Gostava
que partilhássemos o seguinte problema:
Pego numa maçã, uma maçã vulgar que tenha comprado
numa frutaria, na impossibilidade de a colher da macieira. Penso na
maçã que o Adão trincou no Paraíso e interrogo-me:
qual das duas maçãs é mais real?
É um facto que posso ver, tocar, cheirar e se quiser saborear a
maçã que tenho nas mãos. Ela é indubitavelmente
uma realidade material.
Por outro lado, a maçã do Adão nunca mais ninguém
a viu, se exceptuarmos a Eva e a Serpente, como reza a lenda. Há quem
esteja convencido que anda por aí espalhada nos pescoços dos
cavalheiros, mas isso não passa evidentemente de um embuste para desculpar
um mau acabamento. O que é certo, e é a única coisa
que agora interessa, é que ninguém pode saborear, cheirar,
tocar ou sequer ver a maçã do Adão. Assim sendo, neste
primeiro confronto, a minha maçã vence a maçã
do Adão.
Mas o destino da minha maçã está traçado. Irá
ser comida ou, mesmo que não o seja, está condenada à
decomposição, como qualquer outra realidade material. Está
condenada a desaparecer, enquanto que a maçã do Adão
permanecerá intocável na sua irritante imaterialidade. A minha
maçã desaparecerá sem deixar memória e a humanidade
ficará para sempre a falar da maçã do Adão.
Inevitável conclusão: a maçã do Adão vence
a minha maçã por um claríssimo K.O.. Aliás, vence
todas as maçãs que lhe apareçam pela frente. Mesmo a
de Newton com a sua respeitável gravidade.
Antes de abandonar a luta de maçãs é conveniente objectivar
o mais possível o critério que permitiu concluir que a
maçã do Adão é mais real do que a minha
maçã, isto é, é conveniente apurar uma maneira
de contabilizar quão mais real uma realidade é. Proponho o
seguinte critério:
Peguemos numa realidade que queiramos quantificar e contabilizemos o tempo
que ela se demora no pensamento consciente de cada pessoa ao longo da sua
vida. Consideremos todas as pessoas que existem, existiram e existirão
e somemos todos esses tempos. A realidade será tanto mais real quanto
maior for o tempo global obtido.
Assim, é verdade que a ficção é uma fábrica
de realidades e mais importante do que isso é ser evidente. Estamos
então perante uma evidência. E, no entanto, há alguma
coisa terrivelmente desafiadora nesta afirmação.
É que quanto maior é a evidência mais ameaçador
é o gesto de afirmá-la. Não pelo que se diz, que toda
a evidência tem uma existência tranquila e pacífica, mas
pelo que não se diz e está implícito na escolha de dizer
aquela evidência em particular. Se disser: eu não mordo, é
tão evidente que eu não mordo, que tenho de querer dizer mais
alguma coisa. Quando se diz a ficção é uma fábrica
de realidades o não-dito é que essas realidades podem ser
extremamente reais, ou seja, extremamente poderosas. De facto, nada é
mais poderoso do que aquilo que nos ocupa a cabeça.
Então o não-dito é que só através da
ficção o homem pode criar realidades verdadeiramente poderosas,
realidades que se podem tornar eternas. Todas as realidades materiais que,
ao longo dos tempos, o homem construiu na ânsia de se eternizar, pereceram
ou perecerão. Só a lenda pode salvá-las, dando-lhes
o poder que a matéria lhes rouba.
É verdade que existem realidades materiais eternas. Mas só
Deus foi capaz de criá-las. Deus que é sem dúvida a
ficção mais poderosa que o homem criou, o que é o mesmo
que dizer a mais real. Tão real que desde sempre mata e salva a
humanidade.
Godard, no seu último filme "Nossa música", dizia que um povo
sem poesia é um povo condenado. De facto, analisando a realidade povo
segundo o critério proposto torna-se evidente que um povo incapaz
de se ficcionar é um povo a prazo, matéria pura a aguardar
decomposição.
Conto-vos também o que me aconteceu numa visita a um familiar que
está internado num hospital psiquiátrico. Durante a visita
encontrei um doente bipolar na fase maníaca que não conseguia
ficar calado apesar de, segundo ele, já lhe terem sido dadas 24
injecções. Ao ouvi-lo, pareceu-me estar na presença
de um mecanismo estranho que permitia que toda a vida dele me pudesse ser
contada em poucos minutos. No meio da torrente de palavras que lhe saíam
da boca confessou todos os seus crimes para no fim concluir, "A minha avó
sempre me disse: nunca te arrependas do teu passado. E eu nunca me arrependi
de nada. E o que não vivi, li"
O que não vivi, li. E os olhos do doente esbugalharam-se, como se
os fantasmas que a leitura lhe trouxera fossem mais terríveis do que
aqueles que a vida lhe criara. De qualquer forma, uns tão reais quanto
os outros naquele homem ali à minha frente, à espera que as
24 injecções fizessem efeito e lhe sossegassem todos os fantasmas.
Para finalizar, uma outra questão. Qual é a família
mais real, a minha ou a família Maia, criada pelo Eça de Queiroz?
Segundo o critério proposto é forçoso concluir que os
Maias existirão por mais tempo na cabeça de mais pessoas do
que a minha própria família. Logo a realidade família
Maia é mais real do que a minha própria família. E sendo
a minha família uma realidade a prazo, eu também o sou. Nem
mesmo quando me construo como criadora de ficções.
É dever de qualquer criador tentar criar ficções o mais
reais possíveis. Tão assustadoramente reais que mesmo o mais
louco dos homens possa dizer: tudo o que não vivi, li. |