O romance oculto bate na cela
A literatura é uma luz sobre os próprios limites. Não
os limites do escritor, mas a da arte que não faz concessões,
que não se dá ao luxo das aparências, e é trabalhada
longe do que sustenta uma criatura, os sentimentos, especialmente a piedade.
É a única forma de não trair sua matéria-prima,
o humano em queda, a maldição do existir que leva sempre a
um único desenlace. Produzir literatura é assumir a
consciência de que a humanidade, à qual se dedica, não
é um jogo de armar que pode ser recomposto pela palavra. É
o que nos diz Urariano Mota em Os Corações Futuristas,
um romance lançado em 1999 no Recife pela Editora Bagaço e
que obteve pouca repercussão.
Como a crítica ainda não se manifestou, deixando assim espaço
livre para uma análise que, por força das circunstâncias,
não possui ainda espaço de interlocução com seus
pares, arrisco dizer que este é o mais importante romance dos
últimos vinte anos. O período não é escolhido
para fazer sombra a autores consagrados, com obras igualmente significativas,
mas para caracterizar o confronto desta obra com as artimanhas do sistema
que hoje nos rege (com reflexos pesados na exclusão de autores). Pois
os princípios instaurados pelo regime de 1964 (endividamento externo
crescente, alinhamento total aos EUA, concentração de renda,
manipulação da opinião pública e aumento explosivo
da miséria e da violência) foram vitoriosos pelas armas entre
1969 e 1973 (período a que se refere a maior parte do romance) e
estabeleceram-se, a partir de 1985, como instituição, legitimada
por todas as correntes políticas.
O romance de Urariano, com uma trama que se estende até o final do
século passado, é um dos livros que nos lembram o quanto ainda
vivemos sob o tacão do autoritarismo, disfarçado agora numa
representação, a democracia, que foi exigida nas ruas, mas
serviu apenas de pretexto para o continuísmo. Diante de tão
completa derrota, a literatura volta-se para a porta da caverna o-nde reside.
Lá, procura vislumbrar o clarão filtrado pelo tempo, que
poderá dar alguma pista sobre o que realmente acontece no Brasil agora
destruído na armadilha o-nde foi apanhado. Estamos presos, mas algo
raspa a parede da cela pelo lado de fora. Antes de nos dar esperança,
esse ruído nos avisa o-nde estamos e nos pergunta por que continuamos
confinados.
Por que Os Corações Futuristas é importante?
Longe das comparações entre talentos ou protagonistas
literários, Urariano Mota assume seu posto de autor pelo mergulho
(por ter escolhido o mais alto penhasco de o-nde se atira), pelo vôo
(porque instaura a morada completa, ética e filosófica, de
personalidades condenadas ao esquecimento) e pelo fôlego (por encontrar
oxigênio no sufoco que permanece). Faz isso sem jamais pagar o tributo
ao anedótico, ou ao regional ou mesmo à nacionalidade (porque
é de outra têmpera o fogo de que se alimenta), tentações
a que os escritores brasileiros costumam deixar-se levar para romper o cerco
da condenação do ofício. Urariano não se deixa
enlear pela História (esse fragmento nobre da Memória), nem
pelo espetáculo (as baladas do leitor em busca de enredos fáceis),
nem pelo circo de vaidades (o autor sendo festejado pelo que aparenta). Ele
procura outro caminho, mais árduo, ao resgatar a missão fundadora
da literatura. Não é outro o motivo de se apontar o narrador
do livro como o personagem mais poderoso, já que tem a exata
noção de que não pode servir-se dos seres criados (Samuel,
João, Carlos, Canhoto, Vevê) como se fossem uma pizza. Esse
fundamento não se entrega à mediunidade, o deixar-se levar
pelas caricaturas e pelas cenas que saltam aos olhos de um escriba quando
ele se mete a estocar as feridas do tempo.
Urariano não finge que não é um criador, que está
apenas contando uma história. Ele posta-se no lugar sagrado a que
aspirou, o de reger (para demonstrar que não existe partitura
ignóbil quando escolhemos o humano, seja ele de o-nde for), o de construir
(porque a arquitetura não é uma força da natureza, mas
uma racionalidade) e o de desvelar (com o olhar cru do gado morto que, depois
de perder a carcaça, mantém-se aceso como um fogo fátuo).
Ele sabia o-nde estava se metendo, mas não tinha outra escolha. A
ética é a pior das condenações. A ela o escritor
de verdade submete-se e em seus braços frios entrega a sua vida.
AÇÃO - Vamos pegar a mais doce das armadilhas da literatura,
a ação. O que chamam de ação é uma fuga
pela porta dos fundos (e talvez seja por isso que há sempre tiroteio
nas cozinhas nos filmes descartáveis). No lugar de ação,
Urariano prefere relatar a condenação. Os jovens na faixa dos
vinte anos na ditadura Médici estão condenados pelo que são
(pobres, mulatos, negros), vivem (desemprego, exclusão social e
econômica), mas não pela sua essência. O tutano de cada
personagem, entretanto, não são suas leituras ou músicas
favoritas. Mas sim a interação que fazem entre si, apesar das
conversas datadas. Importa o que eles realmente sugerem ao narrador, que
tateia o tempo todo (e que nessa pesquisa deixa um lastro luminoso para o
leitor). A reflexão dos personagens em seus debates obedece à
ética do autor: não podem deixar de ser superficiais num primeiro
momento, mas tornam-se instrumentos para o que vai sendo aos poucos dilacerado
no decorrer do livro. Quando já não existe mais perspectiva
de refresco para a roda-viva o-nde estão todos metidos, o romance
chega ao núcleo do drama. No pipocar das primeiras execuções,
estampadas nos jornais, a segunda parte do livro insurge-se contra o canto
de sereia da primeira parte.
ORIGEM - A execução da menina que se declarava subversiva
e do garoto que fazia o V da vitória para sentinelas armados, são
a pólvora por o-nde se incendeia a obra. Não é
ação, é impacto de bala. Não existe movimento
quando já houve o desfecho. Não existe fuga se você perdeu
a guerra dentro do seu coração. Não há saída
quando a luz da entrada da caverna é puro veneno. A ação
não se impõe pelo evento, mas pela constatação.
Somos então responsáveis pela morte desses meninos, nós,
os que não lutamos o suficiente e que continuamos de mãos
amarradas? Construíram em nome deles toda uma gigantesca mentira feita
de indenizações e palavras ocas como liberdade. Não
há liberdade se você foi à luta mas voltou para jantar.
Nem se você foi para o exílio e foi anistiado para apertar a
mão dos tiranos. Ainda pulsa a vida que poderia ter sido e ela está
em nós, como um cão feroz de olho na presa. Ao escritor cabe
abraçar o que foi jogado fora, recuperar pela linguagem o que os tiros
aniquilaram. Urariano foi tão fundo que não por acaso reencontra
o fundador da língua na sua busca. Não que preste homenagem
a Camões, mas traz dele os poemas que instauram esse clima de
perdição e luta diante do mesmo destino que afoga os meninos
torturados e mortos.
Mais uma vez, Urariano se mantém no fio afiado da ética. É
com essa língua herdada, que traz na origem o peso da maldição
de estar vivo, que ele fala de Brasil e de Pernambuco. Mas nem por isso pode
ser considerado um escritor confinado às fronteiras da nação,
nem identificado de maneira ortodoxa com sua Recife, que neste romance salta
aos olhos como um dragão vomitado pelas águas do rio. O escritor
pertence a outro território. Nele, extrai o que nos incomoda, mas
ao mesmo tempo pode nos salvar, desde que não viremos as costas para
ele, nem o tratemos com o desdém dos fracos, os que não se
entregam aos contemporâneos por preguiça ou vaidade. Ler Os
Corações Futuristas é entender o que a literatura é
capaz de fazer, neste tempo em que ela parecia perdida, como alguém
muito querido que sai de nossas mãos e é levado pela correnteza. |