| O que é uma casa? Saramago responde que para Baltasar
Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas era olharem-se; que para Jesus era
estar acompanhado por Maria de Magdala; que para o pintor H era uma forma
do deserto; e que para Ricardo Reis era um lugar de trânsito e de vida
em suspenso.
Saramago secciona o edifício para se revelarem as intimidades da vida
quotidiana.
Em O Pensamento Arquitectónico na Obra de José Saramago
Arquitectura e Literatura são dois mundos criativos que com excessiva
frequência se desentendem: Saramago transpõe a linha
fronteiriça e propõe um território partilhado; este
ensaio é dedicado à caligrafia desse lugar.
«José Joaquín Parra Bañón, um arquitecto
de Sevilha, veio mostrar-me o seu projecto de tese de doutoramento, cujo
tema será, nem mais, nem menos, o que ele designa por "pensamento
arquitectónico na obra de José Saramago". Que Monsieur Jourdain
(para citá-lo uma vez mais) andava a fazer prosa sem dar por isso
desde que aprendera a falar, já o sabíamos, mas o que eu nunca
esperaria era que se pudesse encontrar nos meus livros algo, que não
só merecia ser chamado "pensamento arquitectónico" como poderia
interessar a um arquitecto, ao ponto de fazer de tal "pensamento" objecto
de tese. Céptico ao princípio da conversa, acabei por render-me
aos argumentos de José Joaquín Parra, e agora o que sinto é
uma enorme curiosidade.»
José Saramago, in Cadernos de Lanzarote Diário III,
(4 de Dezembro de 1995)
Índice:
Introdução
Capítulo I: ACERCA DA CASA LITERÁRIA
I.1 Sobre palavras e arquitectura
I.2 Arquitecturas verbais
I.3 Os nomes da arquitectura
I.4 Caligrafia doméstica
Capítulo II: ACERCA DA CASA DESABITADA
II.1 Cela: a casa do solteiro
II.2 A casa do desassossego ou O Ano da Morte de Ricardo Reis
II.3 A casa do assédio ou História do Cerco de Lisboa
II.4 A casa do deserto ou Manual de Pintura e Caligrafia
II.5 A casa do viajante ou A Jangada de Pedra
II.6 A casa do segredo ou Todos os Nomes
Capítulo III: ACERCA DA CASA HABITADA
III.1 Morada: a casa partilhada
III.2 A casa pequena ou Levantado do Chão
III.3 A casa mutilada ou Memorial do Convento
III.4 A casa cúbica ou O Evangelho segundo Jesus Cristo
III.5 A casa móvel ou A Jangada de Pedra
III.6 A casa desamparada ou A Caverna
Capítulo IV: ACERCA DA CASA ÍNTIMA
IV.1 Sobre as divisões da casa
IV.2 A casa adormecida
IV.3 A casa sonhada
IV.4 A casa morta
Capítulo V: ACERCA DA CASA ESBURACADA
V.1 Sobre os orifícios e sua nomenclatura
V.2 A porta: o limiar da casa
V.3 A janela: o ânimo da casa
Capítulo VI: ACERCA DA CASA HUMANIZADA
VI.1 Teoria da caixa
VI.2 A casa das coisas
VI.3 A casa mobilada
Capítulo VII: ACERCA DA CASA DISSIMULADA
VII.1 Sobre a arquitectura não doméstica
VII.2 A construção da casa: o convento
VII.3 A ausência da casa: o templo
VII.4 A pele da casa: o escritório
Capítulo VIII: ACERCA DA CASA DAS CASAS
VIII.1 Sobre a cidade: a casa entre as casas
VIII.2 Tratados de poliorcética: Lisboa
VIII.3 A cidade anónima
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