«Eh, o Zinco disse uma asneira!»
É verdade que todos riram e bateram palmas. «Eh, o Zinco disse
uma asneira!» É verdade também que fui um bocadinho
ridículo. Mas, volvidos quase quarenta anos, ainda estou orgulhoso
do meu feito.
Dos treze contos deste novo volume, adverte o autor, «dois são
obviamente autobiográficos, seis estrondosamente paranóicos,
um descaradamente plagiado. Dos outros nem é bom falar.»
Falemos pois do livro. É uma composição de dispersos,
publicados nos diversos meios de comunicão, incluindo este nosso site,
em que RZ foi o primeiro a aceitar o convite para uma
«literatrip», em 2001, com «O
Bicho da Escrita» que mais tarde apareceu, numa versão modificada,
como livrinho com a chancela do IPLB. Mais uma vez modificado, o conto
emblemático integra esta colectânea. Outro conto marcante
e outra versão modificada , «Amanhã
chegam as águas», uma visão apocalíptica da nova
Europa, de novas éticas num mundo globalizado, também já
dava para um livro próprio.
Mas prefiro o conjunto, cuja moldura é justamente a palavra (mágica)
- no sentido de Carlos Dummond de Andrade, cujo poema homónimo foi
escolhido como epígrafe, ou no do miúdo gaguejando
«M-m-erda!» para o divertimento dos colegas :«Eh, o Zinco
disse uma asneira!».
Felizmente, aquela da asneira, hoje já passou. Hoje já se encontram
críticos que levam o escritor a sério sem naturalmente desprezar
o provocador e brincalhão que ele continua a ser, sempre com a palavra
em punho.
Palavras também são armas. Matam, no caso da denúncia
falsa que levou o avô do protagonista à prisão da PIDE,
ferem, como a «notícia de jornal» citada em «Beirute
de Baixo», assustam (onde deviam alertar) no acontecimento narrado
em «Estas coisas acontecem». Mas às vezes é preciso
alguém que relate, verbalize de forma adequada e aguda
as brutalidades, os absurdos, o quotidiano (aquele grande,
político-histórico, e aquele bem pequenino e quase desimportante)
para que se perceba o teor letal, os pesadelos que eles representam.
É até engraçado quando o marido que durante toda a vida
resistira às tentações homossexuais, finalmente descobre
que a sua esposa sempre o traíra com outras mulheres («Amor
Próprio»). Já quando uma gorjeta exagerada leva um marido
raivoso a matar a esposa, e no final se descobre que esta própria
gorjeta não passava de uma encenação a propósito
de poder matar a mulher sem ser punido, esta brincadeira aponta, novamente,
àqueles dramas conjugais que são tema predilecto da literatura
de Rui Zink (veja-se por exemplo: Apocalise Nau).
Palavras são armas, e por outro lado, apontam para as armas, alertam,
e felizmente para a humanidade, são ainda capazes de entreter,
divertir. A ironia de Rui Zink nunca se confunde com aquele non sense descarado
e gratuito, mas seu humor continua notório.
Compreendem, claro,
não compreendem?
É que o poema pode muito bem
passar sem o mundo.
Mas
já imaginaram
o que seria do mundo
sem o poema?
Mais uma prova da magia do Dr. Zink. |