Quem sabe o quê de um homem que rasteja pela fronteira do Tejo? Olha-se
para ele de soslaio e não se vê a tibieza daqueles coturnos
em farrapos, não se vê a desavença liminar. Passa-se
de largo, um pouco como se faz com o amor, em casa, com as bestas. Ou
coça-se o flanco, de modo a que o tronco projecte a cabeça
para o lado do Mercado da Ribeira, a ver, sem ver-se, a fruta tocada pelas
muitas horas de espera. O homem que diminua o mais possível, que saia
rapidamente do campo de visão, a gente quer poucas cenas, e quanto
menos complicadas, melhor. Mas ele, o homem, impõe-se. Arranca sobre
nós, como uma ordem a que é impossível desobedecer.
Que quer? Ah, um cigarro. Leve lá. E fica dito o que não fica
dito, nem interessa dizer. Contudo, se fosse a ver-se, se fosse a pôr-se
o olho no microscópio do real, como se para observar uma gota de urina
com filamentos de sangue, outro galo cantaria, outro galo procederia à
exumação. Tem B.I., o homem? Não deve ter. Alguns dos
nossos sem-abrigo estão tão para lá de Bagdad que não
solicitam ajuda a quem podem, ou solicitam, mas faltando-lhes o B.I., está
o caldo entornado, nada feito. E agora? Agora, que fazer? Na sombra que se
alonga em frente ao passeio da estação do Cais do Sodré,
perto do quiosque dos livros em segunda mão, o homem rapa, do tórax,
de uma garrafa de aguardente, que oferece a quem passa. Pergunta: dois
dedos de alegria? E nós, ainda com a cédula processual
do real por preencher, não aceitamos o despropósito. Ouvir
Bach à hora, não é exactamente o mesmo que enfrentar
a ameaça, sob a forma de cristal branco, incontornavelmente assumido
nas nossas barbas. E quanto ao homem, bem, lá há-de ir, por
certo redondará em facínora sem queixas de solidão suprema
ou recordações. Também, se recordasse alguma coisa poderia
ser o quê? A rabaldaria, com certeza. Pisar os calos de um destino
profícuo exacerba até à incontinência, basta puxar
os galões e enterrar a lâmina, antes de irmos abaixo e subirmos
para o patíbulo da banheira. Claro: o gajo precisa é de um
banho. Lustral, se possível. E medicação. Este gajo
é, apenas, um sem rumo, a parar aqui e ali, sem
descompensações hormonais. Ou, pelo menos, assim se presume
ser. Um gajo com os coturnos soturnos naquele estado só pode ter sido
um perigoso criminoso na vida que teve antes desta, ou mesmo nesta, um apoio
subliminar para a próxima queda. E, contudo, de novo, ele lá
está: nada há mais insidioso que um brilho na extensão
de uma sombra, crava-se-nos no olhar e perturba até à vontade
da indignação. O homem chora, vê-se mesmo que não
anda bem. Olhamo-lo, por mais que nos custe, como um homem doente: cuidado,
não se vá voltar contra nós. É que ele volta-se.
Colado ao traço contínuo perpendicular à passadeira
em frente, lá vai ele, em equilíbrio precário. O que
se faz em dois passos, ele tem que fazer em cem, para entrar, vacilante,
na rua do Arsenal. Que coisa abrupta, a intrometer-se no campo de visão,
nem se distingue a montra do British BAR por causa dele, a coçar-se,
a coçar-se freneticamente. Entretanto, a filha encontra-o. Estava
ali à espera. É, como ele, desgraça sem nome, a beber
da mesma garrafa, a sorver a mesma aguardente. E cheira mal. Foi vista
várias vezes a dormir no banco posterior direito do Príncipe
Real, passava gente e colocava a retina em posição de ver,
apenas, o cão à solta a urinar contra a árvore: o pai
atrás de um arbusto, a remoer as passagens mais eruditas do passeio.
Vá, vá de passar. Que delito. Que detrito. Para receber
subsídios é que esta gente está bem, e se recomenda.
Nem para levantar a fasquia serve ao cidadão comum, que passa a sonhar
no Civic a disponibilidade das férias, as bermudas azuis crepitantes
na coxa bronzeada. Aí vem ele, outra vez: é um silêncio
de vespas paradas a beber no bebedouro público, entrecortado com o
silvo do comboio a partir à tabela para Cascais e o cicio do Metro,
no mergulho subterrâneo. E eis que se impõe, de novo: até
ao multibanco, a ultrapassar uma frente de gente incompatível com
a urbanidade, porque mais não sabe que desflorar ranhuras de cartões
na máquina automática. Há coisas que só
deus pode cumprir, diz o homem, inquieto, sem que ninguém,
absolutamente ninguém, olhe para ele, enquanto ergue a garrafa acima
da cabeça e faz um gesto de a atirar sobre quem está.
Vocês, de facto, arenga, intempestivo, nem a puta
que os pariu podem cumprir, a vossa depressão arrasta-se há
anos e, para vosso inferno, nem polícia política há,
agora, para a denunciar. Pois passem muito bem, adeus, exclama, enquanto
a garrafa em voo picado explode contra a berma do passeio e transforma a
realidade em mil pedaços. A ilha arde. |