É curioso, interessante, pensar nisto: como o gesto de pousar, de
ter o livro em nós, antes de o começar a ler, ou já
depois, introduz profundamente (consciente ou inconscientemente) uma
relação de afecto. Não é assim que, logo desde
criança, agarramos num livro quando vamos para a escola? E não
deixa de ser interessante como esse gesto, encostado e apertado contra ao
peito, é igual ao gesto das mulheres do Alentejo que ao partirem o
pão grandioso, tão característico desta zona do país,
o encostam ao peito. Resguardam-no. Protegem-no da fuga. Guardam-lhe amor
e, por isso, respeito. Gestos , provavelmente, ancestrais para o pão
que, durante tantos anos, matou a fome aos homens e às mulheres, sendo
durante muito tempo o único alimento a que podiam, praticamente, recorrer.
O mesmo sentido do pão para o livro: matar a fome, saboreá-lo,
amá-lo como uma dádiva. É curioso, como o respeito e
o amor que se tem pelo pão tem-se pelo livro. As mulheres e os homens
da terra dizem e ensinaram-me que nunca se deita pão fora. É
pecado. Também nunca me lembro de ter deitado fora um pão,
ou um livro. As mulheres e os homens da terra sabem o que dizem, transportam
consigo vidas de sabedoria, gestos inúteis aos olhos de tantos, coisas
menos importantes aos olhos de tantos. Como se o pão e os livros -
impregnados com o sentimento do amor - não fossem, (aliados lado a
lado), os únicos responsáveis pela existência e crescimento
do mundo. Quem pode viver sem pão, livros e amor? Quem pode não
entender a profundidade de um gesto primordial?
Gestos inúteis, coisas menos importantes, dizem muitos esses. Mas
não são as coisas menos importantes da natureza e que acontecem
na natureza, aos olhos de muitos esses, que Manoel de Barros, poeta brasileiro,
utiliza na sua obra para mostrar e falar afinal da sua tão importante
importância? Retirar o que de mais natural a terra tem e dá.
Inventar a natureza através da sua linguagem, ser a coisa, tornar-se
coisa, como diz o poeta brasileiro. Com a entrega total de que só
o amor é capaz. Ou então, não é amor. Só
assim é possível sentir, chegar mais próximo daquilo
que é essencial. Pegar nos elementos da natureza , tantas vezes
considerados particulares e inúteis, e universalizá-los . Como
se eles não fossem universais! Não foi o que fez Manoel de
Barros, ao universalizar o Pantanal no seu livro de Pré-Coisas? E
o que seria de nós sem o Pantanal? Universalizar com a sua estética,
com a sua linguagem, com o seu ritmo, com a sua diferença, com a sua
diversidade. Esta é a verdadeira globalização. A
globalização do amor. Coisas que a Terra dá, gestos
que os homens da terra praticam. Gestos que nos alimentam. Pegar num pão
como num livro. Resguardá-lo. Protege-lo da fuga.
É verdade que, hoje em dia, há muitos livros e muitos pães.
O pão branco é nutricionalmente menos rico do que o pão
escuro mas, hoje em dia, por causa das evoluções industriais,
os processos industriais, como eles lhe chamam, o pão escuro tem 5
vezes mais insecticidas. Mas isso é outra história que daria
para uma outra intervenção. Serve esta história dos
géneros de pão, dos afectos do pão, para dizer que é
necessário que as relações de afecto não só
não se percam, como a sua verdade (neste marasmo) se assuma cada vez
mais. Por isso, são imensas as irresponsabilidades que acontecem hoje
no mundo actual. Por isso, é tão necessário perceber
as origens de um pão, como a de um livro. Perceber o seu conteúdo
e tudo o que o está à sua volta. Só assim será
possível aceitá-lo, interrogá-lo, conhece-lo. Limarmos
a sua ideia se preciso for, sempre com um único objectivo: saciarmos
algo de profundo que ajude os homens a tornar o mundo melhor, que ajude os
homens a não explorar outros homens - que nos alimentam e que tantas
vezes apenas sobrevivem - estabelecermos uma luta para que isso não
aconteça e para que os seus conteúdos não se decomponham.
Isto é amor.
As mulheres e os homens da terra beijam o pão - porque é uma
dádiva de Deus - antes de o iniciar nas suas refeições,
ou beijam-no quando ele cai ao chão. Este gesto revela simplesmente:
guardar respeito perante este alimento. Amar é respeitar.
E pergunto, não é um beijo simbólico que damos perante
um livro, cujo conteúdo nos merece a sua atenção? E
não é este mesmo respeito que guardamos por um livro, cujo
conteúdo nos faz crescer, a nós e ao mundo? Há livros
que nos acompanham, uns mais do que outros, outros que descobrimos muito
tarde, outros a que regressamos passados muitos anos.
Pouco importa se nos acompanham uma vida toda, ou se regressamos a eles em
diferentes momentos da vida. O importante é que amor é como
a luta pelos grandes ideais: nunca se abandona . Urbano Tavares Rodrigues
é um desses exemplos. Depois de uma fase, em que acreditou em determinado
estado do mundo, virou-se para outros temas, que não o combate por
esse mundo em que ainda acredita e, constatando que, afinal, o mundo não
estava a transformar-se naquilo em que ele acreditava, voltou à sua
literatura de combate. A sua mais recente obra: Nunca Diremos quem Sois"
é um exemplo disso. Como o Urbano Tavares Rodrigues, felizmente ainda
há escritores, neste país e no mundo. A lista ainda não
é assim tão pequena e, nesta sala, vejo mais alguns : de Portugal,
do Chile, Brasil, Cabo-Verde, Angola, etc
O amor, dizia eu, é como a luta pelos grandes ideais. Nunca se abandona.
Sejam as lutas contra a barbárie humana, contra o exercício
do poder sobre os mais fracos, a luta por uma sociedade mais igual, a luta
pela consciência de que a natureza é um bem precioso
inseparável do homem, a luta pela paz e tantas outras lutas. Todas
são lutas de amor. E quantos escritores tem travado estas lutas
através dos seus livros? São escritores que sabem que amar
é um sentido de responsabilidade. (Algo tão raro nos dias
que correm) Porque é no amor que os pensamentos e as pessoas são
uma e a mesma coisa. Eu penso amor, logo amo. Logo faço gestos nesse
sentido e procuro que ele seja o melhor possível, tal como continuo
a procurar o melhor pão - resistindo à sua
transformação no tempo, lutando com todas as minhas forças
para que ele seja melhor (no seu processo técnico e humano, lutando
para que os gestos de afecto das mulheres e dos homens da Terra que encostam
o pão contra o peito seja percebido, digerido no tempo e na memória.
QUE ESSA MEMÓRIA SIRVA PARA PERCEBER QUE OS PEQUENOS GESTOS, ESTES
PROVAVELMENTE ANCESTRAIS, SÃO ANTERIORES À LINGUAGEM E, POR
ISSO, MATÉRIA E OBRAS PRIMAS DO AMOR . O amor que acredito
ser a salvação do mundo. E o sentimento mais forte que se
estabelece com um livro. Em última análise o único
sentimento que um livro tem e dá. O amor que tem levado infindáveis
escritores a escreve-lo em poemas. E os poemas, como diz Maria do Rosário
Pedreira, não são apenas imagens, têm história.
Foi por amor e com uma história de amor que contém sempre dentro
de si (tal como nos livros) luz, trevas, dúvidas, alegrias, tristezas,
dor, abandono, conhecimento, sabedoria, interrogação, beleza
e medo que recorri a vários excertos de poemas .Uns, sei disso,
acompanhar-me-ão até ao final da minha vida porque a sua beleza
é ilimitada e sublime. Outros, descobri por acaso, outros, descobri
na busca de encontrar os vários estádios do amor . Outros,
a que não regressava há muito e como foi bom reencontrá-los.
Talvez por isso tenha tantos livros abertos aqui neste papel e a quantidade
de chá de camomila que bebi esta noite para acalmar as ideias e os
livros. Porque o amor nos leva longe demais. A medida do amor é não
ter medida como diz Santo Agostinho.
É o amor que alimenta o mundo, tal como o pão. Talvez por
isso, o gesto de agarrar num pão, seja tão idêntico ao
gesto de agarrar num livro ou alguém que amamos. E, neste gesto
de luz, tantas interrogações, tantas dúvidas, tantas
incertezas, tantos medos, tanta beleza, tanta estética, tanta felicidade,
tanta sabedoria. È isto o amor. Por isso, o amor que se tem pelo livro
é tão rico, tão cheio, tão profundo que não
há palavras onde ele possa caber, tal como no amor que se tem pelo
outro. Por isso, o amor que se tem pelo livro é tão revelador,
como o gesto primeiro de encostá-lo ao peito, o gesto primeiro para
resguardar o amor, para ampará-lo, amá-lo e, depois,
dissecá-lo, conhece-lo, dar a conhece-lo como a história deste
amor que vos vou passar a contar:
Não te demores - o sol anda a deitar-se sem pudor
em todos os telhados, e a luz esmorece e o luto
da noite alonga a espera. Eu não me deito sem ti
mais nenhum dia.
(Maria do Rosário Pedreira)
Mas, Sabes?
(Antonieta Preto)
Nas vielas os homens correm para cá, correm para lá,
pisando a sombra das laranjeiras.
Também os meus pensamentos rodopiam
quando não te vejo.
(Mikata - séc VII- Japão
)
Quando não te leio e nessa altura julgo ouvir as palavras
fugirem para dentro de ti, deixando o ar com um sabor azedo.Viro a página
(Antonieta Preto)
Os anjos permanecem
através do que somos
como a respiração,
os olhos, as palavras.
Eles são o espírito
surpreendendo a verdade,
a chama que se eleva
para lermos um livro
(Fernando Guimarães)
Quero o amor encostado a mim, entre o meu peito e as minhas
mãos, entre as minhas mãos e as tuas. Como um
livro.
(Antonieta Preto)
O poema é aqui, quando levanto o olhar do papel e deixo as
minhas mãos tocarem-te,
quando sei sem rimas e sem metáforas que te amo
(José Luís Peixoto)
E te amarei , mesmo quando já não sejas no meu lugar,
porque o teu livro recebeu-me para sempre de páginas abertas e para
sempre deu-me páginas inteiras de mundo.
(Antonieta Preto)
Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi
verdade - que não amei ninguém depois de ti nem
o meu corpo procurou nunca mais outro incêndio
que não fosse a memória de um instante junto
do teu corpo
(Maria do Rosário Pedreira)
Tu, tu que eras e serás sempre, e és
(Antonieta Preto)
Tu que adormeces as órbitas,
a forma primaveril e tolerante
do amor, tu que és onde as estrelas
são lentas, as flores acordadas,
o poema em toda a parte e o sangue
e o centro constelar da minha própria casa.
Eu quero uma alma para ti...
uma alma onde possa descansar a minha,
que consinta demorar-me no brilho estranho que só as janelas têm...
(Eduardo White)
Abro o amor de par em par. Hoje posso, hoje quero soletrar o sol e
a chuva de nós e dizer o que vejo em mim:
(Antonieta Preto)
Caem os primeiros pingos.
Perfume de terra molhada invade a fazenda. O jardim está pensando...
Em florescer. ...
(Manoel de Barros)
Imaginando, talvez,
apenas...
(Antonieta Preto)
- Mas, digo-te: a memória é um brilho nas gotículas
das palavras que ainda tenho de ti, mesmo que o tremor tome conta de nós
e a caligrafia do vento e das chuvas torrenciais atravesse aquele que foi
o nosso repouso onde, sei, expulsarás a noite por inteiro. Gritarás
um frio de palavras ou, pior ainda, uma ausência escura, cega, como
a escuridão da noite. Conhecerei o medo e a dor do teu escuro, como
o medo de uma criança perdida numa casa, só com paredes e telhados
de luto.
(Antonieta Preto)
Sei apenas de ti a tua ausência Sei apenas da noite este
vazio.
(Manuel Alberto Valente)
Meu coração morre mais dentro.
Mas quero dizer-te que a noite já é velha para mim, e por isso
te falo com a mesma paciência que é esperar o desabrochar de
um jardim ou a colheita de um
pão.
(Antonieta Preto)
Porque a noite sempre, como o fogo, revela, melhora, pule o
tempo...,
(Cláudio Rodríguez)
A noite são letras de um refrão e por isso te
canto
(Antonieta Preto)
Canto-te noite para que tu definitivamente
existas
Canto o teu nome porque só as coisas cantadas
realmente são e só o nome pronunciado inicia
a mágica corrente
Canto o teu nome como o homem antigo fazia eclodir
o fogo do atrito das pedras
Canto o teu nome como o feiticeiro invoca
a magia do remédio
Canto o teu nome como um animal uiva
de noite
(Ana Hatherly)
Oiço ainda um som que me chama. O teu. Agora sei. Gritos. Bocados
de poema em tempestade, arquivados nos teus sentimentos. Agora sei. Gritos
de quem se esqueceu de que os anjos existem, de que os sinais andam por dentro
dos sonhos e da beleza. Gritos do grito, antigo, sagrado
(Antonieta Preto):
Se das estrelas chegasse agora o anjo imponente/ e descesse até aqui,/
as pancadas do meu coração abater-me-iam.
(Rainier Maria Rilke)
Abriste hoje uma obra prima (de sabedoria) como os Homens do sul abrem
as portas das suas casas, nos guiam às suas divisões, e nos
dão a franqueza como um sinal de amor. No interior, estendeste uma
mesa comprida com pão da terra, e flores do jardim, sob uma luz de
cal. Depois, serviste o espírito e a carne entregando de seguida a
chave.
(Antonieta Preto)
Sim, eu sei, a beleza não é um fato de cerimónia que
se arranca da cruzeta para vestir à noite
(Alberto Serra, Correntes d' Escritas, 16 fevereiro
2005)
Mas o nosso amor já se veste de longe. Por isso te digo
(Antonieta Preto)
Não posso adiar o amor por outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e ande sob montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora imprecisa demore
Não posso adiar para outro século
a minha vida, nem o meu amor
nem o meu grito de libertação,
Não posso adiar o coração.
(António Ramos Rosa)
Não posso ver bocados de amor, infinitos, feitos numa arcada
de luz, demorados. Não posso adiar o sonho. Pego nele, acaricio-o
e arrumo-o junto à alma - quero protege-lo para que não se
acabe. Como os nossos livros. Como o livro que és tu. O nosso sonho
tem um sorriso antigo, igual ao da inocência e uma idade igual à
minha.
Os nossos corações não morrerão mais dentro porque
há escrituras de amor e por isso te peço que lhes abras as
palavras e as deites para sempre sobre o teu coração, como
se fosse o nosso leito:
(Antonieta Preto)
Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão devagar sobre o peito
da terra e sente respirar no seu seio os nomes das coisas que ali estão
a crescer: o linho e a genciana; as ervilhas-de-cheiro e as campainhas azuis;
a menta perfumada para as infusões do verão e a teia de
raízes de um pequeno loureiro como uma rede de veias na confusão
de um corpo. A vida nunca foi só inverno, nunca foi só bruma
e desamparo...
(Maria do Rosário Pedreira)
Nunca te esqueci - é este um amor maior que atravessa a vida e resiste
à cicatriz do
tempo. O que ontem me disseste agora o ouço, como se nada tivesse
interrompido
a magia do instante em que as nossas bocas se aguardavam na distância
de um beijo e o olhar tocava o corpo antes da mão.
Se hoje vieres por esse livro que deixaste (e cuja lombada acariciei todos
os dias que durou a tua ausência como uma nesga de sol acaricia um
rosto no inverno), encontrarás a sopa a fumegar na mesa, e a camisa
engomada no cabide, e os lençóis da cama imaculados, e um corpo
pronto
para qualquer aventura - e ainda o cão deitado à porta, à
tua espera, como na véspera de partires.
Porque os anos não contam para quem assim ama.
(Maria do Rosário Pedreira)
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