Clarice Lispector
Uma aprendizagem ou o Livro dos
Prazeres
158 páginas
Rocco, 1998 |
Há um livro que pede para ser escrito. Na nota introdutória,
Clarice afirma que humildemente tentou escrevê-lo. Mais do que um
artifício de sedução, ou receio das críticas,
esta nota revela a luta que é para Clarice Lispector escrever cada
livro: narrar o indizível, os pequenos nadas, sem cair no vazio e
na ausência.
Sintomática, a abertura do livro faz-se com uma vírgula. Entendida
como demonstração da dificuldade que Clarice teve em agarrar
a narração, após penosos meses de escrita infrutífera,
tem o efeito de tornar o leitor um invasor, que cai no meio da história,
sem preparação, sem coordenadas, obrigado a saltar em andamento.
Esta aprendizagem tem por plano de fundo o relacionamento entre Lóri
e Ulisses, em que ela está apaixonada por ele, mas este atrasa a
evolução do relacionamento para que possam aprender previamente
- a amar, a ultrapassar a ausência e o silêncio. Enquanto se
espera a construção da nova realidade, há o olhar sobre
a "mediocridade de viver"; a vida mínima, composta essencialmente
pelo não ter e pelo medo de não poder ter, apenas colorido
pelo desejo. Sobreviver é ter de enfrentar a angústia silenciosa
da ausência.
«não é mesmo com bons sentimentos que se faz literatura:
a vida também não.»
A literatura de Clarice faz-se de vida, de realidade crua e dura. Neste livro
expõe a sua escrita, o seu estilo, e as razões porque a sua
obra é ímpar, apesar de por vezes esquecida e incompreendida.
Nome grande da literatura universal, a sua total consagração
não poderá ser adiada por muito mais tempo. Mas são
muitas mais as justificações desta leitura, muitas mais. |
Belém Barbosa |
Todos os livros e CDs apresentados na novacultura estão
disponíveis na Alemanha através do TFM-Centro do Livro e do
Disco de Língua portuguesa:
http://www.TFMonline.de |
Clarice Lispector nasceu em 1920, na Ucrânia,
então uma das repúblicas da extinta União Soviética.
De família judia, chegou ao Brasil com os pais e mais duas irmãs
em 1922. Morou primeiro em Maceió e depois em Recife, onde passou
a infância. Perdeu a mãe em 1930 e, três anos depois,
o pai mudou-se com as filhas para o Rio de Janeiro. No Rio, Clarice formou-se
em Direito e foi casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve
dois filhos, Pedro e Paulo. Seu primeiro livro foi o romance Perto do
coração selvagem, lançado em 1943. Clarice morreu
de câncer, em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos.
Em setembro de 1998 a editora Rocco relançou toda a obra da
escritora (inclusive os textos infantis e infanto-juvenis), em um projeto
especial que incluiu padronização gráfica e rigorosa
revisão dos textos, baseada na primeira edição de cada
livro. |
veja as entradas no
blogue:
leitura partilhada:
|
|
|