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André Calazans

Cães

– Vamos sair! Prepare o automóvel e o cão! – dispara o homem, de repente.

O automóvel é preto, de formas arrojadas e bastante confortável. O cão é um doberman marrom-escuro, orelhas e rabo no padrão da raça, porte avantajado.

– Diga-me, é impressão minha ou você está tomado de certa indisposição? – pergunta o homem, numa mistura de arrogância e ironia.

O criado, constrangido, apressa-se em responder:

– Claro que não, senhor! Imagine! Sempre tenho o maior prazer em servi-lo.

– Talvez você esteja cansado de recolher copos e pratos pela casa, e de presenciar diariamente minha instabilidade emocional ... Acredito que o passeio fará bem a nós três!

Antes que o servo responda, ele se dirige apressado para a porta. O cão parece irrequieto. Rosna assustadoramente em todas as direções.

– O que foi, rapaz? Anime-se, vamos sair!

– Senhor, ele tem andado muito estranho. Acho que devo levar ele ao veterinário. Será que não pode estar com raiva?

– Só se for de você, seu imbecil... Você quer dizer hidrofobia, não é mesmo? O animal está apenas estressado de tanto confinamento.

E o homem discorre alguns minutos sobre psicopatologia humana e canina. Termina citando Freud e Pavlov. O criado ouve tudo atentamente.

– Nossa, o senhor realmente é um intelecto superior, uma sumidade!

– Não, não, não exagere. Apenas sou perspicaz e relativamente bem-informado - diz o homem, com falsa modéstia.

– Nós vamos mesmo para onde, senhor?

– O trajeto do Parque.

O trajeto do Parque significava uma volta pelo centro velho da cidade, contornando a estação e terminando pelo Parque Municipal.

– Ultimamente, ando muito estafado. As bolsas estão numa fase de instabilidade, os papéis disparam e despencam, e esta flutuação toda afeta bastante meu organismo sensível. Sem falar no maldito dólar! - lamenta-se o homem.

Ele fala sobre a situação do mercado financeiro em geral, inclusive no exterior. O cão, ao contrário do empregado, não parece interessado na preleção de seu dono. Muita conversa e quilômetros depois, eles entram no Parque. Somente um dos dois portões de ferro está aberto, o que obriga o largo veículo a passar com dificuldade. Ao lado, a guarita vazia.

– Veja que absurdo completo! Há menos de três meses estivemos aqui, e não se via este abandono. É isto que o governo faz com o dinheiro dos meus impostos ...

Pouco depois, no meio do Parque, o automóvel começa a perder velocidade, até parar completamente na estrada de terra.

– Que azar, o cabo do acelerador arrebentou! Bem, não se preocupe, senhor. Há uma loja de peças logo perto da saída. Já deve estar fechando, mas eu conheço o dono e ...

– Pare, pare, por favor ... Depois de tantos anos, você não aprendeu ainda Não me fale nada, não me entre em detalhes, não me interessa nem um pouco. Traga-me apenas soluções.

– Perfeitamente, senhor, me desculpe. Então, nós podemos ir até lá.

– Como, nós Você deve estar brincando!

– Mas não posso deixar o senhor sozinho neste local deserto...

– Não ficarei só.

Enquanto o criado se afasta, o homem acaricia a cabeça do cão. O animal parece tenso. O homem liga o rádio e abre a porta do carro.

– O que foi, rapaz, você ouviu alguma coisa?

De trás de uma árvore, sai um enorme cão branco. É um vira-lata imundo, com enormes falhas na pelagem e feridas sobre o dorso. Ele se aproxima do automóvel, latindo ameaçadoramente.

– Vai lá, rapaz, dê uma lição nele!

O homem solta seu cachorro, que avança latindo, e o vira-lata rapidamente dispara em sentido contrário. Os dois se embrenham em meio às árvores.

– Ei, volte aqui, animal estúpido ! Era só para assustá-lo!

O tempo passa, e nem sinal do cão ou do criado. O homem começa a ficar preocupado. Fala sozinho para afugentar o medo, como era seu costume. E pragueja, também.

– Indolentes, imprestáveis! Não se pode confiar em animais, tampouco em serviçais.

Mais algum tempo, já bastante nervoso, ele resolve abandonar o veículo. Anda algumas centenas de metros, procurando a saída do Parque. Mas a estrada possuía várias bifurcações. E as placas indicativas que ali existiam estavam simplesmente indecifráveis, devido ao péssimo estado de conservação. Ele maldiz a administração pública novamente, e começa a correr de volta ao veículo, temendo se perder naquela vasta área arborizada. Tinha a estranha sensação de estar sendo observado. Quando avista o carro, ofegante, resolve parar para descansar. Senta-se numa grande pedra, local mais que inadequado para sua calça de linho, e se põe a pensar:

– Malditos! Deixaram-me só! Será que não existe um meio de fazer o carro andar? Se eu conseguisse achar a tal loja... Não se pode depender de ninguém nos dias de hoje. São todos uns inúteis.

Desalentado, olha para baixo e vê um embrulho no solo, logo adiante. Alguma coisa, além de mera curiosidade, o impele a abri-lo. Rasgando o papel apressadamente, surpreende-se ao encontrar dois sacos plásticos com um cabo metálico fino dentro de cada um. A impressão na frente da embalagem não deixa dúvidas. São cabos do acelerador.

– Que coincidência maravilhosa! Por que não tentar eu mesmo? – pensa o homem, recuperando o humor.

Ele ri descontroladamente algum tempo, os sacos plásticos apertados na mão. Depois, sai correndo, disposto a fazer o que tinha de ser feito, embora não tivesse a mínima idéia de como fazê-lo. Não estaria tão animado, porém , se tivesse visto o corpo de seu criado, a poucos metros dali, atrás de uma moita. A roupa estava rasgada e o rosto completamente dilacerado, quase irreconhecível. De volta ao carro, a alegria do homem aumentou ainda mais, ao reencontrar seu animal.

– Você voltou, seu fujão!

O cão olha fixamente o homem. Começa a rosnar e a latir.

– O que houve, rapaz? Está me estranhando?

De trás do automóvel, saem o cão branco e dezenas de outros cães vira-latas, imundos e de aspecto doentio. O doberman se aproxima de seu dono e pula, derrubando-o. Atrás dele, vem o cão branco, e depois todos os outros. Mordem-no durante muito tempo, arrancando pedaços de sua carne sem poupar nenhuma área do corpo.



O homem acorda debatendo-se alucinadamente. O criado vem em seu socorro, e começa a sacudi-lo. O cão, lá fora, se agita inquieto. Corre de um lado pro outro, e vai forçando a corrente com violência, até arrebentá-la.

– Senhor, senhor, acorde ! Pelo amor de Deus, é apenas um pesadelo!

O homem abre os olhos, mas não consegue despertar por completo. Permanece numa espécie de transe, tendo convulsões e gritando cada vez mais. Repentinamente, ele pega a base de metal do abajur de sua cabeceira, e começa a golpear a cabeça do criado.

– Seu desgraçado! Me abandonou aos cães! Traidor!

O homem vai desferindo golpes progressivamente mais fortes e rápidos. Pego de surpresa, o criado não esboça qualquer reação. Os outros empregados adentram o quarto, assustados. Encontram o patrão sentado na cama, o olhar vazio e distante, o instrumento do crime em suas mãos. A cabeça do criado está empapada de sangue e hematomas. A polícia chega pouco depois. O doberman, que até então se encontrava na frente da casa, esconde-se no jardim. Aproveita o momento propício, quando da entrada dos policiais, e foge pelo portão aberto. O homem, que estivera durante este intervalo completamente apático, recomeça a gritar.

– Não, não, me deixem A culpa foi deles, os cães Temos que fugir! Temos que fugir agora! Eles nos pegarão!


No meio do Parque da Cidade, um grupo de cães se reúne. Ali perto, em frente ao portão principal, há uma viatura da polícia parada. Ia rumo à delegacia, mas o cabo do acelerador arrebentou.

© André Calazans 2007


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André Calazans

Literatrip

André Calazans é carioca, publicitário e tem 40 anos. Possui um livro de poesias publicado, e já participou de diversas antologias de prosa e verso.

Participações em Antologias e Concursos Literários 2007 - Antologia I Concurso Literário Contos para Viagem. Editora Arte Literária - conto
2006 - Antologia de Contos de Autores Contemporâneos. Câmara  Brasileira de Jovens Escritores - conto
2005 - Livro Diário do Escritor. Litteris Editora  -poesia
2004 - Premiado no 14o Concurso de Contos Luiz Vilela 2003 - Antologia II Prêmio Literário Livraria Asabeça. Editora Scortecci - conto
1992 - Antologia da Nova Poesia Brasileira - org. de Olga Savary - Editora Hipocampo - poesia
1992 - Balcão de Poesias. Litteris Editora - poesia
1991 - O Amor na Literatura. Litteris Editora - poesia

Participações em Sites
Anjos de Prata
/www.anjosdeprata.com.br
Autores.com.br
www.autores.com.br
Bestiário - Revista de Contos
www.bestiario.com.br
Blocos - Portal de Literatura e Cultura www.blocosonline.com.br
Caminhos da Língua.
www.caminhosdalingua.com
Casa da Cultura
www.casadacultura.org
Civilizados
naselva.com/
Clube dos Cronistas Cotovelares
www.cotovelares.com
A Garganta da Serpente
www.gargantadaserpente.com
Gaveta do Autor
gavetadoautor.sites.uol.com.br
Governo do Maranhão
http://www.maranhao.gov.br
Interpoética
www.interpoetica.com
Komedi
www.komedi.com.br
Meiotom Poesia & Prosa
www.meiotom.art.br
Messaginabotou
messaginabotou.net
Mundo Cultural
www.mundocultural.com.br/ (vide Contos)
Palanque Marginal
www.palanquemarginal.com.br
PD - Literatura
www.pd-literatura.com.br
O Poeta.com
www.guiac.com.br
Projeto Identidade
www.projetoidentidade.org
Revista !
/www.re-vista.info
Simplicíssimo
www.simplicissimo.com.br
Site de Literatura
www.sitedeliteratura.com
Templo XV
www.temploxv.pro.br
Universidade Estadual de Goiás
ww.ueg.br
Usina das Palavras
www.usinadaspalavras.com

Livro Publicado
Ladeiras (poesias). Editora Nova Safra, 1987


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