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São Paulo, PS

Urariano Mota


Urariano Mota
Escritor e jornalista, nasceu em 1950 em Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife, onde vive.
Em 1997 publicou o romance, Os Corações Futuristas.
A sua novela, Japaranduba, 49, está disponível no site www.livrorapido.com.br.
Do seu terceiro romance O Caso Dom Vital (ainda inédito) publicámos um excerto na "literatrip" de Junho 2003.


Aprendi com São Paulo verdades que se sentem e só se vêem depois, como um post-scriptum de revelação.

São Paulo na primeira vez foi a cidade apresentada por um tio, do mais alto edifício da Avenida Rio Branco. Ele era o zelador do prédio, e lá de cima, do teto que me dava vertigem, mostrou uma floresta de edifícios, garoa, monumentos, elevações escuras ao longe.

- Quantas Recifes cabem aqui dentro? Hem, quantas Recifes?

Eu tinha dezessete anos e não sabia o que responder. "A primeira vez que vi Teresa / Achei que ela tinha pernas estúpidas". O que eu via era uma imensidão imensa sem rios Capibaribes. E o Recife, eu não sabia então, era o ventre da minha mãe. Como é que se pergunta a um menino quantas mães dele cabem no enevoado ao longe? Fiquei a balançar o queixo, e devo ter murmurado:

- Muito grande.

Devo ter agradado ao meu tio, porque logo descemos daquele, do que parecia ser um trapézio no alto do mundo.

São Paulo da segunda vez foi a cara de churrasco grego. Com fome, às duas da tarde na Avenida São João, na margem oposta aos Correios, havia um carrasco. Não pensem por favor que errei na palavra churrasco. Na Avenida São João havia um carrasco que passava afiadíssimas facas sobre a carne assada em luz de boite, estroboscópica, como raios de luz de radiola wurlitzer. E não pensem mais uma vez que erro. Em 1978 São Paulo, para mim, era a carne que faltava à hora do almoço, e a carência disso era tamanha que deixava as luzes do churrasco grego com a cor das cintilações da radiola dos bares de putas. (A primeira vez que vi Teresa "achei também que a cara parecia uma perna".) Aos domingos, quando a sorte era amiga, nas padarias São Paulo se transformava na tevê de cachorro: aqueles frangos rodando no espeto, de rosado pingue, em janelas transparentes do forno, de deixar água na boca de todos os mamíferos. Comportados, os baianos de todo o Brasil não latíamos.

Então houve a terceira vez . São Paulo foi as pernas de uma adolescente judia. Na noite de cinco graus celsius, na sala, enquanto conversávamos o rumo da revolução brasileira, a mocinha adivinhou que um de nós não possuía o mais elementar rumo, como, primeiro, achar onde dormir numa noite paulistana. Sentada em almofada no chão, ela ergueu os joelhos para neles apoiar o queixo. A saia longa se abriu como as cortinas do Teatro Santa Isabel. Pensativa, concentrada, ela pôs um sabor de vênus na noite plena de Karel Kosik. Noite de citações dialéticas mas falta do amor concreto. E fria, sim, tão fria, a adolescente, quanto a carne que à nossa fome se oferece e nos diz: "Por onde e para onde pensais ir? Perdei a esperança". Nossos olhos iam e esbarravam na telinha de algodão ao fim de suas longas pernas. A mocinha inteligente, concentrada, parecia insensível aos cinco graus da noite com as coxas tão descobertas. Eu não sabia, a perversidade não tem frio.

Então a cidade foi chegando mais perto da sua revelação. Num bar da Praça Roosevelt, no alto e ao fim de uma escada helicoidal, eu mantive guarda, inútil, estúpida, vergonhosa, covarde, ao corno que levou um conterrâneo. O amigo urso é hoje um alto (por que sempre esses adjetivos para São Paulo? Alta, imensa, grande, vertiginosa? )... o criminoso é hoje um alto executivo de uma grande empresa de comunicações. A infiel é atriz de telenovelas. Na época era atriz de companhias mambembes de teatro. O conterrâneo, coitado, parece que seu melhor papel era ser o companheiro da atriz. Mas o meu foi mais triste. Assisti à bela atriz, então jovem, suave, suculenta e italiana como as massas ao molho vermelho, ah, ouvi, vi, senti, testemunhei o crime de ela ser cantada. E sem poesia. O atual executivo cantou-a com algo tão grosseiro quanto, "quando posso comê-la?", e ela, em vez de uma passional bofetada respondeu , "só não pode ser agora - o amigo aí....", e me apontou com o queixo, como se apontam os cegos numa mesa, porque se pensa que também são surdos.

Então eu me disse, depois dessa terceira vez, "São Paulo, nunca mais". Era sincero, impulsivo, mas não verdadeiro. Eu não sabia nem poderia saber então, porque não possuía a clareza. Agora vejo, 25 anos depois, o post-scriptum da cidade. São Paulo, PS:

Em juras de amor não correspondido não se deve crer.

© Urariano Mota 2004


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