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História de uma esperaFrederico Lucena de Menezes
História de uma espera

325 páginas
L.G.E. Editora, 2005

Caleidoscópio da memória: um romance pernambucano

“O mundo simbólico, como é cheio de surpresas, provoca transformações como o caleidoscópio daqueles levados da Holanda para Olinda e que me encantaram na infância [...] Giramos o cilindro e provocamos una nova combinação dos mesmo elementos. Uma nova estética, mas a essência é a mesma. Algumas vezes, no entanto, de tanto girar, algo se transforma” (1). Estamos em 1698. Desde Amesterdão, Antonius Denebom, herói do romance, reconsidera o trajeto da própria vida. Filho de um holandês e de uma pernambucana, nasceu em 1638, durante as ocupações holandesas, e cresceu sob o domínio tolerante de João Maurício de Nassau-Siegen (1604-1679). Depois da derrota dos holandeses, Antonius decidiu viajar para Europa à procura de suas raízes em Lisboa e Amesterdão, no meio de uma Europa desgarrada pelas lutas religiosas e uma crise do pensamento europeu.

Doce inferno: os holandeses no Brasil

“Não busco culpados, vítimas, derrotados ou vencedores. Quero compartilhar a história da minha espera, a espera para cumprir minha parte na história. Essa espera meditativa que é a tomada de consciência da teia dos acontecimentos. Foi o mais próximo que consegui chegar da alma nessa viagem” (2), escreve Antonius Deneboom no início do romance para prosseguir: “Esta história começa, na verdade, em 1629, quando meu pai, Peter Deneboom, se alistou na Companhia das Índias Ocidentais como médico e participou da invasão holandesa de Pernambuco, no Brasil, em fevereiro de 1630. Ele estava naquela época com trinta anos de idade [...] dado a reflexões teológicas e extremamente dedicado à profissão. Gostava de escrever e deixou vários cadernos com registros de suas inquietações, além de um relato de sua viagem para o Brasil”.

Após a descoberta do Brasil (1500), a Coroa portuguesa estava confrontada com um grave problema: como povoar uma terra dez vezes superior à mãe-pátria? El-Rei d. João III (1502-1557) introduziu o sistema das capitanias hereditárias e, no caso de Pernambuco, o dono da terra virou a ser D. Duarte Coelho (?-1554) que conseguiu transformar o Nordeste brasileiro numa das colônias mais ricas da Coroa e exportava toneladas de açúcar (3). D. Duarte era membro da Ordem de Cristo, a rama portuguesa dos templários, e aproveitou a sua posição para atrair colonizadores portugueses, italianos e galegos. Tanta prosperidade levantou suspeitas e, depois de um troco de cartas furibundas, D. Duarte teve que voltar a Lisboa onde morreu em circunstâncias misteriosas (4).

A pior ameaça para o império colonial português no Novo Mundo foi a invasão holandesa de Pernambuco (1630-1654). Naquela altura, as Províncias Unidas dispunham de 16'000 navios, muitos mais do que qualquer outra nação européia. A Companhia das Índias Ocidentais, fundada em 1621, tinha como objetivo declarado a conquista do Brasil. Os holandeses conheciam muito bem as terras do Nordeste, pois o açúcar pernambucano passou a ser refinado em Amesterdão. No momento da conquista holandesa Pernambuco dispunha de 120 engenhos de açúcar e a aristocracia pernambucana vivia num luxo inaudito, apesar dos freqüentes atos de pirataria no Atlântico sul. Quando os navios holandeses surgiram no horizonte, a capital Olinda foi abandonada depois de breve luta e o governador de Pernambuco, Matias de Albuquerque, conseguiu resistir aos batavos até 1635, quando éstes ocuparam a Várzea e os engenhos de açúcar. A guerra luso-holandesa levou ao colapso da economia pernambucana: engenhos queimados, escravos fugidos, casas-grandes em ruínas. A situação exigiu a presença de um administrador forte, à altura da tarefa. Escolheram um príncipe alemão, João Maurício de Nassau-Siegen.

Nassau e o sonho da Nova Atlântida

“Nassau estabeleceu uma administração diferente de tudo que tivemos antes. Nos sete anos que ficou, desenvolveu as artes, deu ao Recife qualidades de cidade importante, construiu pontes e estradas”, lembra Antonius Deneboom no romance (5). “Ele foi um bom político e um homem sensível como convém ao mecenas das artes que foi. É exatamente essa característica que me faz pensar que foi ingênuo na sua avaliação das forças, ocultas e manifestas, envolvidas na situação”.

Desde o primeiro momento, a Companhia das Índias Ocidentais procurava respeitar certos privilégios e liberdades em sua nova colônia, afinal dependia dos barões do açúcar portugueses para a fazer funcionar (6). João Maurício, o futuro governador pernambucano, não tinha experiência com os trópicos. No entanto era filho de uma importante família protestante e tinha cursado estudos em Herborn, Genebra e Basiléia. Ao partir para Pernambuco, alimentava visões grandiosas: queria transformar a antiga colônia portuguesa num baluarte da civilização. Para alcançar tão ambiciosos objetivos levou consigo um grupo de ilustres cientistas e artistas, o médico Willem Piso (1611-1678), o astrônomo alemão Georg Markgraf (1610-1644) e os pintores holandeses Albert Eckhout (1637-1664) e Frans Post (1612-1680) que deixaram à posteridade um vivo retrato do Nordeste brasileiro (7). A tolerância religiosa perante a maioria católica e a minoria judia durante a era Nassau contrastava violentamente com a Europa do século XVII onde os conflitos religiosos degeneraram em lutas sangrentas. No entanto, os projetos de Nassau estavam destinados a frustrar-se diante da tenaz resistência dos barões do açúcar que farejavam na dominação holandesa uma ameaça para os seus privilégios. Ao mesmo tempo, Recife virou uma das cidades mais caras do mundo. Os holandeses traziam tudo da Europa: carnes, presuntos, salmão, cerveja, queijo, tijolos e casas inteiras. Para a Companhia das Índias Ocidentais Pernambuco era sinônimo de açúcar e as despesas do seu administrador provocavam uma irritação constante em Amesterdão. O maior projeto de Nassau era a fundação de uma nova capital na ilha de Antônio Vaz, chamada Maurícia. Apesar de uma aguda falta de materiais de construção, o conde Nassau não poupou esforços para transformar a sua Maurícia na maior metrópole do Novo Mundo com diques, pontes e estradas pavimentadas (8).

A realidade multifacetada do Pernambuco holandês reflete-se no romance de Frederico Lucena de Menezes. Muito embora a Nova Holanda fosse um projeto utópico com escassas possibilidades de realização, Nassau não era o único que acreditava no futuro da colônia holandesa no Novo Mundo: “Infelizmente, a tolerância religiosa que Nassau mostrou com sabedoria não veio com o fidalgo Barreto de Menezes. Cultos não católicos foram proibidos, igrejas foram modificadas, cristãos reformados foram exumados de suas sepulturas em templos católicos e a intolerância se instalou” (9). Depois do colapso da Nova Atlântida, o narrador viaja para a Europa, à procura de uma nova utopia que deveria não somente trazer a tolerância religiosa, mas também a independência política para o Brasil.

À procura de Christian Rosencreutz

“Johann Valentin Andrea era teatrólogo, pastor e metido em organizações secretas [...]. Eu estajava pela metade da segunda caixa quando um rolo de papéis amarelos, atados por uma fita de seda que um dia fora azul, chamou-me a atenção. Deslizei o anel de seda para uma extremidade do rolo, já que não conseguia desatar o nó. [...] O coração começou a bater forte e eu tinha a sensação que um raio ia me atingir [...] lá estava a assinatura de Duarte Coelho e o ano de 1554!” (10)

Na sua viagem da Holanda para o Brasil o médico Peter Deneboom depara com um estranho inglês chamado Thomas Kemp. Depois de uma reticência inicial ele se abre ao médico holandês e fala de sua família católica e dos laços que a uniam a Duarte Coelho. Pouco antes de morrer, o primeiro capitão-geral de Pernambuco teria deixado um testamento que foi levado para a Inglaterra onde circulava de mão em mão até desaparecer nos tempos de Cromwell (11). Este testamento é o leitmotiv no romance de Frederico Lucena de Menezes e equivale à procura da própria identidade e da história perdida de Pernambuco. Assim, Antonius Deneboom percorre a Europa inteira à procura de este documento, passando por Lisboa, Espanha, França e Alemanha. Nos papéis do pastor luterano Johann Valentin Andreae (1586-1654), um dos fundadores dos rosa-cruzes, encontra por fim o documento, antes de perdê-lo definitivamente.

A lenda dos rosa-cruzes nasceu nos primeiros anos do século XVII, numa época de incertezas entre a reforma protestante e a Guerra dos Trinta Anos. Em 1616 o teólogo alemão Johann Valentin Andreae publicou em Estrasburgo o Casamento Químico (12) , uma narração alegórica em sete capítulos. O tema é a fundição simbólica entre dois elementos num castelo grandioso (13). O Casamento Químico é o símbolo de uma época cheia de conflitos, caracterizada pela descoberta da América, o desvendamento dos secretos da anatomia e a destruição da unidade religiosa pela reforma protestante (14). Num período tão conflitivo nem admira que Peter Deneboom, o protagonista do romance, aguarde numa espera apocalíptica o fim de uma era: “Pensei tanto nessa questão da espera que estou quase me convencendo de que esperar é sinônimo de viver. Não é uma espera no sentido comum; aquela à qual me refiro não é [...] uma espera calculada; é uma espera para além da condição humana, uma meditação” (15). Seu filho Antonius Deneboom não viveu a experiência utópica do conde Nassau, rodeado por o seu grupo de sábios ilustres. A queda do preço do açúcar em Amesterdão (1641-44) destruiu as esperanças de uma colônia-modelo, cheia de paz e prosperidade e só deixou amargas frustrações e uma lancinante nostalgia.

Em 1627 saiu a Nova Atlântida, a alegoria póstuma de Francis Bacon (1561-1626). Nesta obra, o filósofo inglês descreve a descoberta de um mundo novo, povoado por uma comunidade ideal de cristãos esclarecidos. Os habitantes vivem sob o governo de um colégio de sábios – activos em todos os domínios do saber – que convivem na casa da ciência, chamada Salomon’s House. Se esta utopia tiver algum apoio na realidade, teremos de procurá-lo na Nova Holanda do conde Nassau (16) : Salomon’s House faz pensar castelo Vrijburg do conde Nassau onde o governador pernambucano instalava os seus 46 sábios. No romance, esta utopa faz parte da herança de Antionius Deneboom. Pela vida fora ele anda procurando as razões de seu malogro e um novo sentido para a existência humana.

Albert von Brunn (Zurique)


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Frederico Lucena de Menezes
 nasceu em 1944 no Recife, Pernambuco, é piloto de competição, o que não o impediu de estudar medicina, ser psiquiatra e um dos pioneiros da psicologia de Jung no Brasil.

È um professor por natureza. Foi instrutor de pilotagem em Interlagos, ensinou Teoria e Técnicas Psicoterápicas na Faculdade de Filosofia da USP em Ribeirão Preto; deu aulas de Psicologia Política na UnB, na George Washington University e University of Viginia, onde continua como colaborador internacional.

Atualmente didica-se ao consultório de psicoterapia em Brasília e faz sua primeira incursão na literatura de ficção com História de uma espera.


Albert von Brunn é bibliotecário e pesquisador e autor de várias obras sobre literatura brasileira e portuguesa. Recentemente publicou:

Trilhos na Cabeça: O tema feroviário na literatura brasileira – Antologia

Carris de Papel - o caminho-de-ferro na literatura portuguesa, Ed. Caminho 2006


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Der deutsche Text dieser Rezension erschien in der schweizer Zeitschrift Orientierung (Nr 9, Mai 2006)
Notas:

1 ) Frederico Lucena de Menezes. História de uma espera. Brasília: LGE Editora, 2005, p. 37.

2) Ibidem, p.8-9.

3) Frédéric Mauro. Le Brésil du XVe à la fin du XVIIIe siècle. Paris : Socitété d’édition d’enseignement supérieur, 1977, pp. 29-32. (Regards sur l’histoire ; 28)

4) Francis A. Dutra. „Duarte Coelho Pereira, first lord proprietor of Pernambuco“ in: The Americas 29(1973), N°.4, pp. 415-441.

5) Frederico Lucena de Menezes. História de uma espera. Brasília: LGE Editora, 2005, p. 146.

6) José Sala Català. „El paraíso urbanizado: ciencia y ciudad en el Brasil holandés” in: Quipu 6(1989), N°.1, pp. 55-78.

7) Charles R. Boxer. Os holandeses no Brasil: 1624-1654. Trad. Olivério M. De Oliveira Pinto. Recife : CEPE, 2004, pp. 210-214. (Restauração pernambucana; 6)

8) José Sala Català. „El paraíso urbanizado: ciencia y ciudad en el Brasil holandés” in: Quipu 6(1989), N°.1, pp. 55-78.

9) Frederico Lucena de Menezes. História de uma espera. Brasília: LGE Editora, 2005, p. 233.

10) Ibidem, pp. 312,316.

11) Ibidem, pp. 81-82,98,175.

12) Johann Valentin Andreae. Chymische Hochzeit Christiani Rosencreutz anno 1459. Regensburg: Bosse, 1923.

13) Frances A. Yates. The Rosicrucian Enlightenment. London: Routledge & Paul Kegan, 1972, pp. 30-31.

14) Roland Eidghoffer. Les Rose-Croix et la crise de conscience européenne au XVIIe siècle. Paris : Éditions Dervy, 1998, pp. 23,37,245.

15) Frederico Lucena de Menezes. História de uma espera. Brasília: LGE Editora, 2005, p. 185.

16) José Sala Català. „El paraíso urbanizado: ciencia y ciudad en el Brasil holandés” in: Quipu 6(1989), N°.1, pp. 55-78.


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