Home

livros

música

agenda

aus deutschen verlagen

temas e estudos

janeiro / januar
2005

angola

brasil

cabo verde

guiné-bissau

moçambique

portugal

são tomé
e príncipe

timor lorosae

bestellen

suchen

impressum

home

tfm-online


Adriana Lisboa: CaligrafiasAdriana Lisboa
Caligrafias

92 páginas
Editora Rocco, 2004

De Volta pra Casa

Já não é de hoje que se multiplicam até a exaustão os estudos e narrativas sobre as cidades. Proliferam seminários, instalações e intervenções sobre o espaço urbano. Nada de surpreendente, até necessário, desde que a cidade se tornou na modernidade seu espaço privilegiado. Mas que fim levou a casa?

Se as narrativas vitoriosas, em termos de crítica e público, se centram sobretudo no espaço público, nas cidades em tensão, violentas, como no recente Cidade de Deus, romance de Paulo Lins e filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund ou nos trabalhos de Beto Brant, parece que o espaço privado, a casa, se vê de todo recolhida na produção brasileira contemporânea, lugar de passagem para o trabalho, para a vida, sempre mais rica e complexa do lado de fora. A casa fica cada vez mais impessoal, povoada pela televisão, pela solidão. Nem mais como refúgio parece a casa exercer um fascínio, talvez até mais uma prisão, como no curta Ângelo anda sumido de Jorge Furtado, ou como espaço da maior violência como nos longas de Tata Amaral e em Como Nascem os Anjos de Murillo Salles.

A casa que já rendeu grandes romances e filmes recua como fonte de devaneio e beleza. O que restaria? Muito se falou de uma narrativa feminina que resgata a casa como espaço de resistência, mundo afetivo em oposição ao mundo masculino do trabalho, impessoal, capitalista. Mas no pós-feminismo e no pós-gay, a quem pode interessar hoje os silêncios da casa, quem pode se enriquecer com seus cantos, cada vez mais iluminados e pouco misteriosos?

Se formos procurar a resposta nos filmes e romances brasileiros de hoje em dia, a casa parece ainda ser marcada pela nostalgia dos espaços senhoriais, de um mundo rural perdido, possuindo uma longa tradição, tendo em Lavoura Arcaica de Raduan Nassar e na sua adaptação para o cinema por Luiz Fernando Carvalho, bem como em O Viajante de Paulo César Saraceni seus últimos frutos nas narrativas brasileiras. O mundo rural, arcaico diante da modernidade, com sua proximidade da natureza, por ter um outro tempo ainda pode oferecer paisagens ricas. Há todo um lirismo no registro da casa, para além da decadência do patriarcalismo rural, em filmes tão diversos como Memórias de Helena de David Neves, Chuvas de Verão de Cacá Diegues, e Nunca Fomos tão Felizes de Murillo Salles, que parece ter desaparecido da cinematografia brasileira mais recente, mas que ainda parece ecoar em alguns romances contemporâneos. Caso seja possível uma nova poética da casa e da intimidade, talvez, o cinema possa reapreender da literatura brasileira algo que já foi seu também. Penso em um romance particularmente, que na sua discrição parece falar de uma falta nos nossos imaginários, mas talvez seja tão impactante, na sua modéstia e despretensão, na beleza que emerge das pequenas situações, de seus personagens frágeis, de seus cotidianos banais: Sinfonia em Branco de Adriana Lisboa.

Sinfonia em BrancoSinfonia em Branco oscila entre a casa na fazenda e a cidade, num mundo em que o patriarcalismo se eclipsa, como em Buriti da Guimarães Rosa, em que o afastamento da mundo rural parece maior. Não se trata tanto da morte da casa, como da morte do pai-patriarca. As indas e vindas no tempo compõem um quadro de personagens modestos, mas que no entanto resistem e sobrevivem frente à violência do mundo. Se em Crônica da Casa Assassinada, Lúcio Cardoso usa a imagem de "um câncer sobre um canteiro de violetas" para definir seu romance maior, Adriana Lisboa parece construir o núcleo poético de seu romance a partir da imagem da borboleta voando sobre um abismo : «Na grande pedreira que encimava o morro mais próximo uma borboleta tardia abriu suas asas multicoloridas e lançou-se no abismo » (p. 26). Nada de trágico, épico. Resta um certo tom elevado, sério, que extrai a beleza do pequeno.

Todo o romance encena a volta de Maria Inês para a casa onde nascera e a espera dos que retornaram ou se encontraram nela, sua irmã Clarice, e o primeiro amante, Tomás. A volta à casa não é a volta do derrotado frente ao mundo, do que não tem escolha senão sobreviver na sua própria mediocridade, mas de uma percepção serena dos seus limites. Nem angústia, nem êxtase, mas contemplar tanto o passado como o futuro sem maiores temores. Como acontece com Tomás, filho desencantado de esquerdistas, jovem promissor que acaba como pintor de província. « Não era um homem feliz. Nem infeliz. Sentia-se equilibrado [ ...] Abdicara de algun s territórios. Desistira da fantasia de um império. Reinava apenas sobre si mesmo e sobre aquele casebre esquecido no meio de lavouras de importância nenhuma e estradas de terra que viravam poeira na seca e viravam lama na estação das chuvas e não tinham o hábito de conduzir ambições [...] Seu pensamento era tão pequeno. Tão pequeno. Do tamanho de um gesto de perfume que uma mulher largasse no ar » (p. 11) Todo seu corpo parece discreto, o sujeito se desfaz , sem se destacar, na busca de um « pequeno silêncio », que não se confunde com o proibido, como nas paisagens com « quase sempre uma estrada que não levava a lugar nenhum » (p. 13) que faz para seus clientes de classe média interiorana, « quadros sem ambição – paisagens despidas de qualquer verve . Naturezas –mortas mortas. Abstrações sem sentido e sem desejo de constituir sentido. Retratos opacos » (p. 23).

Em meio a um mundo de excessos e atordoamentos, de uma arte ruidosa, grandioloqüente, impactante, em que a desmesura é apenas mais um elemento de marketing,, aqui temos uma arte da sugestão, do recolhimento, de modesta ausência de novidades. Por mais dramas que possa haver, e no fim, há uma sobrecarga de revelações e ações, não para arrumar conclusões, soluções, esclarecimentos, estes parecem mais como um leve tremor no tempo que se estende e apequena dramas e personagens. Não se trata de indiferença, mas uma espécie de olhar enviesado, suspenso. Por fim, resta ainda um mistério, não daquilo que era proibido, sufocado, mas do tempo, dos « anos [que] compunham sedimentos e aplainava ousadia » (p. 22). A chegada da velhice é encaranda a parti do mote – o tempo é imóvel, mas as criaturas passam.

O branco do título não diz tanto da assepsia do apartamento de Maria Inês e seu marido João Miguel, mas de sutis variações sobre o mesmo, como num quadro abstrato feito por vários tons de branco. Para Tomás, havia o quadro de Whistler que dá nome ao livro antes de conhecer Maria Inês. Quando a conhece é como uma mistura de arte e amor (p. 29). Maria Inês o deixa, mas sua lembrança fica como um quadro, lembrança de um amor intenso, forte, irreal, por mais real que tiversse sido, que demora a ser apaziguada. Amor mais intenso na lembrança que na realidade, a ponto de Tomás enamorar-se um pouco do sofrimento diante de um amor tão absoluto (p. 167) “porque às vezes o amor se alimenta de sua improbabilidade” (p. 108). Por fim, não se trata tanto para Tomás de « virar tudo ao avesso para conseguir sobreviver à perda de uma mulher » (p. 23), mas « apenas uma vida fluida como um rio sem cachoeiras » (p. 27). Tudo fica mais modesto como a casa da Fazenda dos Ipês, mítica e cheia de fantasmas na infância. « Um dia, o esquecimento. Um dia, o futuro. Uma dia, a morte » (p. 23).

No fim, também Clarice, « um sorriso sem mistérios, ao pensar que afinal acabara sobrivendo a si mesma » (p. 23). Clarice volta à casa, vende as terras (p. 25), não para voltar ao início, necessidade de raiz, porto seguro, autenticidade, nem para dar uma última satisfação à mãe (p. 26). A volta é um gesto afetivo, depois de tanta dor, ser uma vez mais criança, não para esquecer, mas para trazer mais leve a dor. Os quarenta e oito anos de Clarice “não eram uma idade como outra qualquer. Requeriam silêncio” (p,134) “Não havia mais nada a ser descoberto, nenhuma revelação? Clarice não se importava. Estava apenas esperando a própria espera (p. 210).

O tempo se esfacela. Os medos e amores de trinta anos atrás parecem como uma ferida não de todo cicatrizada. A menor gesto, parecem se abrir e sangrar. “Por quantos caminhos bifurcavam-se os destinos? Quantas fantasias tecidas com delicadeza de filigranas viam-se abortadas? Quantas surpresas inchavam como sombras por trás de cada passo dado? (p. 28). O que está em jogo na espera de Tomás, de Clarice por Maria Inês? Acerto de contas? Dizer ainda o quê?

Repetimos. Todo o romance, uma viagem pelo espaço e pelo tempo, “aquela noite seria a mais longa da história” (p. 80). A viagem para Maria Inês começa com despojamento. “Melhor era ser menos, apequenar-se, ser o mínimo possível e reivindicar o silêncio, a nudez e a liberdade. Melhor era ter as mãos vazias” (p. 111). No caminho, sentia “uma delicada solidão, metade febre e metade amor, onde vingavam suas melhores dúvidas. Depois de dezessete anos” (p. 126). Também Tomás conquista o desejo de “tornar-se pequeno (o menor possível)” (p. 129). “Ao longo dos anos ele aprendera as vantagens de carregar consigo poucas coisas - poucos livros, poucas roupas, poucas amizades e poucas memórias. Precisava exercitar-se tentando a qualquer custo deixar do lado de fora de sua vida aquilo que não lhe parecia indispensável. A história de Maria Inês, por exemplo” (p. 156), delírio que demorara 8 anos para se apagar e se apagara (p. 186). A viagem de Tomás é o encontro com a serenidade: “talvez Tomás já tivesse envelhecido, talvez já tivesse atingido aquela espécie de planalto onde vão se extinguindo quaisquer formações geográficas mais intensas, talvez já pudesse apenas testemunhar a paisagem com seus olhos transparentes e pensar em tudo como passado. Tudo. Ou quase tudo” (p. 130). A serenidade não se apresenta como mera vontade, nem o deixar-se à deriva (HEIDEGGER, Martin. Serenidade. Lisboa, Instituto Piaget.s.d., p . 34/5), é associada ao aguardar, não como consolo (idem, 36), mas como meio de ficar cada vez mais sóbrio (idem, 60). Sem ter um objeto, é um aventurar-se no próprio aberto (idem, 43), aguardar por algo sem saber o que, libertar-se da representação (idem, 44), ao mesmo tempo, caminho e repouso (idem, 45).

Ainda que distante, a fazenda permanece como “epicentro da vida e dos sonhos de Maria Inês” (p. 40), mesmo com 10 anos de distância. A viagem não é só no espaço, pouco a pouco, o escondido se insinua no texto, o assassinato da menina Lina, a violação de Clarice por seu pai, a doença da mãe. Não só o silêncio como opressão, mas a dificuldade de fazer face a tantas ambigüidades. Não o silêncio e segredo ensinados pelos pais (p. 103). Não mais esquecer como Clarice desejava (p. 76). Para Maria Inês seria impossível um passado fetiche, agradável (p. 79).

A casa de fazenda aparece sem riquezas, nem muito grande, nem muito pequena. Nem muito velha, nem muito nova (p. 175). A casa de quando nos encontramos no meio do caminho, nem na infância, nem na velhice, nem no fim, nem no inicio. Naquele meio que urge passar, depois de sonhos realizados ou não, na calmaria, na ausência de paixões, apenas a realidade suave e nua, cruel e bela. “As coisas pareciam menos devastadoras, depois de vistas de perto. Perdiam o sagrado, ficavam comuns, cotidianas. Reduziam aquela distância entre elas mesmas e a idéia delas” (p. 208) No encontro dos personagens na velha casa, “todas as coisas estavam desembocando naquele lugar naquele momento. Todos os anos vividos, todas as insuficiências desses anos e tudo o que neles havia sido em demasia. Todas os perigos, todas as promessas, todo o amor que amadurecera em indiferença e toda a estrutura que sobrevivera livre de ornamentos” (209) “As pessoas mudam, embora o significado que um dia tiveram não mude” (213) No fim, o que fica não é só “a memória do corpo” (p.218), mas “alguma presenca delicada ali: a alma do mundo “ (p. 118).

A volta para casa é um gesto para além de toda mágoa, rancor, como se à beira da velhice fosse possível, apesar de toda lembrança, a redescoberta de uma outra infância, a aposta em aberto, o horizonte das coisas concretas, a alegria que aceita a vida sem restrições; não o apaziguamento, indiferença, mas a espera sem saber o que, sem motivo. Mesmo a morte de Otacília se traduz como uma última casa: “Ouviu as vozes das filhas conversando, no quarto ao lado, o quarto de Maria Inês. Depois ouviu um pouco menos, e sentiu uma vertigem que a fez pensar num navio em alto-mar em meio a uma tempestade. Depois também a vertigem passou, e ela abriu os olhos, e sorriu porque, na verdade, tudo era tão simples” (p. 144).

A volta pra casa não se apresenta como fracasso da viagem, das metáforas da deriva, como o filho pródigo que retorna a sua família arrependido, nem como prisão no cotidiano. Retornar à casa também não é fuga do presente, nem nostalgia de uma infância e passado idealizados, perdidos, mas gesto de construção, mais do que de reconstrução, mais do que um lugar, uma possibilidade de encontro. Construir uma casa afetiva, uma família conquistada. Voltar para uma nova casa, onde se possa novamente pertencer.

A leveza aparece como antídoto da melancolia. Frente a dor que não passa, a modesta alegria simplesmente por viver, não por ter ganho algo. Não resistir ao apequenamento das coisas e pessoas. O retrato embaçado. A água saindo pelo ralo. A poça onde antes era um mar. Um momento onde antes era toda a vida, o que importava. A leveza da deriva, a liberdade frente ao peso da orfandade. Vestígios de desejos tardiamente percebidos. Encanto ao conseguir lembrar feliz as perdas. Suave delicadeza de um ocaso. “Antes de desaparecer totalmente do mundo, a beleza existirá ainda alguns instantes, mas por engano. A beleza por engano é o último estágio da história da beleza” (KUNDERA, Milan. A Insustentavel Leveza do Ser. 20ª ed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985, p.107).

A leveza se associa ainda a uma filosofia do apagamento (BACHELARD, Gaston. O Ar e os Sonhos. 2ª ed., São Paulo, Martins Fontes, 2001, p. 171) e a uma ética da invisibilidade alternativa à propalada por diversos movimentos minoritários. Este elogio do silêncio e da sutileza talvez seja o maior desafio da obra em construção de Adriana Lisboa.

Denilson Lopes

Todos os livros e CDs apresentados na novacultura estão disponíveis na Alemanha através do TFM-Centro do Livro e do Disco de Língua portuguesa: http://www.TFMonline.de

Adriana Lisboa nasceu em 1970, no Rio de Janeiro, e cresceu entre a cidade e a fazenda de sua família no interior do estado. Morou na França, estudou música e trabalhou como cantora, flautista e professora. Seu primeiro romance, Os fios da memória, foi finalista do Prêmio José Saramago em 2001. A honraria, concedida pela Fundação Círculo de Leitores em Portugal, veio parar em sua mão por conta de seu livro seguinte, Sinfonia em branco, em 2003. Adriana também é tradutora – é sua a tradução do recém-lançado dicionário O pequeno rebelde, da francesa Claudine Desmarteau. Em 2003 publicou ainda o romanceUm Beijo de Columbina. Todos seus livros foram publicados pela editora Rocco.
Veja também:
klickescritores.com.br
releituras.com.br
capitu.uol.com.br


Denilson Lopes é Professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, autor de Nós os Mortos: Melancolia e Neo-Barroco (RJ, Sette Letras, 1999) e O Homem que amava Rapazes e Outros Ensaios (RJ, Aeroplano, 2002)


nova cultura (issn 1439-3077) www.novacultura.de
© 2004 Michael Kegler, sternstraße 2, 65719 hofheim / novacultura@gmx.de

TFM-Zentrum für Bücher und Schallplatten in portugiesischer Sprache www.tfm-online.de
disclaimer / Haftungsausschluss