Ali estava o coliseum e eu o vislumbrava pela primeira vez. Estava em frente
a sua ala incendiada. Mais uma marca para ele arrastar pelo tempo. As pedras
naquele lado, calcinadas, tinham metal incrustado a um ponto que elas e o
metal pareciam elementos híbridos. O homem ao meu lado suspira, naquele
lugar com um cheiro nauseabundo. E embargado pela emoção, segurando
as lágrimas, aponta para as pedras calcinadas.
- Aquilo foi um happening de um artista que trabalhava velocidades altas.
Aceleradores de partículas deslocando fótons. Era bancado por
um conglomerado industrial. Isso foi há noventa anos, ele morreu no
happening . Overdose de energia nos reatores, que implodiram e volatilizaram
toda a matéria que estava próxima. Não houve como reparar
o Coliseu, sua estrutura ficou comprometida. E ali, naquela ala, vai ficar
para sempre a marca, tingida de metal. Certas horas da manhã ele brilha.
Um brilho escuro, estranho. O artista montou seu ciclotron, um anel de metal
com tubos aceleradores de fótons azul metálico, que se encaixava
ao ocre-tempo das pedras do coliseu. Um reator na junta do anel pegou fogo
e houve uma grande fissura nos tubos. Principalmente os daquele lado. A imagem
do artista e da máquina já estava sendo vinculada pelas
mídias da época, meses antes. Sorte é que aconteceu
no ensaio geral. Mesmo assim, foram dezenas de vítimas. Se fosse mesmo
no happening, seria uma tragédia. Ele foi um dos primeiros artistas
a trabalhar com máquinas pesadas, era muito famoso. Chamavam-no de
"Number One". Seu filho não teve o mesmo talento, até que
forçaram a barra. Mas ele fracassou. Só treze anos depois um
italiano, Benvenuto, tomou o seu lugar. Trabalhava com máquinas
gigantescas, era apoiado por um consórcio europeu. Criou uma serpente
verde com vários tubos, aceleradores enroscados. Circundavam o
Vesúvio como um colar de jade. À noite, o acelerador operando,
brilhava. Meu pai era criança, se emocionava só de contar.
A obra era chamada de a décima terceira maravilha do mundo. Aí
veio a decadência dessa grande arte. Hoje não há mais
esses artistas, o tempo os levou. Não há mais dinheiro, água,
nada . As máquinas fabulosas ficaram no passado.
- E como começou essa decadência?
- Alguns anos depois que a serpente foi erguida no Vesúvio, um grupo
de americanos planejou várias máquinas , que acopladas, criariam
uma super máquina no deserto da Califórnia em forma de serpente.
Batizaram-na de snake em homenagem a um antigo artista, chamado Richard Serra.
Seria vista até do espaço. Ainda na fase inicial, pesquisa
de material e estudos, a operadora do projeto faliu. Foi um escândalo.
Os americanos foram , por décadas, motivo de chacota por isso. Em
sessenta e três, teve o terremoto que destruiu Nápoles e o
Vesúvio foi sacudido. A serpente, desligada, ficou entortada como
um trompete sob as patas de um touro. Meu pai contava que minha avó
ficou uma semana de cama chorando, e meu avô sentado, calado, por quase
um mês, olhando pela janela o Vesúvio. Sem a serpente verde
como um colar de jade. Minha avó foi enterrada com um colar de pedra
verde, que imitava a serpente. Foi moda durante anos. Logo depois disso,
as corporações romperam suas alianças com os artistas.
Não havia mais verba para as máquinas pesadas. A última
foi feita por um artista japonês, radicado em Paris, há sessenta
anos. Eram tubos azul-celestes pendurados por semi-arcos na vertical, na
margem esquerda do Sena, da Ponte L'Alma a Ponte Invalides. Era uma máquina
esguia, elegante. Vi imagens dela. Não durou muito, seus reatores
produziam muito barulho. E aí houve uma guerra política entre
a prefeitura de Paris e a corporação energética-industrial
que dava suporte. A corporação foi derrotada judicialmente
em um tribunal popular. Emissões sonoras acima do nível tolerado
em uma urbe, foi o veredicto.
- E o italiano?
- Benvenuto enlouqueceu, não conseguiu se adaptar a época das
máquinas menores. Foi internado em Nápoles, sob diagnóstico
de profunda depressão. Do seu quarto via o cume do Vesúvio,e
passou seus últimos momentos o desenhando. Um dia amanheceu morto.
- E as máquinas?
- A cada ano foram diminuindo, até a algumas décadas atrás
acabarem. Com o estado de sítio por causa da falta d'água,
a arte voltou as formas primárias. Hoje, só o mau cheiro, o
calor, e esse sol que dói a pele...
O homem tira do bolso do casaco comprido, algo que deviam chamar de maço
de cigarros. Já vi imagens. O maço era azul claro, com um elmo
com asas. Os cigarros eram curtos. Ele tirou um e não me ofereceu,
e a fumaça se misturou às lamúrias do inválido,
que ao nosso lado se aconchegava para cagar.
CRONOLOGIA
· 1991 - Em 17 de fevereiro, nasce em Long Island (USA), Andrew
Philip Woodcock, o Number One.
· 2001 - Começo da saturação da Arte Conceitual
e da afirmação da Arte Virtual e dos Blogs.
· 2010 - Arte Conceitual entra em total declínio, e a
Arte Virtual se esgota. Blogs tornam-se obsoletos.
· 2013 - Em 2 de agosto, nasce em Nápoles (ITA),
Benvenuto.
· 2015 - Primeiras máquinas são usadas em
happenings.
· 2040 - Number One, com o anel-máquina, explode no Coliseu,
matando 45 assessores e 130 curiosos que observavam a montagem do lado de
fora.
· 2045 - O romance se esgota como gênero. Últimos
remanescentes.
· 2053 - Benvenuto instala a serpente verde no
Vesúvio.
· 2058 - Artistas americanos planejam a super máquina
snake no deserto da Califórnia.
· 2061 - Aberto processo de falência da operadora do projeto
americano.
· 2063 -Terremoto destrói a obra de Benvenuto no
Vesúvio.
· 2066 - Corporações cortam as verbas para as
grandes máquinas.
· 2068 - É instalada na margem esquerda do Sena, a
última máquina. Tinha 1,8km de extensão com tubos com
circunferência de 12m.
· 2073 - Prefeitura de Paris vence batalha na justiça
e retira a máquina, sepultando a magna arte.
· 2075 - Benvenuto morre em Nápoles.
· 2085 - Máquinas pequenas dão lugar à
poesia feita na carne.
· 2101 - Estado de sítio pela falta de água e
de matérias primas.
© Sílvio Barros 2004 |
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