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A ambição que grelhou a pata

Era uma vez uma pata, sentada sobre os seus ovos, vendo o pachorrento dia de Fevereiro escorrer lentamente. Estava um calor tão abrasador que a pata sentia-se impelida a ir nadar para o rio que corria muito próximo da sua pequenita casa. Mas infelizmente não podia, pois lá estava, manietando-a, o ensinamento dos antigos: „Quem tem prole tem riqueza“.

— Quem me dera ter um coração humano. — pensou ela — Deixava aqui os ovos e ia refrescar-me.

Mas que agradeça a Deus, a pata, não ser humana nem desnaturada. Tivesse optado pelo mais fácil e, portanto, abandonado os seus ovos, teria cruzado, logo à entrada da sua capoeira, com o lobo mau. Este já há bastante tempo andava a cultivar o desejo de provar uma nova receita que aprendera da raposa e cujo principal ingrediente era justamente uma asa de pato.

Por muito tempo esperou, o lobo, que a pata saísse da capoeira, ansioso por ferrar-lhe o pescoço com os seus dentes afiados. Mas como a pata continuava entretida com os seus ovos, o lobo decidiu precipitar os acontecimentos. Aproximou-se da capoeira e bateu à porta. Sobressaltada, a pata perguntou:

— Quem está aí?

— É o amigo Lobo, querida.

A pata, assustadiça, replicou:

— Não, não lhe abro a porta. O senhor ainda me mata. Afaste-se de mim que estou a chocar os meus ovinhos.

O lobo, manhoso, exclamou:

— Êch!, querida, é assim que se trata os amigos nos dias que correm?! Eu sou seu amigo, dona Patinha. E nós devemos abrir a porta aos nossos amigos. De preferência, devíamos deixá-las sempre escancaradas — E ao dizer isto, o lobo, fazia um sorriso matreiro. Acrescentou, ainda:

— Não aprendeu isso na catequese, dona Patinha?

— Aprendi. Mas penso que o senhor também devia ter aprendido a não ser tão feroz. Vá, diga-me daí mesmo. O que é que o senhor quer?

— Fazer-lhe uma visitinha. Os amigos devem visitar-se, não é verdade?.

A pata, que não era de todo ingénua, retorquiu:

— Desculpa, senhor. Não é por mal. Mas sinto-me muito preguiçosa, hoje. Aliás, apareça quando meu marido cá estiver e talvez eu até lhe sirva um pouco de farelo.

— Onde está o compadre Pato, afinal?

— Na África do Sul. Não sabias? Ele trabalha lá. É mineiro.

— Oh, como pude eu esquecer-me! — fez o lobo, coçando a testa com uma das patas.

E, aproveitando essa informação preciosa, esboçou rapidamente um estratagema para explorar uma fraqueza que conhecia de todas as patas: o gosto pelo luxo. Disse:

— Na verdade, encontrei-me com o compadre Pato lá, na África do Sul, na semana passada. Inclusive, fez-me portador de uma máquina para si.

— Que máquina é essa? — atalhou a pata, os olhos pulando de alegria.

— É uma chocadeira eléctrica, dona Patinha. Alta tecnologia. Vai ajudar-te a chocar os ovos e assim arranjarás mais tempo para desceres ao rio e fazeres aquilo que tanto gostas: nadar de uma margem à outra, como um barquito de papel…

Ao ouvir isto, a pata esvoaçou pela capoeira, tanto era o seu entusiasmo, e apressou-se a abrir a porta.

— Oh, senhor Lobo, que amabilidade a sua! — exclamou.

Este irrompeu pela capoeira, e empurrou a pata violentamente para o fundo. Daí em diante a pata só pôde ver os dentes do lobo na bocarra escancarada, mais afiados que nunca, reluzindo à luz do sol. Da chocadeira nem sombras. A anfitriã ficou-se toda a tremer, as penas todas eriçadas, desejando ardentemente transformar-se em vegetal. Quando se preparava para mandar um qua de socorro, o lobo deu um salto e apanhou-lhe pelo pescoço. Acto contínuo, torceu-o, tanto, tanto, que ficou parecido com um parafuso.

Depois foi só o tempo de acender uma fogueira e, abdicando da receita sugerida pela raposa, grelhou a pata juntamente com os ovos.

Somente as penas restaram para contar a moral da história.

Pedro Muiambo


Pedro Muiambo



Nasceu a 22 de Dezembro de 1972 em Maputo, estudou economia e jornalismo. É colaborador de várias revistas literárias em países de língua portuguesa e na Itália. Em 2004 fundou a editora Mwananga.

O seu primeiro livro, Bestiário foi editado em 1999, pela editora Ndjira. A sua colectânea de contos, A última côdea foi seleccionada para representar Moçambique na fase final do Prémio PALOP do Livro em Língua Portuguesa. Em 2002 publicou a obra infanto-juvenil HAWU-HAWU, uma aventura na selva, também pela editora Ndjira

O seu primeiro romance A enfermeira da bata negra, saiu em 2003 na Campo das Letras, em Portugal. O seu último livro, novamente infanto-juvenil foi editado pela Moçambique Editora e já premiado com a aquisição de mais de 5000 exemplares pela Associação Progresso, para posterior distribuição gratuita nas escolas primárias do norte de Moçambique.

Actualmente prepara a edição moçambicana d'A enfermeira da bata negra pela editora Mwananga.


Livros disponíveis:

A Enfermeira da Bata Negra (Romance 2003)

A Enfermeira da Bata Negra

© Pedro Muiambo 2004


nova cultura (issn 1439-3077) www.novacultura.de
© 2002 Michael Kegler, sternstraße 2, 65719 hofheim / novacultura@gmx.de

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