A
cantora e compositora portuguesa Eugénia Melo e Castro lançou
em 2005 um álbum muito instigante dedicado à obra de Chico
Buarque de Hollanda. Não há nenhum outro tributo ao maior
compositor da música brasileira que tenha sido tão audacioso
esteticamente quanto Des Cons Tru ção. A
começar pela escolha do repertório, que não excluiu
músicas como "Basta Um Dia", "Acalanto", "Trapaças", "Injuriado",
"Bem Querer" e "A Mais Bonita" por não serem tão conhecidas
do grande público. Dando continuidade a bem sucedida parceria com
o produtor brasileiro Eduardo Queiróz, Eugénia Melo e Castro
subverteu com açúcar e com afeto , aquele que
já foi um dos mais famigerados subversivos do Brasil.
Felipe Tadeu Teu amor pela música brasileira
começou graças a teu pai, que levou para Portugal em 1966 um
disco de Chico Buarque com A Banda. O que fazia ele no lado de baixo
do Equador?
Eugénia Melo e Castro Meu pai, Ernesto Manuel de Melo
e Castro é poeta, líder do movimento concretista que está
para Portugal, assim como os irmãos Campos e Décio Pignatari
estão para o Brasil. Eles eram amigos desde os anos sessenta e meu
pai vinha nessa época muito ao Brasil para fazer conferências,
lançar livros principalmente em São Paulo. Ele tinha contato
portanto com tudo que havia de mais moderno e levava discos do Brasil para
lá. Eram discos que ele comprava para ele mesmo, só mais tarde
é que ele começou a preocupar-se comigo. E eu escutava também
esses elepês e ficava completamente louca com eles. Pensei, é
isso o que eu quero para mim. A música já era tudo quando eu
tinha seis, sete anos.
Você tinha algum parente músico?
Tinha o meu avô, que me deu toda a formação
musical básica e que era maestro, tocava violino e era engenheiro
químico. Ele era por sinal fisicamente muito parecido com Fernando
Pessoa, sabe? Minha avó também tocava piano e todos os
sábados havia saraus lá em casa. Os dois tocavam juntos, tinha
gente que recitava poesia, vinha uma cantora lírica etc. Minha
formação foi assim, eu sendo digamos "obrigada" a estudar piano
desde os quatro anos de idade.
O Brasil foi uma terra que apareceu para você sob forma de
música?
Isso! Não era moda no meu tempo de infância e
adolescência escutar música em português. A primeira
música cantada em nossa língua que eu escutei e não
achei cafona foi a música brasileira. A música do Brasil significou
para mim não só a descoberta da possibilidade da minha língua
ser cantada, como da própria musicalidade.
E foi precisamente "A Banda" que despertou esse sentimento em
você?
Foi ela e todo o resto do disco. Era um compacto que tinha
quatro músicas, com "Olê Olá", "Pedro Pedreiro" e "Meu
Refrão". Tenho uma coleção em vinil simplesmente
fantástica dessa época e Chico foi o primeiro. Também
rolava o Roberto Carlos lá, mas ele não era nenhuma maravilha
para nós. Depois é que eu comecei a achar graça no Roberto,
que só vim a perceber direito aqui no Brasil. Antes ele era para mim
um horror, igual à música cantada em português de Portugal.
Roberto chegava lá para nós como um subproduto, uma coisa muito
estranha.
Chico Buarque participa do álbum cantando em duas faixas. Foi ele
que escolheu as músicas?
Não, fui eu que sugeri.
Des Cons Tru ção é um trabalho radical e
conseqüente. Como Chico reagiu à primeira
audição?
Chico acompanhou todo o processo, trabalhando dois anos comigo.
Eu fazia as coisas no estúdio aqui em São Paulo, pegava um
avião para o Rio de Janeiro e me encontrava com ele e mostrava tudo.
Ele ficava com as músicas, aí passavam quinze dias, eu voltava
novamente ao Rio e ele me dava o parecer dele. Eu apresentava então
as novas que eu tinha feito. Os sustos que ele apanhou, e apanhou vários,
ele ía digerindo. Des Cons Tru ção foi um disco
que ele foi digerindo aos poucos. Fui fazendo as desconstruções
conforme sentia que ele ía podendo, foi um trabalho realmente em conjunto.
Tudo foi autorizado por ele. Com o Chico não é a mesma coisa
que eu estivesse a desconstruir Caetano Veloso, por exemplo, que tem uma
obra já bastante desconstruída. Se fosse com Caetano, eu não
teria tido todo esse "cuidado" que tive com o Chico. Eu não contei
logo tudo o que queria fazer a ele, teve que ser tudo mais lento. As
músicas de Chico são muito definitivas, foram compostas
originalmente de uma forma já definitiva, sem dar muitos ares a releituras
mais ousadas. Essa interpretação, essa linguagem que nós
demos, só seria possível com a conivência dele. Isso
é o que mais me tranqüiliza, porque ao cantar duas músicas
no disco, ao autorizar a introdução de "A Banda" no original,
obviamente ele só podia estar de acordo com o que tinha escutado.
Estava todo mundo com o coração na mão, pois nós
estávamos mexendo numa obra muito importante. Aliás, ele até
brincava comigo, me perguntando se eu não queria assinar com ele as
novas músicas que ele tinha feito.
Você participou do Songbook Chico Buarque produzido por Almir
Chediak cantando "Tanto Mar" com uma letra diferente. Por que?
O Chico gravou duas versões dessa música. A primeira
delas é a que ficou mais conhecida, aquela que todo mundo canta e
que é a versão alegre de alguém que escreve para um
amigo verídico em Portugal, quando da Revolução dos
Cravos, em 1974. Logo a seguir, em 28 de setembro e em 11 de março
houve duas contra-revoluções internas que não tiveram
absolutamente qualquer repercussão no exterior, mas que para nós,
portugueses, foram retrocessos no processo da revolução. O
Chico estava super ligado nisto tudo e ficou muito triste, escrevendo então
uma segunda versão que ele gravou, onde comentava que não
estávamos mais em festa como na letra original e que o processo tinha
dado para trás. E foi essa nova versão que eu escolhi para
cantar no songbook, que teve arranjo de Wagner Tiso, só com piano
e voz, um arranjo mais erudito, mais triste também. Eu achei importante
mostrar a segunda letra de "Tanto Mar".
Você que estava em Portugal na época da Revolução
dos Cravos e dos retrocessos políticos posteriores, como está
vendo no Brasil esse trauma histórico provocado pelo PT, último
bastião moral da política brasileira? Os escândalos de
corrupção no partido de Lula têm algo parecido com a
contra-revolução em Portugal?
Exatamente, são momentos políticos dos dois
países muito parecidos, mas eu acho que esse processo por que passa
o Brasil é muito mais grave do que o que se passou em Portugal. Agora
no Brasil as pessoas estão completamente desmobilizadas. Esse modelo
de governo e de eleições no país não é
tão transparente nem tão esperançoso como as pessoas
pensavam que fosse. O que vai ter que mudar por aqui é o modelo na
base. As reformas têm que ser numa linha cada vez mais social e
humanista.
Voltando ao Des Cons Tru ção: fale um pouco da parceria
entre você e o produtor Eduardo Queiróz, um dos responsáveis
pelo êxito de teus dois últimos trabalhos, o Paz de 2002
e este de agora.
O Eduardo é um músico extraordinário,
um arranjador e compositor maravilhoso
aqui de São Paulo. É uma pessoa que tem atuado muito na área
de trilhas para cinema. Portanto, é uma pessoa com musicalidade muito
visual. Foi isso o que gostei muito, quando ouvi as trilhas que ele fazia.
Eu o convidei para trabalhar comigo no disco Paz até como parceiro
autoral e isso tudo foi muito bom e me deu segurança para chegarmos
juntos a este Des Cons Tru ção. Eduardo é um
músico de bastidor, com quem tive a sorte de cruzar num estúdio,
e estava trabalhando em cima de uma música minha antiga que ele
transformou e usou no Museu de Petropólis, em um espetáculo
audiovisual do qual ele é responsável. Eu fiquei fascinada
com o que ele fez com a minha música, uma música super careta,
tradicional e tal, que ele transformou numa coisa louca. Quando nós
dois trabalhamos juntos é difícil, porque é uma guerra
de egos. Há sessões em que nós quase que saimos de
metralhadora em punho, se matando um ao outro. Mas no outro dia está
tudo bem, porque eu não desisto. Eduardo é extremamente
mal-humorado, tem um gênio do cão, ninguém o agüenta,
só eu, porque sei que o resultado final vai ficar extraordinário.
Dá tudo certo porque eu sou uma pessoa muito mais madura, e como sou
assim, briga não significa nada! É zero, eu não levo
para casa.
A versão que vocês montaram para "Brejo da Cruz" é
psicodelia pura.
Essa música tem a participação especial
de um baterista de Portugal que eu trouxe aqui para São Paulo e que
tem 12 anos. José Mimon é filho de um amigo meu, já
está com uma banda, mas foi a primeira vez que ele entrou em
estúdio. O garoto é genial. Outra música que também
ficou bem cinema foi Vitrines, que ficou com a cara de David Lynch
completamente.
E como o Des Cons Tru ção vem sendo recebido pelos
portugueses?
Fui nomeada a melhor cantora do ano, que é uma coisa
que não me acontecia desde os meus dois primeiros discos, de 1982
e 83. Com o Paz foi uma espécie de boa volta a mim mesma. Eu
estava realmente precisando dessa guinada e ele foi um disco que espantou
as pessoas pela coragem. Eu já estava cansada daquela coisa super
certa. Eu não sou nada acomodada, nem a mim, nem à minha imagem,
nem a nada que eu faço. Eu fui indo, anos e anos trabalhando com Wagner
Tiso, depois me mudei para São Paulo, continuei trabalhando com o
Wagner, mas estava interessada também em coisas que se passavam aqui
e em Portugal, com músicos novos e tal. Música é realmente
o que eu quero fazer, então ela não pode se tornar uma chatice
para mim, não é?
Você também participou do álbum A Música
em Pessoa, com versos do poeta português Fernando Pessoa musicados
por gente como Milton Nascimento, Sueli Costa, Francis Hime, Caetano Veloso
dentre outros. Como foi que você chegou ao projeto?
A idéia do álbum foi minha. Eu morava junto com
Elisa Byington, dividia apartamento com ela, que é uma das produtoras
ao lado de Olivia Hime. Eu pedi uma música ao Milton Nascimento, escolhi
o poema "Emissário de Um Rei Desconhecido" e dei a ele para que o
musicasse. A minha idéia era dar um poema de Pessoa a cada compositor
daqueles com quem eu já estava a trabalhar.
Arrigo Barnabé?
Não, Arrigo não, a minha lista era mais normal,
com por exemplo Tom Jobim, Chico , Milton, Caetano, Wagner Tiso, Francis
etc. A Elisa, que era amiga do João Araújo, da Som Livre, pegou
a idéia e me perguntou: se você não se importar, eu posso
fazer a produção deste disco. E como eu estava com preguiça
de pedir a todo mundo que musicasse os versos, achei a idéia dela
ótima e dei para ela de presente. Nós estávamos muito
ligadas em Portugal, Elisa morou um tempo lá em minha casa, eu
também morei com ela no Rio, nossas crianças eram amigas...Acabou
que eu cantei a música que o Milton tinha feito para mim e ela cuidou
de tudo, escolheu todos os poemas coisa e tal. Eu me desliguei totalmente
do processo, quando chegou a hora de'u gravar, fui com Toninho Horta e
pronto.
Além desse disco recém-lançado em cd pela Biscoito
Fino há também um outro tributo a Fernando Pessoa que é
espetacular, o Mensagem, de André Luiz Oliveira. Conhece?
Agora há pouco saiu um segundo volume dele, com novas
interpretações, novos poemas, nova gente a cantar. Aliás,
esse disco do André Luiz deu muito mais certo do que o nosso. Como
A Música em Pessoa saiu pela Som Livre, gravadora que só
se interessa por novelas, o disco acabou meio posto de lado. Se não
fosse a Biscoito Fino, a Kati e Olivia Hime, o disco ainda não teria
saído em cd. Eu pessoalmente tentei muito lançar este disco
em Portugal pela Som Livre de lá, porque eu conhecia todo mundo de
lá e seria mais fácil influenciá-los, obrigá-los
com uma metralhadora a lançá-lo lá em cd, mas não
deu. O disco do André Luiz Oliveira teve uma repercussão
maravilhosa aqui.
Você produziu uma série de treze programas televisivos chamada
Atlântico, co-apresentada por Nelson Motta, que juntava em especiais
um músico do Brasil e outro de Portugal. Muita gente não teve
oportunidade de assistir a série, que também chegou a ser
transmitida no Brasil pela TV Cultura. Há algum plano de relançar
este material?
Não, não existe, é uma idéia
praticamente impossível. Eu não gosto da edição
do Atlântico, não fui eu que editei, mas isso não seria
um problema maior, eu poderia tirar vinte minutos de cada programa e faria
um compacto da série. Mas acontece que nós não temos
autorização para isso. Para poder realizar o Atlântico
na época tive que assinar um documento em que abria mão de
todos os direitos e a RTP - Rede de Televisão Portuguesa é
que é dona dele. Isso foi muito mal negociado com os artistas. Aquilo
foi feito com as possibilidades que tínhamos, foi um milagre daquilo
existir. Eu espero um dia arranjar um advogado ou uma produtora que se encarregue
de fazer renascer esse projeto. E enquanto isso, a RTP vai passando, sem
autorização, o programa na RTP África, na RTP International,
achando que os artistas não veêm, não sabem da
transmissão. Enquanto ninguém reclamar, eu também não
reclamo, porque é do meu interesse que ele passe o maior número
de vezes possível. Estou totalmente impotente em relação
a esse programa, é uma tristeza, mas é verdade. Ele é
um bom projeto mal negociado. Mas pelo menos existe, e daqui a 50 anos, quando
cair em domínio público, os nossos netos ficarão
fascinados.
Existe a possibilidade dos programas acabarem caindo na internet,
né?
Eu realmente não sei como isso ainda não aconteceu,
já que existe tanta pirataria.
Conte mais um pouco sobre o dvd que você está
gravando.
Estamos a fazer o dvd do show Des Cons Tru ção,
teremos vários artistas convidados e vamos aproveitar para fazer
também um dvd dos meus 25 anos de carreira, com vários links
para vídeos meus, pedaços de outros shows, fotos. No final
de agosto, princípio de setembro estaremos gravando o show aqui em
São Paulo.
Além de cantora, compositora e a produtora de tv você atuou
também como atriz em cinema e teatro (N.d.R: Eugenia chegou a
participar do excelente grupo teatral português A Barraca). Por
que não tem se dedicado mais a essa atividade?
Eu sou atriz dentro da música. Acho que o meu lado
de atriz foi mesmo uma coisa que ficou meio para trás,
mas foi tão complicado manter uma carreira musical em Portugal e no
Brasil, países onde já lancei vinte discos. Sou mãe,
tenho uma filha, só dá para eu brincar mesmo de atriz. Mas
eu adoraria voltar a fazer um filme a sério. Trabalho às vezes
como atriz também para mudar de ar, de área. Isso inspira a
própria música. |