«Porque a literatura é uma arte
escura de ladrões que roubam a ladrões.»
Depois de uma fantástica passagem pela prosa/ficção,
Manuel António Pina regressa ao terreno sagrado da poesia.
«O que o livro diz é não dito» (pág. 9) O
retorno à poesia faz-se pelo habitual caminho do questionamento do
papel da literatura em geral e da poesia em particular. Papel no mundo, e
papel no nosso mundo, específico, individual. A busca constante, em
que as palavras serão aquilo que nos resta, apesar de não as
conseguirmos dominar, de permanecerem um universo por descobrir.
Pelas páginas do livro atravessamos espessas florestas, dominadas
por uma «escuridão luminosa». Revisitamos sonhos, revendo
a nossa avaliação: «eu sobrevivi / pelo lado errado e
pela razão errada.» (pág. 15)
O livro mantém-se numa zona indefinida da realidade e da
ficção, «Oh, juntar os pedaços de todos os livros
/ e desimaginar o mundo, descriá-lo» (pág. 17), encerrando
em si pistas, pontos de luz, mas essencialmente a dúvida, a busca.
«O passado não está pronto para nós,
nem o futuro» (pág. 22)
Belém Barbosa |