A renovada república velha
«ditadura civil»
Ditadura civil é um bom conceito para definir o regime que,
na prática, manda no País
Os sucessivos presidentes civis pós 1985 obedecem aos mesmos
parâmetros de governabilidade, com destaque para a intervenção
direta na economia, sempre a favor do arrocho, e contra o desenvolvimento
dá-se o nome de luta contra a inflação, mas o
certo é dependência total do sistema especulativo financeiro
internacional. Nem a chamada ditadura militar (que foi, do berço ao
seu final, civil/militar), chegou ao nível de intervenção
dos governos ditos democráticos.
A recente conversão de Lula ao modelo instaurado a partir de 1964,
quando a ortodoxia atrelou o País definitivamente aos ditames das
necessidades imperiais do Primeiro Mundo, e que na heterodoxia dos planos
econômicos serviu apenas para aprofundar essa subserviência,
prova que este é um sistema rígido que não admite
defecções, sob risco de perda de poder.
Outro item que define a atual ditadura civil são as medidas
provisórias, instrumento do regime ditatorial que sobreviveu à
abertura e hoje obedece ao pulso legisferante do governo. A
expropriação do suor da população, via arrocho
tributário, juros extorsivos e indiferença social completam
um quadro de caos institucional, já que há consenso de que
a situação ultrapassou o limite e que a guerra instalada em
todo o País, no campo e na cidade, define o rosto de um País
que acreditou, em vão, na sua redenção.
O poder do chamado coronelato civil, da velha e da nova guarda, via currais
eleitorais, corrupção e crime organizado (como atestam os
inúmeros escândalos, que não conhecem limites para se
expandir por todo o tecido social e em todos os níveis de poder),
lembra os antecedentes ditatoriais da República Velha, quando imperava
o voto de cabresto, as nomeações para cargos políticos
que passavam por cima dos resultados das eleições e o continuismo
descarado. Temos inclusive de volta o velho rodízio São Paulo
Minas, com incursões do Nordeste (como Sarney, Collor e Lula, mas
este pertence mais aos quadros paulistas).
Depois do mineiro Itamar e do paulista FHC, veio Lula, que poderá
ser substituído por Aécio Neves, governador de Minas que está
sendo preparado para as próximas eleições presidenciais,
como anunciou o ícone da direita Antonio Carlos Magalhães,
e como atesta o trato que a imprensa oficial (revista Veja e rede
Globo) está dando para o novo candidato, que inclusive já
viaja ao Exterior como virtual candidato.
as cinzas do trabalhismo
O inimigo número 1 desta renovada República Velha é
o trabalhismo, contra quem foi dado o golpe de 1964. O golpe aconteceu porque
a ascensão irreversível do trabalhismo nas urnas definia o
presidente que seria eleito em 1965, Leonel Brizola. A providência,
para consolidar o regime de 64 era tirar de escanteio esse movimento social
e político que governou o país por décadas e praticamente,
como disse Samuel Wainer, inventou o Brasil moderno. Foi por isso que o
trabalhismo levou um golpe de morte quando a histórica sigla PTB foi
entregue a Ivete Vargas e hoje roda na mão de políticos como
o ex-governador paulista Fleury, que estava no poder no massacre do Carandiru.
Com o PDT, Brizola luta até hoje endemicamente, aliando-se a torto
e a direito com políticos oportunistas que mais levam dele do que
lhe trazem contribuições. Foi fatal para a consolidação
da ditadura civil a derrota de Brizola em 1989 para Lula, que serviu exatamente
para isso. O PT nasceu das cinzas do trabalhismo, veio do sindicalismo fundado
por Getulio Vargas, que garantira sua existência com a presença
da polícia. Quando Lula chegou ao ABC, estudou numa
instituição fundada na era Vargas, o Senai e começou
sua carreira política no sistema sindical que veio de Getulio. Derrotar
Brizola foi seu grande feito, que o projetou como candidato viável
para a direita. Infelizmente, foi só com a vitória de Lula
nas eleições passadas que o Brasil conseguiu tomar conhecimento
da verdadeira natureza do governo petista, que se destaca pela
tributação extorsiva, a entrega da soberania, a
estagnação econômica e o descalabro social, como atestam
os altos índices de desemprego.
regime de cartas marcadas
O que chamam de democracia no Brasil é um regime de cartas marcadas,
onde a imprensa endividada está sob forte censura patronal e
política, participando ativamente dos joguetes do poder e tentando
desmoralizar qualquer manifestação, mesmo que venha de redutos
conservadores, que conteste a atual situação. Basta ver como
a revista Veja debochou do manifesto do Partido Liberal que pedia
a redução da taxas de juros e um novo modelo econômico
voltado para o desenvolvimento, o que é o óbvio, menos para
quem é pago para manter o quadro ditadorial em que vivemos. Ao lado
desse esforço, existe um longo processo de desmoralização
da era Vargas, uma manifestação poderosa que vem da universidade
brasileira e que se consolidou na política quando o trabalhismo foi
confundido com populismo para que não pudesse mais voltar ao poder.
Um dos autores da tese do populismo, Francisco Weffort, mudou-se de armas
e bagagens para FHC, o que apenas confirma (junto com todas as outras gritantes
evidências) que esses dois últimos governos fazem parte do mesmo
movimento anti-Brasil.
Ao colocar o trabalhismo como uma ditadura obsoleta (esquecendo-se a lavada
de votos trabalhistas de 1945 a 64), consolida-se uma situação
de desamparo ao trabalhador, já que a carteira assinada está
em declínio. Foi-se a estabilidade e a indenização,
pelo menos em sua maior parte. Era o que os vampiros internacionais queriam.
Para isso ajudaram a instaurar entre nós a ditadura civil, que nada
mais é do que o regime de 1964 legalizado por meio de uma
constituição frankestein e por meio da violência geral
numa guerra que faz milhares de mortes entre a população, que
está refém dos seus algozes. Estes, acabam levando todo o lucro
do esforço de todos. |