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A vampira do lago

Camilla abre os olhos, a cabeça pesada pela pasmaceira da noite mal dormida, e procura em volta, na claridade do quarto ou em algum som vindo do pátio, um sinal que possa lhe indicar as horas. O despertador está na cabeceira, no outro lado da cama, mas o corpo peludo do homem, imóvel e nu, a impede de vê-lo, a menos que se erga um pouco. Espera alguns segundos e, cuidando-se para não tocar nele, apoia-se sobre o cotovelo esquerdo e olha o relógio. Passa do meio dia. Arreda o lençol para um lado e se levanta, ainda preocupada em não acordar o homem, de bruços, que baba na fronha vermelha do travesseiro. Camilla está nua e ainda carrega na maciez branca do corpo as marcas da cama e das dobras do lençol sobre o qual dormiu até aquela hora. Ao se aproximar da janela, sente que, trespassando os vãos empenados da veneziana, vem da rua um forte bafo de ar quente, sinal de que o calor já corre alto no lado de fora, sobre o chão batido do pátio.

Olha mais uma vez para o homem, enquanto caminha em direção à porta.

- E o filho da puta dorme! – ela diz, fazendo uma careta depois de engolir a primeira saliva da boca dormida.

O barulho nas outras peças da casa indica que as mulheres estão todas acordadas. Toma um banho rápido e vai almoçar, enrolada na toalha, os cabelos ainda molhados e pingando água sobre a nudez dos ombros. “Hoje é dia de ir ao cemitério”, foram as únicas palavras ditas durante o rápido almoço na companhia das outras mulheres da casa.

No quarto, o homem ainda dorme, na mesma posição, com a boca aberta e o rosto deformado pelo peso da cabeça pressionando a face direita em cima do travesseiro de espuma.

Já vestida, Camilla passa pela cozinha e entrega à dona da casa parte do dinheiro ganho nos dois programas da noite - um adolescente apressado, com quem não perdera muito tempo, e o homem que dorme no quarto, a quem se dedicara até de madrugada, quando as primeiras claridades do dia começavam a entrar pelos vãos da veneziana empenada. Antes de sair à rua, apanha de sobre a geladeira o buquê de flores preparado por ela desde o dia anterior, que ficara a sua espera, como acontecia todos os domingos quando ela ganhava o caminho do cemitério para rezar junto ao túmulo do filho.

Na frente da casa ainda pára um pouco para ver o caminhão azul, ali estacionado, emitindo reflexos de luz e imerso na modorra tonta da tarde. O céu está límpido, sem o mínimo sinal de nuvens e por isso é preciso procurar os pontos onde há a sombra das casas para caminhar. As árvores são raras ao longo da rua sem calçamento. Algumas poucas, ainda baixas, quebram por vezes a monotonia e a desolação da paisagem empoeirada por onde se apressa a andar Camilla naquela tarde de fevereiro.

Ao passar pelo salão de bilhar, percebe que todas as mesas estão desocupadas. Escorados no balcão, dois homens conversam em torno de uma garrafa de cerveja. Aquela é a melhor hora para ir ao cemitério. As ruas ficam praticamente desertas, às vezes Camilla faz todo o trajeto sem cruzar com uma viva alma, como se a rua e a cidade fossem propriedades sua. Apenas na volta, quando se atrasa um pouco, é que alguém, de dentro dos pátios, a vê passar. Nos domingos, após o almoço, em especial no auge do verão, aqueles moradores mais velhos que não descem à Prainha para se banhar no lago fecham portas e janelas, para o calor não entrar, e sesteiam até o fim da tarde, quando vão saindo aos poucos, as caras amassadas, cambaleantes, em busca da fresca de um cinamomo para tomar chimarrão e falar sobre o tempo e a falta de chuva.

No fim da rua há uma estradinha de terra sobre a grama seca, interrompida por uma cerca de arame farpado que Camilla trespassa quase sem interromper o ritmo apressado dos passos. A cabeça sempre baixa, margeia umas touceiras de patas-de-vaca e mamona, onde há um pouco de sombra, e segue junto à beira do barranco de terra vermelha, quase embaixo da velha ponte de madeira que passa em cima da antiga estrada de ferro. Até escalar o barranco da fonte pública, Camilla ainda percorre um caminho estreito junto aos trilhos cujo destino era cidade velha, agora submersa nas águas represadas pela barragem da usina hidrelétrica. A fonte pública é o único lugar onde ela encontra alguém nas suas idas dominicais ao cemitério. Há ali uma vertente de água canalizada para um conjunto de tanques de alvenaria, usado por mulheres que lavam roupas para fora e não têm água encanada em casa. Devido ao calor, de tempos em tempos, as lavadeiras correm com bacias brancas, cheias d’água, a molhar as roupas estendidas na grama para quarar ao sol.

No cemitério, Camilla encontra o zelador sentado à sombra de um cinamomo no lado de fora do muro, a camisa aberta na frente, calças arremangadas e um rádio ligado ao pé da cadeira de palha, junto a uma garrafa térmica e uma cuia de chimarrão. Avista um pequeno grupo de pessoas saindo pelo portão principal, as cabeças baixas e em silêncio, e pergunta, assim que se aproxima um pouco mais do zelador, mas sem interromper a caminhada:

- Enterro?

- Uma criança. Tinha dois meses.

- Filho de pobre.

- Pelo jeito.

- Filho de rico não morre.

- Se morre, não vem pra cá...

- E com este sol... um enterro?

- Por isso mesmo... não dava pra esperar mais.

Camilla continua andando até alcançar o portão secundário. Caminha entre as sepulturas e posta-se à frente do túmulo do filho, onde providencia a troca das flores no vaso sobre a laje de cimento e acende uma vela no pequeno nicho de tijolos ao lado. Permanece de cócoras e, ajudada pela falta de vento, não encontra dificuldades para fazer a chama se firmar no pavio. O olhar parado sobre a porcelana ovalada com a foto do filho, entrelaça os dedos sobre o peito e reza, num movimento quase imperceptível dos lábios e das faces. Ergue os olhos por poucos instantes na direção do lago, onde jaz, submersa, a cidade antiga, e num gesto de continuidade espontânea percorre a planície manchada por escuros trechos de grama queimada, do muro pardacento do cemitério à longínqua extensão do horizonte, no lado oposto às montanhas que guardam a cidade nova.

Súbito, como se percebesse alguém se aproximando, ela vira o rosto para o portão de entrada. O zelador com certeza continua prostrado na sombra do cinamomo, ouvindo rádio e tomando chimarrão. Ela olha, então, para a entrada e, não vendo ninguém, agacha-se novamente, como se fosse reacender a vela do filho, contorna os túmulos mais próximos e corre para os fundos. Não encontra dificuldades para pular o muro e encontrar um trecho de campo aberto, em declive, totalmente fora da visão de quem, por acaso, estivesse pelo lado de dentro. Segue rápido, embora mantenha sobre o rosto a serenidade involuntária das pessoas que já não esperam muito mais da vida além do pouco que já têm. Em vez de fazer o atalho pela fonte pública, desce por um caminho ao lado da ponte velha, sobre a estrada de ferro. Atravessa os trilhos e, de cima do barranco, avista as casas da zona, a maioria de madeira, pintadas a cal, flutuando em meio à névoa opaca de calor e poeira que paira sobre o chão batido de pés e pneus de carro. Muitas eram de pessoas que receberam novas moradias da Companhia de Eletricidade, responsável pela construção da cidade nova, mas preferiram vendê-las por um bom preço e construir outras mais modestas ali, na periferia.

Tem o cuidado para não passar em frente ao salão de bilhar, onde, momentos antes, havia percebido que dois homens, junto ao balcão, combatiam o ar modorrento da tarde ao lado de uma garrafa de cerveja gelada. Anda um quarteirão e avista uma nuvem de poeira na rua onde teria de entrar. É obrigada a diminuir o passo até o carro ir adiante e lhe deixar o caminho livre. Dentro de cada pátio, pelo lado de fora das casas de janelas e portas fechadas, jazem cadeiras esquecidas, à espera apenas que seus donos, depois da sesta, venham a elas para falar da vida, da estiagem e das suas intermináveis desgraças. Num terreno baldio, um cavalo magro, ao lado da carroça, procura inutilmente algo para pastar que não seja a grama seca e desbotada pela ardência contínua do sol.

Camilla chega à esquina e avista o caminhão azul, em frente à casa. As outras mulheres também costumam dormir à tarde para enfrentar as noites em claro. Quando se prepara para abrir o portão de madeira, vê pelo retrovisor lateral que o homem está na cabine. Sem vacilar, altera o traçado dos passos e sobe na boléia, no lado do motorista. O homem, ainda sonolento, vira-lhe a cara dormida, amassada pelo álcool e pelo prazer da noite passada ao lado dela. Antes que ele tenha tempo de abrir a boca, Camilla fala, enfiando a mão esquerda na bolsa de napa desbotada que trás a tiracolo:

- Quero ir embora contigo.

O homem esboça-lhe um sorriso de besta, entre o deboche e a perplexidade. Quando se vira, lento e displicente, para colocar a chave na ignição e dar a partida, Camilla pressente a necessidade apenas de trocar a navalha de mão para justificar a decisão irrevogável de voltar à casa com o intuito de interpelá-lo. Apóia o braço direito numa volta da carroceria, para ganhar firmeza e alavancar o corpo, enfia a mão na janela e a velocidade da lâmina cruza o pescoço dele, num golpe seco e único, quase de orelha à orelha, sem lhe dar qualquer chance de defesa. Resta-lhe tempo de ouvir apenas o princípio balofo de um gemido, seguido de uma espécie de gargarejo seco e rascante; e desce da boleia como se a agonia do homem fosse não mais que uma natural e já esperada negativa ao pedido para levá-la embora. Volta ao cemitério pelo mesmo caminho. Os banhistas ainda não subiram da Prainha e aqueles que preferiram a sesta dormem abafados pelo denso calor dos quartos de suas casas. Antes de pular o muro, Camilla limpa a navalha numas folhas de jornal que encontrara na rua. Foi tudo tão rápido e preciso, que a lâmina estava praticamente limpa. Nem sua mão havia sujado de sangue.

Camilla permanece no cemitério por bastante tempo, rezando junto ao túmulo do filho. Volta e meia, agacha-se para reacender a vela apagada pelas primeiras rajadas do vento que costuma despertar o entardecer dos verões no campo. No horizonte, sobre a cidade que se acorda da sesta de domingo, o sol baixa com lentidão, deixando no eu entorno, num longo trecho vermelho de céu, a previsão de mais calor e seca para a segunda-feira.

À entrada do cemitério, no lado de fora, o zelador toma chimarrão e ouve rádio, o espaldar da cadeira de palha apoiado na fresca do muro sem reboco. Camilla atravessa o portão por onde entrara a primeira vez e pergunta as horas a ele. Falam um pouco sobre o calor, a estiagem, e se despedem, como fazem todos os domingos em que ela deixa a casa da zona para rezar pela alma do filho morto.

Ao entrar na boca da rua onde mora, avista, de longe, uma aglomeração de curiosos em volta do caminhão azul. Passa pelo salão de bilhar e as mesas continuam vazias, agora por um outro motivo que não a necessidade de os freqüentadores fugirem do calor e do mormaço. Alguns banhistas, vermelhos do sol, começam a subir de volta para a cidade. As cadeiras nos pátios das casas estão desocupadas e, naquela tarde, até chegar ao caminhão, Camilla não terá ninguém a espichar a curiosidade dos olhos para lhe vigiar os passos na calçada de chão batido. Aproxima-se do aglomerado de gente e percebe que um filete de sangue desce pela porta aberta do caminhão e acompanha a inclinação da rua até morrer, quase na esquina, sugado pela sede da terra seca. De um pequeno grupo de pessoas que vêm em sentido contrário, ouve alguém dizer, o semblante de perplexidade e medo, que o homem tem marca de dentes no pescoço e que aquilo só pode ser coisa da Vampira do Alague. Entre a multidão, ela reconhece o delegado Castilhos e mais dois policiais freqüentadores assíduos da zona. O trecho de onde se encontra até o caminhão azul ela percorre com a mesma serenidade com que saíra de casa, por volta das duas da tarde, ainda sem a menor intenção de degolar um homem. Abre o portão e entra na casa, onde a esperam, receosos e atentos, os olhos de torpor das outras mulheres da casa.


©  Tailor Diniz, 2005
blog: www.tailordiniz.zip.net/

Todos os livros e CDs apresentados na novacultura estão disponíveis na Alemanha através do TFM-Centro do Livro e do Disco de Língua portuguesa: http://www.TFMonline.de

fábrica de realidades



Tailor Diniz é jornalista, tem nove livros publicados e, atualmente, escreve uma coluna sobre livros na revista Aplauso, de Porto Alegre-RS.

Em 1979, ganhou o primeiro lugar em Crônica no Concurso Literário Felipe de Oliveira, de Santa Maria-RS.

Em 1999 ganhou o segundo lugar no Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, da Jornada de Literatura de Passo Fundo-RS.

Em 1998 foi Destaque em Narrativa Longa do Prêmio Açorianos de Literatura, com o romance O Assassino Usava Batom.

O livro As 19 Plásticas da Miss e outras histórias foi finalista do Prêmio Açorianos de 2002, categoria crônica.


Internet
http://tailordiniz.zip.net/
(o umbigo da cobra)
O capítulo aqui publicado foi extraído do romance homônimo, ainda inédito.


Leia
Uma abordagem pessoal de Nei Duclós, ao romance A Vampira do Lago, sob
lainsignia.org

Livros publicados são:

-- Armadilha do Destino (novela, 1988), Editora Mercado Aberto

-- Crônica de uma Rádio Pirata (novela, 1992), Editora Alquimia da Palavra

-- Trégua para o Silêncio (contos, 1996) IEL/Editora UNISINOS

-- O Assassino Usava Batom (romance, 1997) Editora Mercado Aberto

-- O Círculo da Paixão, (novela, 1999) WS Editor

-- Tango da Madrugada, (romance, 2000) Editora Mercado Aberto

-- As 19 Plásticas da Miss e outras histórias (Crônicas, 2001) Mercado Aberto

-- A Sobrevivente (biografia romanceada, 2002), Mercado Aberto,

-- Um terrorista no pampa (romance, 2004) Mercado Aberto,

Integra o Livro dos Homens, antologia organizada por Charles Kiefer, com contistas do Rio Grande do Sul. Editora Artes e Ofícios.

Integra o livro com contos premiados no Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, lançado pelo Instituto Estadual do Livro e Universidade de Passo Fundo, durante a Jornada de Literatura de Passo Fundo, em agosto de 2001.

Tailor é co-autor do livro Éticas, histórias de líderes e vencedores, publicado no ano 2000 pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul e Federasul como parte do Prêmio Líderes e Vencedores.


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