É uma noite de temporal. A noite do acidente. Há uma gota de
água suspensa num estilhaço de vidro que teima em não
cair. Há um instante que se eterniza.
Reflectida na gota, Violeta mergulha nessa eternidade e recorda o que pode
ter sido o último dia da sua vida, e nesse dia, toda a vida, e nessa
vida, os pais, a filha, a criada, o bastardo, e em todos, a urgência
da vida que prossegue indiferente como a estrada de onde ainda agora se
despistou. Nessa posição instável, de cabeça
para baixo, presa pelo cinto de segurança, parece que tudo se desamarra.
O presente perde a opacidade com que o quotidiano o resguarda e Violeta afunda-se
nos passados de que é feita, uma espiral alucinada de transparências
e ecos.
Violeta vira uma esquina (ou será uma página?) e a
revolução de Abril irrompe, empunhando a raiva do bastardo.
Abre uma porta (talvez um parágrafo) da casa vazia e a mãe
chama por ela enquanto o pai enlouquece lá fora, no quintal. Um homem
afoga o desejo no corpo dela (vírgula, de certeza) e a menina dos
patins desliza à frente da filha que perde a vida como caixa de
hipermercado. A criada, como sempre, está calada (ponto final).
Para onde foi o futuro?
Quando saiu, nesta mesma colecção, o primeiro romance de Dulce
Maria Cardoso Campo de Sangue, que obteve o Prémio Acontece
e está já em curso de publicação no Brasil, em
Espanha e em França foram muitos (os mais atentos) que assinalaram
a emergência de uma voz diferente, alheia às modas
em moda e senhora de um discurso narrativo completamente original. Não
se enganaram, esses. Com Os Meus Sentimentos, Dulce Maria Cardoso
confirma a sua posição de vanguarda no panorama da nova
ficção portuguesa. |