| «Por quê meu atraso diante desta
duração?»
Marcante na obra de Noll, um narrador deambula, na tentativa de sobreviver,
de escapar à falta de casa, sem contudo conseguir adquirir alguma
estabilidade. A rua e a deambulação são não só
o ponto de partida, mas o meio onde se vai desenrolando a história,
em que o destino das personagens se constrói através de estranhos
golpes de sorte, aos quais se acomodam, com receio de despertar para o passado
pior.
Neste caso, temos um narrador que ocupa um apartamento em construção
e ao abandono, e que vai escrevendo poemas em pedaços de papel, enquanto
tenta arranjar emprego. A sobrevivência é ténue, e sempre
em risco. Nas ruas acumula-se a pobreza, a falta de saídas, o desespero.
A descrição do Brasil urbano é dura, com olhos rasgados
para a miséria e a falta de soluções. Neste contexto,
todas as ajudas, por mais estranhas e incompreensiveis que sejam, são
aceites de olhos fechados. Porque o que urge é escapar a esta realidade
de rua, que engole os deambulantes,
Neste momento, toda a obra de Noll está a ser reeditada pela sua nova
editora. O quieto animal da esquina estava esgotado há alguns
anos, e agora volta a estar acessível à descoberta dos leitores.
Belém Barbosa |