Adriana Lisboa
Caligrafias
92 páginas
Editora Rocco, 2004 |
De Volta pra Casa
Já não é de hoje que se multiplicam até a
exaustão os estudos e narrativas sobre as cidades. Proliferam
seminários, instalações e intervenções
sobre o espaço urbano. Nada de surpreendente, até necessário,
desde que a cidade se tornou na modernidade seu espaço privilegiado.
Mas que fim levou a casa?
Se as narrativas vitoriosas, em termos de crítica e público,
se centram sobretudo no espaço público, nas cidades em
tensão, violentas, como no recente
Cidade de
Deus, romance de Paulo Lins e filme de Fernando Meirelles e Kátia
Lund ou nos trabalhos de Beto Brant, parece que o espaço privado,
a casa, se vê de todo recolhida na produção brasileira
contemporânea, lugar de passagem para o trabalho, para a vida, sempre
mais rica e complexa do lado de fora. A casa fica cada vez mais impessoal,
povoada pela televisão, pela solidão. Nem mais como refúgio
parece a casa exercer um fascínio, talvez até mais uma
prisão, como no curta Ângelo anda sumido de Jorge Furtado,
ou como espaço da maior violência como nos longas de Tata Amaral
e em Como Nascem os Anjos de Murillo Salles.
A casa que já rendeu grandes romances e filmes recua como fonte de
devaneio e beleza. O que restaria? Muito se falou de uma narrativa feminina
que resgata a casa como espaço de resistência, mundo afetivo
em oposição ao mundo masculino do trabalho, impessoal, capitalista.
Mas no pós-feminismo e no pós-gay, a quem pode interessar hoje
os silêncios da casa, quem pode se enriquecer com seus cantos, cada
vez mais iluminados e pouco misteriosos?
Se formos procurar a resposta nos filmes e romances brasileiros de hoje em
dia, a casa parece ainda ser marcada pela nostalgia dos espaços
senhoriais, de um mundo rural perdido, possuindo uma longa tradição,
tendo em Lavoura Arcaica de Raduan Nassar
e na sua adaptação para o cinema por Luiz Fernando Carvalho,
bem como em O Viajante de Paulo César Saraceni seus últimos
frutos nas narrativas brasileiras. O mundo rural, arcaico diante da modernidade,
com sua proximidade da natureza, por ter um outro tempo ainda pode oferecer
paisagens ricas. Há todo um lirismo no registro da casa, para além
da decadência do patriarcalismo rural, em filmes tão diversos
como Memórias de Helena de David Neves, Chuvas de
Verão de Cacá Diegues, e Nunca Fomos tão
Felizes de Murillo Salles, que parece ter desaparecido da cinematografia
brasileira mais recente, mas que ainda parece ecoar em alguns romances
contemporâneos. Caso seja possível uma nova poética da
casa e da intimidade, talvez, o cinema possa reapreender da literatura brasileira
algo que já foi seu também. Penso em um romance particularmente,
que na sua discrição parece falar de uma falta nos nossos
imaginários, mas talvez seja tão impactante, na sua modéstia
e despretensão, na beleza que emerge das pequenas situações,
de seus personagens frágeis, de seus cotidianos banais: Sinfonia
em Branco de Adriana Lisboa.
Sinfonia em Branco oscila entre a casa na fazenda e a cidade,
num mundo em que o patriarcalismo se eclipsa, como em Buriti da
Guimarães Rosa, em que o afastamento da mundo rural parece maior.
Não se trata tanto da morte da casa, como da morte do pai-patriarca.
As indas e vindas no tempo compõem um quadro de personagens modestos,
mas que no entanto resistem e sobrevivem frente à violência
do mundo. Se em Crônica da Casa Assassinada, Lúcio Cardoso
usa a imagem de "um câncer sobre um canteiro de violetas" para definir
seu romance maior, Adriana Lisboa parece construir o núcleo poético
de seu romance a partir da imagem da borboleta voando sobre um abismo : «Na
grande pedreira que encimava o morro mais próximo uma borboleta tardia
abriu suas asas multicoloridas e lançou-se no abismo » (p. 26).
Nada de trágico, épico. Resta um certo tom elevado, sério,
que extrai a beleza do pequeno.
Todo o romance encena a volta de Maria Inês para a casa onde nascera
e a espera dos que retornaram ou se encontraram nela, sua irmã Clarice,
e o primeiro amante, Tomás. A volta à casa não é
a volta do derrotado frente ao mundo, do que não tem escolha senão
sobreviver na sua própria mediocridade, mas de uma percepção
serena dos seus limites. Nem angústia, nem êxtase, mas contemplar
tanto o passado como o futuro sem maiores temores. Como acontece com Tomás,
filho desencantado de esquerdistas, jovem promissor que acaba como pintor
de província. « Não era um homem feliz. Nem infeliz. Sentia-se
equilibrado [ ...] Abdicara de algun s territórios. Desistira da fantasia
de um império. Reinava apenas sobre si mesmo e sobre aquele casebre
esquecido no meio de lavouras de importância nenhuma e estradas de
terra que viravam poeira na seca e viravam lama na estação
das chuvas e não tinham o hábito de conduzir ambições
[...] Seu pensamento era tão pequeno. Tão pequeno. Do tamanho
de um gesto de perfume que uma mulher largasse no ar » (p. 11) Todo
seu corpo parece discreto, o sujeito se desfaz , sem se destacar, na busca
de um « pequeno silêncio », que não se confunde com
o proibido, como nas paisagens com « quase sempre uma estrada que não
levava a lugar nenhum » (p. 13) que faz para seus clientes de classe
média interiorana, « quadros sem ambição
paisagens despidas de qualquer verve . Naturezas mortas mortas.
Abstrações sem sentido e sem desejo de constituir sentido.
Retratos opacos » (p. 23).
Em meio a um mundo de excessos e atordoamentos, de uma arte ruidosa,
grandioloqüente, impactante, em que a desmesura é apenas mais
um elemento de marketing,, aqui temos uma arte da sugestão, do
recolhimento, de modesta ausência de novidades. Por mais dramas que
possa haver, e no fim, há uma sobrecarga de revelações
e ações, não para arrumar conclusões,
soluções, esclarecimentos, estes parecem mais como um leve
tremor no tempo que se estende e apequena dramas e personagens. Não
se trata de indiferença, mas uma espécie de olhar enviesado,
suspenso. Por fim, resta ainda um mistério, não daquilo que
era proibido, sufocado, mas do tempo, dos « anos [que] compunham sedimentos
e aplainava ousadia » (p. 22). A chegada da velhice é encaranda
a parti do mote o tempo é imóvel, mas as criaturas
passam.
O branco do título não diz tanto da assepsia do apartamento
de Maria Inês e seu marido João Miguel, mas de sutis
variações sobre o mesmo, como num quadro abstrato feito por
vários tons de branco. Para Tomás, havia o quadro de Whistler
que dá nome ao livro antes de conhecer Maria Inês. Quando a
conhece é como uma mistura de arte e amor (p. 29). Maria Inês
o deixa, mas sua lembrança fica como um quadro, lembrança de
um amor intenso, forte, irreal, por mais real que tiversse sido, que demora
a ser apaziguada. Amor mais intenso na lembrança que na realidade,
a ponto de Tomás enamorar-se um pouco do sofrimento diante de um amor
tão absoluto (p. 167) porque às vezes o amor se alimenta
de sua improbabilidade (p. 108). Por fim, não se trata tanto
para Tomás de « virar tudo ao avesso para conseguir sobreviver
à perda de uma mulher » (p. 23), mas « apenas uma vida fluida
como um rio sem cachoeiras » (p. 27). Tudo fica mais modesto como a
casa da Fazenda dos Ipês, mítica e cheia de fantasmas na
infância. « Um dia, o esquecimento. Um dia, o futuro. Uma dia,
a morte » (p. 23).
No fim, também Clarice, « um sorriso sem mistérios, ao
pensar que afinal acabara sobrivendo a si mesma » (p. 23). Clarice volta
à casa, vende as terras (p. 25), não para voltar ao início,
necessidade de raiz, porto seguro, autenticidade, nem para dar uma última
satisfação à mãe (p. 26). A volta é um
gesto afetivo, depois de tanta dor, ser uma vez mais criança, não
para esquecer, mas para trazer mais leve a dor. Os quarenta e oito anos de
Clarice não eram uma idade como outra qualquer. Requeriam
silêncio (p,134) Não havia mais nada a ser descoberto,
nenhuma revelação? Clarice não se importava. Estava
apenas esperando a própria espera (p. 210).
O tempo se esfacela. Os medos e amores de trinta anos atrás parecem
como uma ferida não de todo cicatrizada. A menor gesto, parecem se
abrir e sangrar. Por quantos caminhos bifurcavam-se os destinos? Quantas
fantasias tecidas com delicadeza de filigranas viam-se abortadas? Quantas
surpresas inchavam como sombras por trás de cada passo dado? (p. 28).
O que está em jogo na espera de Tomás, de Clarice por Maria
Inês? Acerto de contas? Dizer ainda o quê?
Repetimos. Todo o romance, uma viagem pelo espaço e pelo tempo,
aquela noite seria a mais longa da história (p. 80). A
viagem para Maria Inês começa com despojamento. Melhor
era ser menos, apequenar-se, ser o mínimo possível e reivindicar
o silêncio, a nudez e a liberdade. Melhor era ter as mãos
vazias (p. 111). No caminho, sentia uma delicada solidão,
metade febre e metade amor, onde vingavam suas melhores dúvidas. Depois
de dezessete anos (p. 126). Também Tomás conquista o
desejo de tornar-se pequeno (o menor possível) (p. 129).
Ao longo dos anos ele aprendera as vantagens de carregar consigo poucas
coisas - poucos livros, poucas roupas, poucas amizades e poucas memórias.
Precisava exercitar-se tentando a qualquer custo deixar do lado de fora de
sua vida aquilo que não lhe parecia indispensável. A história
de Maria Inês, por exemplo (p. 156), delírio que demorara
8 anos para se apagar e se apagara (p. 186). A viagem de Tomás é
o encontro com a serenidade: talvez Tomás já tivesse
envelhecido, talvez já tivesse atingido aquela espécie de planalto
onde vão se extinguindo quaisquer formações
geográficas mais intensas, talvez já pudesse apenas testemunhar
a paisagem com seus olhos transparentes e pensar em tudo como passado. Tudo.
Ou quase tudo (p. 130). A serenidade não se apresenta como mera
vontade, nem o deixar-se à deriva (HEIDEGGER, Martin.
Serenidade. Lisboa, Instituto Piaget.s.d., p . 34/5), é associada
ao aguardar, não como consolo (idem, 36), mas como meio de ficar cada
vez mais sóbrio (idem, 60). Sem ter um objeto, é um aventurar-se
no próprio aberto (idem, 43), aguardar por algo sem saber o que,
libertar-se da representação (idem, 44), ao mesmo tempo, caminho
e repouso (idem, 45).
Ainda que distante, a fazenda permanece como epicentro da vida e dos
sonhos de Maria Inês (p. 40), mesmo com 10 anos de distância.
A viagem não é só no espaço, pouco a pouco, o
escondido se insinua no texto, o assassinato da menina Lina, a
violação de Clarice por seu pai, a doença da mãe.
Não só o silêncio como opressão, mas a dificuldade
de fazer face a tantas ambigüidades. Não o silêncio e segredo
ensinados pelos pais (p. 103). Não mais esquecer como Clarice desejava
(p. 76). Para Maria Inês seria impossível um passado fetiche,
agradável (p. 79).
A casa de fazenda aparece sem riquezas, nem muito grande, nem muito pequena.
Nem muito velha, nem muito nova (p. 175). A casa de quando nos encontramos
no meio do caminho, nem na infância, nem na velhice, nem no fim, nem
no inicio. Naquele meio que urge passar, depois de sonhos realizados ou
não, na calmaria, na ausência de paixões, apenas a realidade
suave e nua, cruel e bela. As coisas pareciam menos devastadoras, depois
de vistas de perto. Perdiam o sagrado, ficavam comuns, cotidianas. Reduziam
aquela distância entre elas mesmas e a idéia delas (p.
208) No encontro dos personagens na velha casa, todas as coisas estavam
desembocando naquele lugar naquele momento. Todos os anos vividos, todas
as insuficiências desses anos e tudo o que neles havia sido em demasia.
Todas os perigos, todas as promessas, todo o amor que amadurecera em
indiferença e toda a estrutura que sobrevivera livre de ornamentos
(209) As pessoas mudam, embora o significado que um dia tiveram não
mude (213) No fim, o que fica não é só a
memória do corpo (p.218), mas alguma presenca delicada
ali: a alma do mundo (p. 118).
A volta para casa é um gesto para além de toda mágoa,
rancor, como se à beira da velhice fosse possível, apesar de
toda lembrança, a redescoberta de uma outra infância, a aposta
em aberto, o horizonte das coisas concretas, a alegria que aceita a vida
sem restrições; não o apaziguamento, indiferença,
mas a espera sem saber o que, sem motivo. Mesmo a morte de Otacília
se traduz como uma última casa: Ouviu as vozes das filhas
conversando, no quarto ao lado, o quarto de Maria Inês. Depois ouviu
um pouco menos, e sentiu uma vertigem que a fez pensar num navio em alto-mar
em meio a uma tempestade. Depois também a vertigem passou, e ela abriu
os olhos, e sorriu porque, na verdade, tudo era tão simples
(p. 144).
A volta pra casa não se apresenta como fracasso da viagem, das
metáforas da deriva, como o filho pródigo que retorna a sua
família arrependido, nem como prisão no cotidiano. Retornar
à casa também não é fuga do presente, nem nostalgia
de uma infância e passado idealizados, perdidos, mas gesto de
construção, mais do que de reconstrução, mais
do que um lugar, uma possibilidade de encontro. Construir uma casa afetiva,
uma família conquistada. Voltar para uma nova casa, onde se possa
novamente pertencer.
A leveza aparece como antídoto da melancolia. Frente a dor que não
passa, a modesta alegria simplesmente por viver, não por ter ganho
algo. Não resistir ao apequenamento das coisas e pessoas. O retrato
embaçado. A água saindo pelo ralo. A poça onde antes
era um mar. Um momento onde antes era toda a vida, o que importava. A leveza
da deriva, a liberdade frente ao peso da orfandade. Vestígios de desejos
tardiamente percebidos. Encanto ao conseguir lembrar feliz as perdas. Suave
delicadeza de um ocaso. Antes de desaparecer totalmente do mundo, a
beleza existirá ainda alguns instantes, mas por engano. A beleza por
engano é o último estágio da história da
beleza (KUNDERA, Milan. A Insustentavel Leveza do Ser. 20ª
ed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985, p.107).
A leveza se associa ainda a uma filosofia do apagamento (BACHELARD, Gaston.
O Ar e os Sonhos. 2ª ed., São Paulo, Martins Fontes, 2001,
p. 171) e a uma ética da invisibilidade alternativa à propalada
por diversos movimentos minoritários. Este elogio do silêncio
e da sutileza talvez seja o maior desafio da obra em construção
de Adriana Lisboa. |
Denilson Lopes |
Todos os livros e CDs apresentados na novacultura estão
disponíveis na Alemanha através do TFM-Centro do Livro e do
Disco de Língua portuguesa:
http://www.TFMonline.de |
Adriana Lisboa nasceu em 1970, no Rio de
Janeiro, e cresceu entre a cidade e a fazenda de sua família no interior
do estado. Morou na França, estudou música e trabalhou como
cantora, flautista e professora. Seu primeiro romance, Os fios da
memória, foi finalista do Prêmio José Saramago em
2001. A honraria, concedida pela Fundação Círculo de
Leitores em Portugal, veio parar em sua mão por conta de seu livro
seguinte, Sinfonia em branco, em 2003. Adriana também é
tradutora é sua a tradução do
recém-lançado dicionário O pequeno rebelde, da
francesa Claudine Desmarteau. Em 2003 publicou ainda o romanceUm Beijo
de Columbina. Todos seus livros foram publicados pela editora Rocco.
Veja
também:
klickescritores.com.br

releituras.com.br

capitu.uol.com.br
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Denilson Lopes é Professor da Faculdade
de Comunicação da Universidade de Brasília, autor de
Nós os Mortos: Melancolia e Neo-Barroco (RJ, Sette Letras,
1999) e O Homem que amava Rapazes e Outros Ensaios (RJ, Aeroplano,
2002) |
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