Tenho que confessar: Estou em dívida com este livro. E esta dívida
extende-se a muitos livros de poesia. Ainda não escrevi nada sobre
ele, apesar de já conhecê-lo desde manuscrito. O dever do
crítico é sempre escrever sobre o livro que leu, mas justamente
este «escrever-sobre» torna se difícil, quando ao ler se
sente uma grande vontade de permanecer simplesmente leitor, apreciador. Mas,
para além da «crítica», o dever do divulgador é
partilhar a experiência da poesia com outros, anima-los a também
partilharem a poesia, a experiência. Pois então:
Dias antes do começo da Guerra dos Estados Unidos contra o Iraque,
em 2003, Ivo Machado enviou-me por e-mail o poema «Sal do Mundo: Carta
para os meus filhos», que agora abre o livro. Este termina em:.
Meus filhos: o mel vos alimente em bemquerença, e
parando meu coração, à vossa mesa,
haja tâmaras e água
um prato de tâmaras, um copo de água.
Uma simplicidade que diz quase tudo e que me fascina até hoje. Uma
imagem de paz. Humanismo profundo, reduzido a dois elementos pictóricos,
metafóricos, poéticos.
«Naturezas mortas» como esta, e miniaturas, detalhados momentos
fugazes, caracterizam as poesias de Os Limos do
Verbo.
Há um pássaro ciumento
sobre o telhado, a árvore no claustro
entende a língua de sede do olhar
lê-se em «Retratos da Toscânia» (página
59),
e em «In Memoriam Emanuel» (p. 67) observa-se:
Um girassol, uma viola
poderia ser um barco,
o mar tem vulcões acesos
O elemento romântico é quase sempre presente na poesia de Ivo
Machado, porém num sentido idealista, e nunca como mera brincadeira
pastoril, como se vê. Pois, «nem diante da inclinação
da Torre de Pisa», diz Milton Fornaro, que escreveu o prefácio
do livro «Ivo Machado, filho de camponeses, (
) se pode esquecer
da inclinação das maicieiras carregadas de frutos no pomar
de seu pai.» Uma bela caracterização. E citamos mais uma
vez o próprio poeta:
Ao contrário de meus filhos nasci em escuridão,
como meus pais, como o meu país, mas apesar
da tristeza de minha mãe e do salário de meu pai,
de minha avó herdei uma lição: nenhum tirano
mata a poesia ou proíbe um aperto de mão.
(«2 de Dezembro de 1967», p. 66)
E é este enraizamento, tão simples, tão vigoroso, que
me fascina principalmente.
Continuo em dívida com este livro, pois ainda não terminei
de lê-lo. Há mais de dois anos não termino de ler estes
versos. Assim o deve ser, penso eu. |