Os anos loucos da ditadura
Se nos permitem uma generalização, diremos que as narrativas
relacionadas à ditadura no Brasil têm sido de quatro gêneros:
as dos heróicos militantes de esquerda, todos bons e virtuosos, porque
de esquerda, como as do romance da fase comunista de Jorge Amado; as
autobiográficas, ainda mais heróicas, porque o autor, no centro
dos acontecimentos, insinua que o fato político não existiria
se o protagonista-autor não existisse, como as de Fernando Gabeira;
as das covardias e grandezas na formação de jovens militantes,
aos encontrões na angústia da repressão; e as de uma
variante desse último gênero, as de jovens que sofreram aquele
período maldito, eles próprios malditos, porque marginalizados
estavam até dos grupos de esquerda.
E se cabe uma simplificação, diremos que o livro Universo
Baldio, de Nei Duclós, se encontra entre as narrativas do quarto
gênero. O que é, de imediato, uma diferença. Assim dizemos
porque nele há coisas por vezes esquecidas por autores e leitores
de todos os gêneros. Uma delas é que para falar de gente mergulhada
num universo político é preciso falar de gente de cara e dente:
gente que caga, que mija, que fode, que ama e fracassa. Gente política
é como toda a gente, tão boa ou ruim quão todo o mundo.
No Brasil, nem mesmo bons autores conseguem escapar dessa inobservância.
Em Quarup, Antonio Calado narra um personagem que, ao aderir à
luta revolucionária, ganha de brinde a vitória sobre a
ejaculação precoce. Se nos permitem uma paráfrase,
diríamos que em Universo Baldio os jovens não venceriam
a ejaculação precoce, mas poderiam a ela se referir, em uma
sessão de fumo: «está tudo certo, tudo bem, meu
irmão».
Em lugar de personagens épicos, temos nesse livro jovens provincianos
à procura de um caminho, «qual? isso existe?», parecem
perguntar. E daí vem uma outra coisa: a literatura referente a um
período de ditadura, a um tempo de guerra, não remete só
e somente à humanidade que pegou em armas. Ou dito de outra maneira:
há várias maneiras de se empunhar um fuzil, uma delas é
narrar o que resta na sua falta. Aqui e ali, há referências
em suas páginas ao filme Deus e o Diabo na terra do sol, de
Glauber Rocha. (E lamentamos, nenhuma à excelente música de
Sérgio Ricardo, e ao espetacular refrão, «te entrega,
Corisco!...».) Até que se atinja a segunda parte, onde em lugar
dos bichos loucos da primeira parte assoma um fantasma, como numa
«viagem» de ácido. Bons capítulos trazem essa
aparição.
Dissemos bons capítulos da segunda parte, e isso nos impõe
uma reflexão. Os personagens da primeira parte, os bichos loucos daqueles
anos, na impossibilidade de se resolverem nas viagens que o ácido
dá, terminam por viajar «na real», terminam por sair de
um paraíso perdido em Santa Catarina, e assim, partindo, vão
esvaziando a cena.
«Mas ao cruzar a ponte Hercílio Luz, submersa numa neblina de
filmes de terror, agarrou-se a Irma. Sentia medo de partir de novo para o
desconhecido, sem dinheiro, sem roupa, sem emprego. Seus imensos olhos
perguntavam: 'Será que vai dar tudo certo?'
O ônibus desapareceu rapidamente na neblina, saiu da ilha de Santa
Catarina e penetrou desvairado no continente».
Isto é uma necessária passagem para a segunda parte. O mal
do leitor exigente é desejar por vezes a cirurgia, o abstrair o filé
do boi. Certo, poderia ser dito: o que é necessário para a
construção de uma obra não deveria aparecer aos olhos
do leitor. Nem a base do iceberg deve aparecer, como lembrava Hemingway,
nem os vaivéns da linha do cerzido, como falaria um alfaiate. Ou como
diriam palavras do antigo latim, a melhor arte esconde a sua arte. Sim, mas
sem a primeira parte, o que ficaria de Universo Baldio? Uma segunda
parte bem narrada em meia dúzia de capítulos, sem que se entendesse
de onde vinham, e, o que é mais grave, sem a necessária
localização do narrador.
É uma sorte para o leitor que um poeta haja passado por aquela casa
na praia, de jovens marginalizados. Se assim não fosse, não
teríamos relatos que beiram o cômico:
«O do cooper chamou Irma e perguntou à meia voz:
- Ele está muito pirado?
Irma viu um olho roxo na testa do que fazia cooper ...
Irma foi até o banheiro e abriu a torneira. Ficou uns vinte minutos
observando a água em todas as suas cores e formas.
Quando levantou a cabeça viu o rosto de Luís, desfigurado.
A face direita estava repuxada até o alto da cabeça. Luís
observava os cabelos de Irma.
- Tá fazendo o quê com a água?
Irma assustou-se:
- Estou há muito tempo aqui?
Luís tomou o seu pulso:
- Vamos ver as batidas.
Uma voz gritou da cozinha:
- O chá está pronto!
Alípio chegou voando:
- É meu, é meu, é tudo meu!...
O visitante olhava através dos grossos óculos:
- Vocês estão querendo provar o quê?».
É esse poeta que aparece mais livre do factual na segunda parte. Ele
se concentra na linha do narrado como se fosse um verso de um poema, como
nesta frase, que nos atinge sem tempo para levantarmos escudo: «Um dia
reencontraria o amor que ficou perdido numa baldeação em
Cacequi». Esse poeta se acha também em títulos que suspendem
a leitura, como Caçada de Capincho, (de capivara), e mais
particularmente, Lembrança de Saias. (Gostaríamos muito,
um dia, de furtar, roubar e assaltar esse título para uma crônica
sobre a miséria e a felicidade de saias em Água Fria.) Belo,
não é? Ele aparece ainda em títulos que parecem querer
saltar da narração, como em
«Foi o momento principal da sua infância. Sua vida resumia-se
a esse momento e a outro, quando viu o pai pela última vez e ele lhe
deu o único abraço em toda uma vida». Título: o
abraço que nunca recebi do meu pai.
E aí, se nos permitem ir mais longe, diríamos que atravessa
o livro um verso de Bandeira, como um cerzido que não se vê,
«a vida inteira que podia ter sido e que não foi». Ou mais
precisamente: há um drama subjacente que fura a primeira parte e ronda
como um espectro o próprio fantasma da segunda, a saber: a impossibilidade
da livre escolha, a impossibilidade de ser jovem, hippie, no Brasil daqueles
anos, num mundo que não deixava a ninguém essa opção.
Era pegar a estrada, se foder ou morrer.
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