decisões importantes com relação
à carreira musical também aqui na Alemanha. O que mais te agrada
neste país, nesta cultura?
Eu tenho uma ligação com a Alemanha que vem da infância,
do fato de ter estudado numa escola de freiras alemãs que fugiram
da segunda guerra mundial. A minha tia lavava roupa para as freiras e eu
ganhei uma bolsa de estudos para entrar para a escola delas. A minha
infância foi vivida dentro do austero Colégio Normal Francisca
Mendes, que em princípio era um colégio interno de moças,
mas que passou a ser para homens também quando eu entrei e deixava
de ser só internato. Tinha muita mulher para poucos homens e as freiras
também já eram misturadas, pois muitas delas eram ex-alunas
brasileiras. Mas a cabeça do colégio ainda era alemã,
tendo à frente as irmãs que foram para o Brasil. Sempre achei
muito bacana esta mistura de humanismo com rigor, com organização.
E desde pequeno eu sabia quando isto virava apenas reacionarismo,
castração à liberdade de expressão. Muitas vezes
as pessoas querem que tudo ande direitinho e isto faz com que o indivíduo
não possa se manifestar. Muita gente vê os alemães um
pouco assim, como pessoas bitoladas. Já eu tive a sorte de conhecer
muitos alemães loucos, diferentes. Eu me lembro do quanto eram curiosos
aqueles santinhos, com aquelas letras meio góticas (a velha grafia
alemã) e eu não entendia nada. O fato de ter entrado para esta
escola significou poder estudar música, teatro, artes plásticas
e esta parte do rigor e da curiosidade.
Era um colégio evangélico?
Não, católico franciscano. Depois eu fui ver que a escola era
um tesouro que nós tínhamos lá na cidade. Aliás,
ela ainda existe, mas sem o mesmo brilho de antes. Uma vez, em São
Paulo, eu fui matricular minha sobrinha numa escola mais alternativa e encontrei
por acaso uma amiga minha que era professora de lá. Ela me disse assim,
»olha Chico, veja que legal, nós temos um piano no auditório
da escola!«. Eu disse para ela, »olha, me desculpe, mas no
colégio que eu estudava quando era garoto havia quatro pianos.«
Ela me perguntou então se eu havia estudado na Europa, mas não,
foi no sertão da Paraíba. Era um tempo em que as pessoas
valorizavam a relação com a cultura, com a música. A
minha ligação com a Alemanha começou mesmo muito cedo.
Depois, na primeira vez que vim para a Europa, foi justamente neste país
que fui parar, graças à Malu Fontenelle da Sociedade Cultural
Brasil-Alemanha, que me convidou para fazer uns shows por aqui. Tenho
também muitos amigos que estudaram na Waldorfschule, como é
o caso de Simone Julian, que toca na minha banda. É curiosa esta
ligação que eu tenho com o país, eu acho que um dia
vou viver uns seis meses diretos na Alemanha, sabe?
Quando você veio para a Alemanha também era o
teu primeiro contato com o estrangeiro, certo?
Sim, foi. Eu vim sozinho, levei uma geral no aeroporto de Frankfurt, depois
perdi minha agenda e até chegar em Tübingen foi fogo! A verdade
é que apareceu muita gente me ajudando. Às vezes eu estava
no metrô, numa estação de trens, e eu batia o olho assim
em alguém, num soldado, ou num punk, ou numa freirinha e eu chegava
lá e »Oh, I'm sorry, I don't speak german«. Parecia que
eu sabia inglês, mas não falava porra nenhuma. E todo mundo
me ajudou. Chegaram a carregar malas para mim! Os meus amigos falaram depois
que eu havia nascido com uma estrela na testa, dizendo que alemão
não era tão bonzinho assim, de deixar de fazer o que está
fazendo para levar um neguinho lá não-sei-onde. Mas tem
também o outro lado, porque talvez pelo fato de ser negro e estrangeiro
é que fui o único a levar geral naquele avião da LAP
(Líneas Aereas Paraguayas) que desceu em Frankfurt.
No show que você vem apresentando no Brasil e pelo mundo
afora há como cenário quatro quadros com os retratos de Garrincha,
Jackson do Pandeiro, Escrava Anastácia e Madame Satã. O que
eles representam para você?
Os quatro têm em comum o fato de que, aquilo que poderia ser um defeito,
pode ser justamente sua grande arma, seu grande instrumento. Veja as pernas
tortas do Garrincha! Ele poderia ser considerado um aleijado, mas acabou
dando um drible na vida. Como descendente de índios e de negros, um
mameluco pobre de uma cidade pequena perto do Rio de Janeiro (Pau Grande),
de repente transforma aquilo na sua maior qualidade. Já o Jackson
do Pandeiro, com um instrumento tão pequenininho, nordestino, paraibano
pobre de Alagoa Grande, conseguiu reinventar a síncope na música
brasileira no jeito dele cantar, de tocar o pandeiro. Isto é um
mérito, o de transformar a sua »pequenez«, o seu
»problema« na sua grande qualidade. Já Madame Satã,
a gente poderia dizer que tinha uma feminilidade macha. Imagine só,
o cara viver na Lapa barra-pesada, Rio de Janeiro anos 50, negro e pobre
assumindo que era viado e encarando a polícia, derrubando três,
quatro... E ainda apoiando pessoas necessitadas. Quanto à Anastácia,
escrava no Brasil, mas rainha na África, é eterna por ter feito
do silêncio imposto a ela, por tanto protestar, uma bandeira e uma
voz. Ela que fez daquela mordaça um grito de liberdade para os negros.
O que os quatro têm em comum para mim é esta mensagem.
O Brasil perdeu há pouco Itamar Assumpção,
um artista muito singular no cenário musical das últimas
décadas. Você poderia falar um pouco das tuas impressões
sobre ele, já que vocês eram parceiros?
Itamar morreu no dia dos namorados. Morreu de câncer, sabia que tinha
a doença há uns quatro anos e trabalhou até os últimos
dias compondo, fazendo projetos. Penso que ele morreu feliz porque tinha
uma neta, filha de Anelis, a Rubi. Eu escutei Itamar Assumpção
e Arrigo Barnabé - eu não consigo dissociar um do outro -,
quando eu ainda morava em João Pessoa. Nesta época, o meu grupo
Jaguaribe Carne com os irmãos Paulo Ró e Pedro Osmar abriu
uma apresentação de Arrigo. Era o show »Clara
Crocodilo«, de 1982 ou 83, que tinha Vânia Bastos cantando, Tonho
Penhasco na guitarra e uma turma boa. Quando eu vi Arrigo Barnabé
atuando, senti que aquilo era uma mensagem muito clara para mim, a de que
havia em São Paulo um lugar para a minha música. Senti que
devia deixar João Pessoa, mas não só por largar a cidade.
Era ir para São Paulo para viver no ambiente em que viviam aqueles
artistas: Itamar Assumpção, Arrigo, Tetê Espíndola,
Grupo Rumo, Premeditando o Breque etc. Aquela cena me interessava, era vital
para mim. No primeiro dia em que cheguei na Vila Madalena, acho que foi em
16 de maio de 1985, era uma noite de lua muito bonita. No dia seguinte, de
manhã, eu fiquei sentado na calçada assim, olhando o movimento
que não era quase nada e me passa o Arrigo Barnabé! Ele, de
sobretudo e tal, andando na calçada. Eu o vi e nem falei "bom dia"
para não estragar a visão. E disse para mim: puxa, esse é
o lugar em que tenho que viver! Depois conheci a cantora Vange Milliet e
começamos a fazer um trabalho na mesma época em que ela
começava a cantar com o Itamar. Ela levou umas fitas minhas, depois
Itamar Assumpção parou com a banda Isca de Polícia e
criou as Orquídeas do Brasil. Aí através de Vange eu
chamei algumas destas orquídeas para trabalhar comigo, como Tata
Fernandes, Simone Soul e Simone Julian. Eu tenho a felicidade de ter me tornado
parceiro do Itamar, fato que para mim foi como um sinal de que eu era benvindo
naquele meio, naquela realidade. Mesmo ele sabendo que eu não era
exatamente um artista daqueles que vinham para São Paulo para ficar
ali no underground, para ser cultuado por um público restrito.
Além de »Dúvida Cruel«, que você
gravou no teu primeiro disco, chegou a rolar outras parcerias entre vocês
dois?
Eu tenho umas músicas com ele que estão, de certa forma, perdidas
numas fitas k-7 na casa de Tata Fernandes. Mas eu vou, logo que puder, dar
uma procurada. Acho que são duas músicas.
Você vem atuando cada vez mais como produtor, trabalhando
em discos como o da cantora amazonense Eliana Printer, no de Miriam Maria,
além do teu próprio Respeitem Meus Cabelos, Brancos.
Chico César está gostando de estúdio tanto quanto de
palco?
Na verdade eu não gosto de estúdio, não (risos). Mas
vou aprendendo cada vez mais a gostar. Já com o palco, eu subo nele
desde criança. Eu era desses meninos que no dia das mães gostava
de ir lá em cima e falar uma poesia. Quando eu tinha dez anos, já
tinha um grupinho de música, sabe? Mas só fui gravar mesmo
quando fiz 30 anos, um disco gravado ao vivo. Talvez por isso é que
o meu primeiro álbum seja considerado uma referência dentre
os outros que eu fiz. Para muita gente, o Aos Vivos (1994) é
o meu melhor disco. É por isso que me deu o maior alívio quando
eu lancei este meu último disco, o Respeitem Meus Cabelos,
Brancos, e a crítica disse que era o meu melhor até agora.
Eu falei »ufa«, pois pelo menos eu não fico mais ligado
ao Aos Vivos, porque para mim o primeiro foi um disco simples de fazer.
Se eu quisesse, poderia fazer um Aos Vivos por ano. Mas não
queria uma fórmula. Ouvi Salif Keita e então eu queria misturar
esta acústica de aldeia, de cidade pequena, com o urbano. Com o tempo,
você vai aprendendo a equacionar os recursos de estúdio, procurando
auxílio em outras pessoas. A sonoridade deste meu último cd,
o conceito dele, tem coisas eletrônicas mas que não são
subservientes a ela. Não teria porquê. Eu gosto de fazer
canções, sei fazê-las, então não posso
deixar que a eletrônica fique em primeiro plano.
Ou seja, para entrar em estúdio, só se for algo muito
especial.
É. Eu produzi também uma faixa para o disco de Elba Ramalho,
sendo que no de Miriam Maria a gente está começando a trabalhar,
eu e Simone Soul. Devo produzir também Zezo Ribeiro, um violonista
brasileiro que vive em Madrid e que veio estudar violão flamenco e
quer fazer uma coisa diferente agora, um disco de canções.
Nós devemos gravar um disco bem rápido, só voz e
violão, para ser lançado no mercado europeu.
Esta turnê européia de 2003 teve algum tempero novo?
Tem, nós estamos gravando também um DVD com uma equipe da
Áustria. Eles viajam conosco dentro do ônibus, filmando intimidades
que o público em geral não tem acesso.
Quem acompanha a tua carreira musical desde o começo sempre
ouviu falar do Jaguaribe Carne. Você poderia contar mais sobre este
grupo do qual você foi integrante?
Chico- Eles são dois irmãos, Paulo Ró e Pedro Osmar,
de origem muito pobre lá de João Pessoa. Eles sempre ouviram
a melhor música do mundo, tudo o que você imaginar, desde os
discos da ECM, até música étnica do Paquistão,
dos índios do Xingu, Frank Zappa, coisas muito bacanas mesmo. E eles
me adotaram quando cheguei em João Pessoa com meus dezesseis anos,
isto no fim da década de 70. Eles viram em mim uma fagulha de talento
e acabei ficando com eles um tempão, enquanto que paralelamente eu
ía fazendo minhas coisas. O Jaguaribe Carne era mais um grupo de
música experimental. Ciranda, maracatu, côco, caboclinho, coisas
que doze anos depois viriam aparecer para o Brasil através de Chico
Science, já eram para a gente naquela época material cotidiano.
Nós misturávamos isto tudo com poesia pornô, música
aleatória etc.
Vocês também tinham um componente teatral forte,
não?
Tinha de happening. Quando a gente abriu o show de Arrigo Barnabé,
ele ficou meio chocado conosco e disse que éramos os punks da caatinga.
Ele achou aquilo bem forte e ficou interessado. O Jaguaribe Carne já
tem diversos discos e agora vai sair mais um, de canções, com
participações de Elomar, Xangai, Lula Queiroga, Lenine, Zeca
Baleiro, eu e Elba Ramalho. Este trabalho vai sair por um selo que eu criei,
o Chita Discos. Será o primeiro disco do meu selo, que se compromete
a ser a última opção para os artistas. Não quero
criar para mim uma carreira de dono de gravadora, e sim para lançar
trabalhos que não vão ter espaço de jeito nenhum em
outro lugar. Vou vender estes discos nos meus shows, e os artistas vendem
nos deles. E este cd do Jaguaribe Carne é uma mostra do quanto estes
dois irmãos ensinaram a muita gente, a mim, a Lenine, Lula Queiroga
e etc., já que nós todos somos devedores deles, como rios
beneficiários do Jaguaribe. Será um disco que mostrará
também como o grupo se relacionou com outras estéticas como
a de Elomar, por exemplo, que é bem diferente deles. A Elba Ramalho
foi a primeira a gravar Pedro Osmar, lá no comecinho dos anos 80.
Ela fez duas, três músicas dele, daí a gente ter feito
questão de convidá-la para gravar mais uma agora.
Qual a tua avaliação sobre a gestão de Gilberto
Gil no Ministério da Cultura?
Quando ele foi nomeado, eu achei que fosse ser uma coisa meio simbólica,
mas o Gil me surpreendeu muito positivamente. Ele assumiu mesmo o
ministério, começou a questionar a forma como as verbas de
promoção cultural estavam sendo distribuídas e isto
foi bom. Eu pensei antes que, bom, o Lula vai botar o Gil porque ele é
uma personalidade internacional. Mas pô, Gil pega no batente todo dia,
ali, e trabalha pra caramba. Foi uma grata surpresa ver um homem já
com os seus 60 anos, que tem o trabalho dele de tocar, cantar e compor e
chamar ainda para si uma responsabilidade tão grande. Verba para cultura
no Brasil é um ninho de vespas! Talvez com sua experiência como
administrador, como auto-empresário, venha a trazer uma boa
contribuição para a cultura.
Foi realmente interessante ver Gilberto Gil divergindo de outros
ministros para tentar elevar o orçamento da pasta de cultura, que
é vergonhosamente ínfimo.
Pois é, porque não adianta você ter o melhor ministro
da cultura se você não tem verba. Não adianta a gente
ter diversos ministérios se o ministro da economia é quem manda,
ou se você tem um Banco Central independente que faz o que quer. Se
for assim, não adianta.
Você é um artista engajado na causa do MST e apóia
o governo Lula. Como é que você tem visto o crescimento dos
conflitos de terra no Brasil em 2003?
Eu na verdade acho bom. O conflito ainda é pequeno, pois é
uma questão que vem sendo adiada por centenas de anos no Brasil. Quase
todas as nações do mundo fizeram a sua reforma agrária
e nós não. O governo Lula foi eleito com bandeiras de esquerda
e está administrando agora uma herança deixada pelo projeto
neoliberal com bastante aplicação e rigor. Eu acho que se as
pessoas forem esperar pelo Banco Central e pelo ministério da economia
não vai acontecer nada. É mais que justo que, quem quer terra,
que ocupe a terra! Quem quiser cultura, que ocupe a cultura! A sociedade
tem que se manifestar, senão o governo vai ficar nas mãos das
pessoas que sempre tiveram o poder. ACM tem poder no Brasil desde antes da
ditadura militar. E entra governo, sai governo, acaba a ditadura e estas
pessoas vão ficar mandando? O PFL mandando? É um absurdo que
precisa acabar. E se o governo Lula tem o rabo preso com os ruralistas, isto
não é um problema do MST. Ele que se arrume. Eu acho natural
que o conflito de terra cresça e acho que isto é bom. Que ele
se espalhe, que ganhe as cidades na forma de ocupação de
prédios públicos para que a sociedade reconheça que
o problema existe. Há milhares de pessoas que gostariam de ter terra
para trabalhar, de ter escolha para os filhos no campo e não têm.
Você já faz idéia de como será teu sexto
disco?
Vai ser um álbum de canções mais acústico, com
mais temas de amor. Devo gravá-lo no começo de 2004 para sair
em junho, ou julho.
Pelo mesmo selo que tem lançado teus trabalhos, o MZA?
Sim, eu tenho um contrato com o Marco Mazzola (proprietário da gravadora)
para fazer mais dois discos com a MZA.
Você está contente com o trabalho deles?
Olha, na verdade não. Eu já falei para eles que esta
relação entre artistas e gravadoras é sempre tensa,
que quando não existir tensão é porque alguma coisa
está errada (risos). O que acontece é que nós
estávamos sendo distribuídos pela Universal, mas aí
o Mazzola passou a distribuição para a Abril Music. Aí
fomos todos para a Abril, eu, Zeca Baleiro, Rita Ribeiro, Gal Costa, e a
gravadora que era nacional e que tinha um grande potencial, investiu nos
mesmos esquemas em que as gravadoras tradicionais investem com seus produtos
principais: muito rádio, muito jabá, promoção
etc. O resultado é que faltou dinheiro para investir no nosso trabalho
porque, quando nós entramos, a barca da Abril já estava afundando
e a gente não sabia. Teve disco que saiu e três meses depois
a Abril estava fechando, como aconteceu com o último do Zeca Baleiro.
Agora a MZA e a Abril estão se processando para ver quem fica com
as fitas e os nossos discos não estão nas lojas.
A indústria fonográfica mundial está atravessando
uma grave crise, e é justamente disto que estamos falando. Por outro
lado, os pequenos selos têm se fortalecido no mercado, abrindo
possibilidades interessantes. Como é que você acha que vai acabar
esta novela toda de majors, de jabá e de internet? O músico
pode sair mais valorizado deste processo todo?
Não tenho a menor idéia. Outro dia eu estava
discutindo com dois proprietários de pequenos selos, dizendo que os
selos são muito bons para eles, mas são ruins para os artistas.
Se você tem um selo que consegue vender três mil cópias
de um artista, eu digo, meu, nenhum artista vai ficar satisfeito com só
três mil! Muitas vezes os selos não bancam para o músico
gravar o disco. Eu já acho estranho gravadora que não grava!
Aí o artista vai, gasta dez mil dólares, banca o álbum.
Com ele vendendo estas três mil cópias, aquele dinheiro que
você gastou para gravar nunca vai voltar. Já o dono do selo,
que não tem só este artista, mas digamos vinte, vendendo três
mil de cada um deles para o selo está ótimo. São 60
mil discos vendidos. Mas eles falam, »não, mas para isso eu tenho
diversos funcionários«. Eu acho que há muita gente que
não faz música vivendo da música e o próprio
artista não. Para o músico ter os dez mil para bancar o seu
próximo disco vai ter que trabalhar em outro lugar. Esta é
uma discussão que os selos pequenos não querem encarar porque
é desconfortável. Eles querem aparecer como os salvadores da
lavoura. Há gravadoras que não vivem de música, que
são financiadas por bancos, por indústrias de, sei lá,
de tickets de alimentação, por exemplo, como é a Trama.
Cara, no dia que alguém falar que estas gravadoras vão ter
que viver do que elas produzirem, não vai rolar. É preciso
equacionar isto dos dois lados, fazendo com que as gravadoras pequenas possam
realmente se arriscar a bancar os artistas e os seus discos, e que as gravadoras
ditas comerciais invistam na qualidade, senão o que você vai
ter são só estas »ilhas de qualidade« que são
fictícias. |