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O diálogo do Papa com Daniela Mercury

Urariano Mota


Urariano Mota
Escritor e jornalista, nasceu em 1950 em Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife, onde vive.
Em 1997 publicou o romance, Os Corações Futuristas.
A sua novela, Japaranduba, 49, está disponível no site www.livrorapido.com.br.
Do seu terceiro romance O Caso Dom Vital (ainda inédito) publicámos um excerto na "literatrip" de Junho 2003.

textos na
www.novacultura.de


O Dom Vital
Dez Centavos para o teatro
Primeiro de abril de 1964.
São Paulo, PS (Portugiesisch und Deutsch)
Histórias para adolescentes pobres

Os Anos loucos da Ditadura (sobre Universo Baldio, de Nei Duclós)


“Nesta quarta-feira, a cantora baiana reagiu com indignação ao veto do Vaticano à sua participação no concerto de Natal que acontecerá no próximo dia 3, na abertura do Ano Xaveriano, em honra a São Francisco Xavier, com a presença do Papa Bento XVI. O motivo do veto papal: a cantora participou de uma campanha do Ministério da Saúde para incentivar o uso de preservativo, atitude condenada pela Igreja Católica”. (Dos jornais)

Imagino Daniela entrando no Vaticano.

- Dá licença, meu branco?

Nesse cumprimento, nesse meio-axé, Daniela Mercury quase baila e dança.

O Papa Bento XVI estranha tão baixa informalidade. E se guarda mudo, com olhos que misturam autoridade, espanto e, sabe Deus, interesse pela brasileira mal vestida para os padrões dos séculos. A blusa de Daniela faz um caridoso decote, uma versão muito sua do “amai-vos uns aos outros”, as pernas, as tentadoras pernas que se fizeram ver pelo cego Ray Charles, estão mui mal cobertas, em saia desenvolvida com extraordinário sacrifício até os joelhos. Por isso o Santo Padre Bento XVI lhe faz um sinal, que em piedosa liturgia quer dizer, ajoelhe-se. Humilhe-se, pecado.

Perdição. Daniela, ao se mostrar serva e obediente, ajoelha-se na forma com que agradece os aplausos do público, ajoelha-se à feição de mesura, e, desgraçadamente, os seios e suas curvas mais se expõem nesse ato de contrição. O Papa, o papa, à sacrílega paisagem é rápido no movimento. Vira o rosto, para encontrar, bem perto de si, um insolente sorriso do mais próximo cardeal. Dir-lhe-ia, se pudesse, “Qui nescit dissimulare, nescit regnare”, que não é, como parece, “que néscio dissimular, néscio reinar”, mas “Quem não sabe dissimular, não sabe reinar”. O cardeal sabe, e por isso também dissimula. Fecha os lábios e vê o infinito.

Por sua vez, ajoelhada, Daniela não sabe reinar – esta é a primeira vez em que cumprimenta e os aplausos não lhe vêm. O Papa então a socorre, porque, magnânimo, ordena-lhe que se levante, a ela, Daniela. Bem feito, porque bem feita, baixinha, Daniela ainda assim lhe deve altura. Mas a cantora brasileira não se constrange ao status do comprimento. E por isso fala. “Os seios falam!”, parecem gotejar os lúbricos olhos papais.

- Vossa Santidade – quer começar a falar, pero o “vossasan” vem como um batuque, ritmado. Na boca de Daniela, Vossa San... lembra mais um grito de guerra, de festa, para um bailar improvisado ao som de tambores. – Vossasan!!!....

O Papa não salta do trono, mas concede que ela continue, vá em frente, enquanto se põe a tamborilar os dedos no joelho. A cantora baiana percebe o ridículo de fórmulas de tratamento que não se harmonizam com o seu jeito pop de ser. E por isso conserta, para não concertar:

- Você, Santidade... - “Vocêsan!” lhe ocorre, e vê a multidão na praia explodir. – O Senhor... enfim, enfin! - Outro grito de axé, “enfin, galera!” – Isso, Senhor... - E para sair de vez dessas formas estúpidas, ela oferece ao Papa uma gentil caixinha embrulhada em papel carmim, com laço da mesma cor, digna da cor e posto de cardeais.

- ?

- Um presente, um regalo, Senhor Papa.

- Ah, gratu, obrigado. – E o Papa põe perto do peito o presente. Abre-o. Então caixinhas menores surgem, lado a lado, irmanadas e graciosas. - O que é isto, minha filha?

- Isto é camisinha, Santidade.

O Papa olha em torno, à procura de uma boa tradução, quem sabe uma fórmula cortês que transforme o insulto em insinuação longínqua de que homens têm sexo. Ante aquilo, todos os cardeais se evaporam, se ocultam e escondem como Onan. O que fica mesmo ao Sumo Sacerdote, o que o Papa na sua infalibilidade realiza é o movimento autônomo dos dedos, que vão mais fundo e despregam do interior uns círculos que parecem vir em gelatina.

- Isto é....?

- Camisinha, Santo Padre.

- Ah... Kondom? Condom? Condón? – procura desta vez a fórmula e a palavra o Papa.

- Camisinha, Santidade.

- Ah!

Se o Papa mergulhasse os dedos num tesouro, diamantes, esmeraldas, ouro, menor volúpia teria, pois levanta e traz para os olhos maravilhados os regalos de Daniela Mercury. Atração e repulsa num só e somente único gesto: depõe sobre os joelhos o tesouro, mas não o afasta de si. O Papa, Daniela vê, as autoridades vêem, todo o mundo sacro e profano vê, o Papa está vermelho, rubro, mais carmim que todos os cardeais que nesta augusta hora também o acompanham, rubros, mui rubros também, de vergonha, de corpo e solidariedade. Ao que Daniela Mercury lhe diz:

- Disfarça. Põe dentro da Bíblia, Santidade! Joga dentro desse livrão dourado.

Segundos que duram séculos se passam. E nesta altura, as versões se bifurcam, como se houvesse uma encruzilhada no caminho de Damasco. Ora, assim dizem uns que assim se passou a cena:

- O que eu faço com isto, Daniela? (E Sua Santidade erguia a borrachinha cândida e cândido.)

- Santidade ... - E Daniela ruborizou também, acrescentam os desta versão, porque ela entendeu que o Papa lhe perguntava “Como eu visto isto, Daniela?” - Santidade... O Senhor, Padre Santo, não sabe?

E dizem os senhores desta versão, em nome até do respeito e da verossimilhança, que Daniela Mercury, com uma piscadela de olho, aconselhou:

- Aparece lá na Bahia, Santidade. Na Bahia tem ....

Versão que, traduzida, dizem, fez abrir um sorriso santo na Sua Santidade.

Outros tomam e vão por outro caminho. Estes, mais conformes com a tradição eclesiástica, narram a seguinte variante.

“A ser verdade que Daniela Mercury teve a coragem e o desplante de oferecer camisinhas ao Papa, em verdade vos digo:

A cantora brasileira, num gesto que procurou ser educado, entregou ao Papa as camisinhas dentro de uma Bíblia. Discreta, discretamente disse ao Sumo Pontífice que anda no vigor dos seus iluminados anos:

- O Senhor, Padre Santo, que é um Papa moderno, tem que entender a necessidade!

- Que necessidade, minha filha? Aos 78 anos, toda necessidade é espírito.

- E os outros, Santidade? E os outros, que vivem antes do espírito?

- Vejamos. – E o Padre, num gesto sábio, abriu a página da Bíblia onde se inseria, demoníaca e sacrilegamente, a maldita e amaldiçoada camisinha. Lá estava, em cima dos Salmos, que o Santo Padre leu em voz alta :

‘Não temerás nem o terror da noite, nem a flecha que voa em pleno dia, nem a peste que ronda na sombra, nem o flagelo que devasta ao meio-dia.

Se tombarem mil a teu lado/ e dez mil à tua direita, / não serás atingido.

Basta abrires os olhos / e verás que recompensa recebem os infiéis.

Sim, Senhor, tu és o meu refúgio!’

E o Santo Padre sorriu santamente para Daniela Mercury:

- Vê? O homem de fé não precisa de kondom, condón ou camisinha”.

“Milagre!”, teria dito Daniela, segundo os autores dessa versão. E ajoelhada, teria chorado em transe aos pés do Santo Papa.

Outros, no entanto, mais porcos, e talvez por isso mais conformes com a realidade porca de toda a gente, dizem que a isto Daniela Mercury respondeu, com um simpático sorriso:

- Santo Padre, não é com a bíblia na mão que todo o mundo manda ver. Vamos ter fé, mas vamos dar uma little help a Deus Nosso Senhor do Bonfim.

A isto, ao ouvir isto, o Santo Padre Bento XVI a expulsou do Vaticano. Razão pela qual cancelou, conforme se escreveu em toda a imprensa, a presença de Daniela Mercury no show em homenagem a São Francisco Xavier de 3 de dezembro de 2005. Porque ela faz propaganda desse objeto chamado camisa-de-vênus, kondom, condón ou camisinha. Isto é fato, em todas as versões. Para maior descrédito da Igreja.

© Urariano Mota 2005


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