Home

livros

música

agenda

aus deutschen verlagen

temas e estudos

juli / julho
2004

angola

brasil

cabo verde

guiné-bissau

moçambique

portugal

são tomé
e príncipe

timor lorosae

bestellen

suchen

impressum

home

tfm-online


Dialetos de um Brasil sanfoneiro

Era uma vez um garoto pernambucano de seus doze anos, que cuidava dos cavalos de um certo coronel Manoel Aires de Alencar. Um dia, o menino ficou completamente alucinado com um instrumento musical que ele tinha visto em Ouricuri e não quis saber de outra coisa. Como era pobre, o jeito que teve foi se dirigir ao seu patrão, tratando de sensibilizá-lo para que comprasse para ele, por 120 mil réis, aquela sanfona de oito baixos da marca Veado e fizesse, com isso, uma criança feliz. Manoel Aires, tocado em seu coração áspero de manda-chuva da política local, concordou em liberar a metade, contanto que o garoto se responsabilizasse pelo resto do pagamento. O menino aceitou o desafio, como nobre Luiz que era. Aliás, Luiz Gonzaga do Nascimento, que dali a pouco iria se tornar nada mais nada menos que o maior mito da sanfona no Brasil.

Gonzagão, ou Mestre Lua, como preferir o freguês, começava então a se tornar a maior autoridade do fole de Norte a Sul do Brasil. Foi o primeiro músico nordestino a vingar fora de seu rincão, fazendo o Rio de Janeiro e São Paulo caírem aos pés do baião, gênero a que deu forma e honra. Por mais incrível que hoje possa parecer, de 1946 a 56, não havia em território nacional nenhum outro instrumentista tão popular quanto aquele cidadão nascido em Exu. E tanto foi assim, que muitos dos principais artistas surgidos no seio da chamada MPB teriam o acordeão como seu primeiro instrumento e Luiz Gonzaga como mito soberano. Pergunte a Gilberto Gil, a Milton Nascimento, João Donato e Hermeto Pascoal, o primeiro deles baiano, o outro carioca-mineiro, o João acreano e o Hermeto de Alagoas. Mesmo com a morte de Luiz Gonzaga em agosto de 1989, a sanfona permanece ainda hoje como inabalável ícone do povo nordestino, queira a grande mídia ou não. O instrumento que chegou ao Brasil com os primeiros imigrantes italianos na virada do século XIX para o XX, conserva seu poder de encantamento até junto a artistas brasileiros mais ligados ao rock, como eram Cássia Eller, Chico Science e os Raimundos.

Ciente da singularidade do fole e da entusiasmada receptividade dos brasileiros para com esta invenção vienense datada em 1829, a pesquisadora e produtora Myriam Taubkin resolveu se lançar de corpo e alma num projeto que tinha como meta traçar uma amostragem do universo da sanfona no Brasil, apresentando alguns dos mais ilustres instrumentistas do Nordeste, do Sul, do Centro e do Sudeste, abrindo o microfone para que eles pudessem falar de si mesmos e de seus pés-de-bode, gaitas ou oito-baixos. O resultado de tal empenho é O Brasil da Sanfona, uma bela série que engloba dois cd's, um livro de fotografias e um dvd lançados recentemente.

Myriam Taubkin não trilhou sozinha as estradas de barro que levavam ao interior do país, bem ao fundo da sua alma musical. Com ela estavam a fotógrafa Angélica Del Nery e o cinegrafista Sérgio Roizenblit , que contaram com o apoio do Fundo Nacional de Cultura do MinC. O Sesc de São Paulo, que já havia investido em dois projetos anteriores de Myriam - o Violeiros do Brasil, de 1997 e o Percussões do Brasil, dois anos mais tarde -, também não ficou de fora deste O Brasil da Sanfona, que custou três anos de viagens, audições e conversas, que culminaram em espetáculos gravados ao vivo no Sesc Pompéia, em São Paulo.


Respeitando Januário

O ponto alto do projeto são mesmo os dois cd's lançados com capricho pelo selo Núcleo Contemporâneo, de Benjamim Taubkin, irmão de Myriam. Neles estão muitos dos maiores sanfoneiros da atualidade, em blocos divididos por cd. Num dos volumes, estão os músicos da região Nordeste e do Brasil Central como Zino Prado, Camarão, Arlindo dos 8 Baixos, Zé Calixto, Dino Rocha e Elias Filho. O disco traz 13 faixas e dentre elas três interpretadas pelo sucessor de Luiz Gonzaga, o grande Dominguinhos. Ele aparece em Toque de Pife, em Arrastando as Apragatas, ambas dele com Anastácia e em Lamento Sertanejo, clássico assinado por Dominguinhos e Gilberto Gil, uma das mais belas composições nordestinas de todos os tempos. Fechando o álbum, é a vez do poeta Patativa do Assaré declamar o poema Ao Rei do Baião, um valioso registro gravado em dezembro de 2001, poucas semanas antes da morte de Patativa. E enquanto Arlindo dos 8 Baixos traça um medley que vai de Triunfo, de Dominguinhos e Anastácia a Apanhei-Te Cavaquinho, de Ernesto Nazareth e Ubaldo Mangione, passando por Em Cima da Linha, do próprio Arlindo, há também a dobradinha de Zino Prado e Elias Filho em Meu Mato Grosso e em Km 11, a primeira de autoria de Zino, e a outra feita por Constante José e Coquimarola.

O outro cd se concentra nos estados do Rio Grande do Sul e de São Paulo e é provavelmente o mais curioso dos dois discos, por abrir espaço para gaitistas pouco conhecidos fora da região sulista, como os exímios Oscar dos Reis, Gilberto Monteiro e Luciano Maia e - o mais famoso - Renato Borghetti. Conforme Borghettinho afirma no livro de fotos do projeto, "a música da sanfona do Sul tem a influência da fronteira da Argentina com o Uruguai, dessa mistura do espanhol que chegou pelo Prata, com o português que já estava por ali, com o índio, o negro, com os italianos e alemães que chegaram mais tarde". Ao se deparar com os gaúchos, o ouvinte vai lembrar no ato do saudoso Astor Piazzola, autor por sinal interpretado por Oscar dos Reis na linda Adiós Nonino. O volume traz ainda Caçulinha, Toninho Ferragutti e três (!) sanfoneiras que não deixam nada a dever aos barbados: Gilda Montans, Meire Genaro e Regina Weissmann.

O livro de fotografias também impressiona pela sensibilidade das fotos de Angélica del Nery e seus cenários onde a sanfona faz a trilha sonora: a imagem gradeada de Padre Cícero à beira de uma estrada na Serra do Araripe, Pernambuco, ídolo místico que vira marca de pomada legítima em outra foto marcante; a família de Renato Cigano posando com ares de realismo mágico; e os cliques emocionados com a fauna e a flora do Pantanal Matogrossense. Entremeadas por textos muito informativos e depoimentos prestados por músicos notáveis como Oswaldinho (filho de Pedro Sertanejo), Sivuca, Hermeto Pascoal, Dominguinhos e Toninho Ferragutti, dentre outros, as fotografias ajudam a contar as histórias sugeridas pelos temas instrumentais. Histórias de tempos difíceis para os sanfoneiros, como quando do surgimento da bossa nova e dos Beatles, quando o violão passou a ser o instrumento central, conforme nos revela Dominguinhos. Ou dos forrós organizados por Pedro Sertanejo, que atraíam até 4 mil pessoas por final de semana em São Paulo, mas que eram alvo de preconceitos. Um tempo em que, segundo Oswaldinho, "se você passasse com uma caixa de sanfona era ridicularizado. Nós pedíamos alvará para as autoridades para dar segurança no salão e eles mandavam o exército". Muito importante também foi a decisão dos produtores de publicarem o livro em edição bilíngüe inglês-português que amplia o alcance desta louvável iniciativa que é O Brasil da Sanfona. E poder dispor dos contatos telefônicos e e-mails dos sanfoneiros e afinadores do instrumento publicados nas páginas finais é um achado e tanto em termos de utilidade pública.

Já o dvd de Sérgio Roizenblit vale pela oportunidade de vermos tantos feras em ação, ainda que as tomadas sejam algo rudimentares. É bem verdade também que não foi uma boa idéia usar telões atrás dos músicos para passar filmes, pois os artistas no palco foram engolidos pelo estrondo visual. É provável que as telas não tenham atrapalhado tanto aos espectadores presentes no teatro do Sesc, mas o resultado em dvd ficou muito poluído. Há no entanto bons momentos no filme, como da visita à oficina de acordeões de Zino Prado, em Goiânia, quando o músico e técnico de reparos emociona pela poesia de seu relato.

Outro item discutível é o fato dos produtores terem se prendido conceitualmente às versões instrumentais das músicas, afinal, uma letra como a de Lamento Sertanejo, por exemplo, em nada iria prejudicar a série caso tivesse sido cantada por Dominguinhos. Com aqueles versos, quem é que não se arrepia ainda mais com a melancolia da sanfona?

Felipe Tadeu
Brasilkult@aol.com

auf deutsch


Felipe Tadeu
é jornalista especializado em música brasileira, produtor
do programa radiofônico Radar Brasil (Rádio Darmstadt). Radicado na Alemanha desde 91, o autor é também conhecido como
DJ Fila
 

email: brasilkult@aol.com


nas edições anteriores:

»fogo encantado«


»Lula Queiroga«
»solo para Pina Bausch«
»Suzana Salles«
»John Lennon«
»Ângela Rô Rô«
»Flavia Virginia«

»o rappa«
»max de castro«
Humberto Teixeira
Itamar Assumpção
Olívia Byington
Maria João
chico césar

bnegão
Gilberto Gil

Todos os livros e CDs apresentados na novacultura estão disponíveis na Alemanha através do TFM-Centro do Livro e do Disco de Língua portuguesa: http://www.TFMonline.de


nova cultura (issn 1439-3077) www.novacultura.de
© 2003 Michael Kegler, sternstraße 2, 65719 hofheim / novacultura@gmx.de

TFM-Zentrum für Bücher und Schallplatten in portugiesischer Sprache www.tfm-online.de
disclaimer / Haftungsausschluss