Tom Jobim tem, Chico Buarque tem, Caetano, Gil, Cazuza, Djavan
e Rita Lee também, por que não Itamar Assumpção?
Quase dois anos após seu falecimento em 12 de junho, o artista mais
produtivo e rebelde da chamada Vanguarda Paulista está prestes a ganhar
o seu songbook, que deve ser lançado ainda no primeiro semestre deste
ano. Graças ao patrocínio conquistado junto à
Petrobrás em 2004, o jornalista e músico Luiz Chagas resolveu
arregaçar as mangas junto com sua equipe (à frente Mônica
Tarantino, também jornalista, mais Lucas Carrasco, dentre outros),
para concretizar um projeto da maior importância para a música
de Itamar: a publicação de dois volumes com as partituras das
composições do Nego Dito, mais uma série de textos
analíticos, biográficos e depoimentos de amigos. Cada um dos
livros trará ainda um cd encartado, perfazendo duas coletâneas
que abrangem oito álbuns da discografia de Itamar
Assumpção.
"A gente quer oficializar com o songbook a obra de Itamar, que é quase
toda de discos independentes", afirmou Luiz Chagas. O guitarrista integrante
da famigerada banda Isca de Polícia está trabalhando a toque
de caixa (a previsão de lançamento anterior era de dezembro
do ano passado) para que os admiradores do artista nascido no Tietê,
interior de São Paulo, tenham em mãos um compêndio à
altura do talento do músico. Um reconhecimento que o Brasil ficou
devendo a ele enquanto estava vivo pela sua genialidade artística.
Os planos de Luiz Chagas e da grande família Itamar Assumpção
(leia-se parentes sanguíneos e dezenas e dezenas de admiradores de
peso e formadores de opinião), vão ainda mais longe. "A idéia
é fazer uma fundação ou algo equivalente para que possamos
organizar tudo em dvd's, discos ao vivo e inéditos. Não é
merchandising não, nem viagem nossa. É o trabalho de Itamar
Assumpção que ainda está nas gavetas e que nós
queremos levar para a sala", adianta Luiz. O próprio Itamar estava
querendo fazer um box com os discos dele, sonho que se mostraria impossível
de ser realizado pelo simples fato das masters estarem perdidas. Chegou a
ser cogitado então que os álbuns fossem regravados, disco por
disco, refazendo os arranjos originais. Mas com a ida prematura de Itamar
para as outras esferas, a alternativa que restou foi a remasterização
dos discos a partir das cópias digitais.
Os cd's que acompanharão os livros de partituras deverão ter
de doze a catorze faixas cada um. No primeiro deles, algumas das melhores
canções dos quatro primeiros álbuns, o Beleléu,
Leléu, Eu, de 1980; o Às Próprias Custas S.A., de 83;
Sampa Midnight, de 86; e o Intercontinental, Quem Diria! Era Só o
que Faltava!!!, de 1988. No segundo volume vêm as músicas da
trilogia Bicho de Sete Cabeças, de 1994, mais as do último
álbum lançado em vida por Itamar, o Pretobrás - Por
que que Eu Não Pensei Nisso Antes?, safra 98. (* Não resta
dúvida que o trocadilho do título deste derradeiro disco ajudou
bastante na decisão da estatal petrolífera em incluir o projeto
no seu seleto rol de apoios culturais). Luiz Chagas não descarta a
possibilidade de ser lançado posteriormente um volume dedicado ao
disco Ataulfo Alves por Itamar Assumpção - Pra Sempre Agora,
de 1995, que é um dos melhores trabalhos do músico.
Isca & Orquídeas
Para detonar o lançamento do songbook, os organizadores
pretendem reunir os dois grupos que acompanharam Itamar Assumpção
nos vinte e três anos de carreira dele, ou seja, a Isca de Polícia
e As Orquídeas do Brasil. Se o que acontecer no encontro das duas
bandas for igual às noites de abril de 2004 no Sesc Pompéia,
SP, quando foi lançado o disco póstumo de Itamar feito em parceria
com Naná Vasconcelos, o projeto Songbook vai bombar. Na ocasião,
quem subiu ao palco foram o mestre Naná, Zélia Duncan, Paulo
Lepetit - produtor e fiel escudeiro de Itamar -, Bocato, Webster Santos e
Anelis Assumpção, uma das duas filhas do homem. O resultado
do encontro foi acachapante, principalmente para aqueles que duvidavam que
Zélia tivesse tutano de sobra para encarar a empreitada de cantar
todo um repertório baseado em Itamar, já que os discos assinados
por ela seguem por outra linha estética e comportamental. Luiz Chagas
também foi um que ficou chapado com aquelas apresentações:
"Os seis querem excursionar pelo Brasil e gravar um dvd do show e um disco.
É maravilhoso o trabalho deles". Aliás, quando é para
falar de Zélia Duncan e de Cássia Eller, as duas principais
divulgadoras da obra de Itamar no circuito, digamos, mais comercial, Luiz
é só elogios. Ele conta detalhes de um episódio que
se deu nos ensaios para o show beneficente, que visava arrecadar fundos para
o tratamento de Itamar na luta contra o cancêr. As duas cantoras fizeram
questão de ensaiar direto com a banda de Itamar, abrindo mão
de qualquer estrelismo. "Vocês são os músicos dele,
vocês é que tocam!", disse Cássia, quando foi sugerido
a ela de tocar violão no show. Esse concerto em prol de Itamar teve
algo de inusitado, pois o show foi organizado como beneficente e o próprio
destinatário dos fundos cismou de estar presente e tocar. Luiz chegou
a pensar que seriam processados por falsidade ideológica.
Quem está cuidando das partituras é a baixista Clara Bastos,
integrante das Orquídeas. Quanto aos autores convidados para escrever
para o songbook são Luiz Tatit, do Grupo Rumo, professor de teoria
literária que vai tratar da forma de compor de Itamar; Alice Ruiz,
parceira do Nego Dito em Milágrimas, que vai tecer uma análise
poética de Itamar; além de Maria Bethânia Amoroso, professora
de literatura que vai abordar a vida e obra do quixote da Paulicéia
Desvairada. Amigos como Tom Zé, Luiz Melodia e Zélia Duncan,
além dos integrantes das bandas Isca e das Orquídeas também
sacarão do verbo, dentre outros seres da fauna.
Itamar Assumpção tinha fama de ser pessoa muito complicada.
E era mesmo, na exata proporção de sua criatividade. Mas as
pessoas que lidaram mais constantemente com ele guardam também momentos
de profundo encantamento pelo artista que ele era. Luiz Chagas é um
que pode falar de cadeira sobre o assunto: "A imagem que chegava para muitos
do Itamar era a de que ele era malcriado. Eu convivi mais de vinte anos com
ele e sei o quão intratável ele era, mas, como ser humano,
ele era um doce. Era carinhoso com a família dele." E vai em frente:
"uma vez a gente fez um show e um jornalista veio me entrevistar, e eu disse
que tocar com Itamar era a mesma coisa que tocar com Jimi Hendrix ou Miles
Davis. Para destruir de vez com o mito do Itamar "irascível", ,basta
perguntar para os músicos dele se alguém tem alguma
reclamação. Pergunte a eles se Itamar roubou cachê, se
deu chapéu em alguém, se comeu a mulher do cara! Não
tem disso, meu!"
Quem teve a sorte de assistir o criador de Beleléu sobre um palco,
nunca irá se esquecer da força cênica que ele tinha com
aquelas letras todas, aquela banda de duendes, e aquela sonoridade
inclassificável. A relação dele com os músicos
era da maior liberdade. "Ele deixava o cara jogar e punha fogo nisso. Os
caras até reclamavam de que não ganhavam grana, mas nunca por
infelicidade de terem tocado com ele", afirmou Luiz Chagas. Já o Tatit,
tinha a sensação de que ele ensaiava os improvisos, de tão
afinada que era a banda de Itamar Assumpção.
A Alemanha é um capítulo à parte na história
de Itamar Assumpção. O país que lançou dois
álbuns dele e que abrigou uma série de apresentações,
também tem o que contar no que diz respeito ao acervo audio-visual.
O jornalista alemão Rainer Skibb, principal responsável pela
divulgação da arte de Itamar no país, possui material
inédito produzido para a televisão local de alta qualidade,
que pode ser revertido para a fundação Itamar.
O patrimônio é magnifíco.
Felipe Tadeu
Brasilkult@aol.com |