O regresso da epidemia branca
Livro muito aguardado e antecipado do Nobelizado José Saramago,
Ensaio Sobre a Lucidez recupera algumas das personagens do Ensaio
Sobre a Cegueira e o seu fascínio pelo branco.
Desta vez, a mesma cidade é palco de uma inesperada vitória
da abstenção numas eleições para o poder local.
Novamente náufragos, os habitantes da Capital são isolados
por ordem governamental, e assim pode começar a aventura do
Comissário destacado pelo ministério da defesa para encontrar
culpados e resolver o problema nacional. E é num misto de policial
e romance aforístico, no estilo inconfundível de José
Saramago, que se desenvolve a trama para podermos reencontrar a mulher que
não chegou a cegar, os seus companheiros e o cão que
acompanhámos no Ensaio Sobre a Lucidez. Cegueira e Lucidez
têm vários pontos de contacto; a cegueira pode assumir as mais
variadas formas, a lucidez é a oposição à loucura
e ao desvario.
A crítica em relação ao poder e ao seu abuso é
muito clara e um dos aspectos fundamentais da obra, por vezes caricatural
e outras sarcástica. Seres humanos compostos de qualidades e defeitos,
que se deixam levar pela ambição, homens considerados civilizados
mas não tão distantes dos cegos que vagueavam pelas ruas dessa
mesma Capital, quatro anos antes, não olhando a meios para garantir
a sua sobrevivência.
Num romance que prometeu acesa polémica e que questiona o sistema
democrático, simulando uma situação limite num acto
eleitoral, Saramago aborda também a maldade humana, que parece não
ter limites.
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