PELE INTACTA
Paula Tavares contraria Eliot, que dizia que as palavras do ano passado
correspondem ao ano passado, e as do próximo ano esperam outra voz.
E contraria porque a sua voz é indizível. Este seu Manual
Para Amantes Desesperados é uma carta para aqueles que perderam
as coordenadas do seu espaço genesíaco. Como se fossem cartas
de marear ou caminhar O mapa de sangue a que se ata e traça
Talvez me encontres
Na décima curva do vento
Molhada ainda do sangue das virgens do sacrifício
Por entre a febre
A arder
(PÁG. 10)
A liberdade do verso é singular pois a poesia está no desejo
humilde de se ser feliz, ou mesmo no direito à renúncia a esse
desejo de felicidade. O poeta não escolhe, a poesia impõe-se
com o seu caudal próprio de roupagens. E esta é poesia de
sedução querendo remeter para os livros bíblicos, quase
se adivinha a criação do mundo, pois nela sentimos que Deus
viu que a luz era boa, separando-a das trevas. Para essa sinceridade nos
convoca esta escrita de Ana Paula Tavares porque sabedora de que a poesia
não é uma candeia na noite infinda mas luz que anuncia e desvenda
e que, tal como a água das chuvas, tudo revivifica. Direi que se me
afigura um poema único num diálogo perante o espelho solar,
ou viagem ao interior de si mesma, a leitura dos contornos da sua memória,
dos movimentos que devolve à força dessa viagem intima, porque
talvez o poema nasça da reflexão sobre o seu mundo, para
compreender quem é, de onde veio, e para onde segue,
De onde eu venho empresta-se o corpo à casa
a memória ao tecto onde pinga a chuva
como se fosse agora como se fosse sempre
(PÁG. 21)
Ou,
De onde eu venho nascem os rios
nos nervos da terra
correm certos para o mar ou
perdem-se noutros lugares do tempo
sem que ninguém
os detenha
aí lavam as raparigas seus primeiros sangues
(PÁG. 21, 22)
Da seriedade e do trabalho com a palavra, Paula Tavares constrói um
novo mundo paralelo ao quotidiano. E percebemos a procura de determinada
estrada porque a poeta sabe que caminho deseja encontrar, depois partilha
e aponta itinerários para habitar o mundo que herdamos e sempre
reconstruímos, porque somos nós a alma dos lugares, porque
eles são a imagem de nós próprios, e, porque muitas
vezes parecendo não consentir ou desconfiando dessa atmosfera cada
vez menos humanizada quando o poeta é quem anuncia o milagre
[
]
lentas mulheres preparam a farinha
e cada gesto funda
o mundo todos os dias
há velhas mulheres pousadas sobre a tarde
enquanto a palavra
salta o muro e volta com um sorriso tímido de dentes e sol.
(PÁG. 19)
Só no mais intimo de cada ser humano é possível a vida,
sem deixar de entender o que é a treva, procurando respostas para
o desconhecido em todas as suas coordenadas, pois do poeta se espera que
seja capaz de abrir a porta da grande casa mágica da infância,
porque nas cidades sem raízes somos levados ao desejo da casa
«onírica» de que fala Bachelard, onde se misturam
indistintamente o apelo das mães, da terra e, da tumba, em suma a
habitação que desde a nascença todos trazemos no retrato
que a pele guarda, como a mais feliz de todas as memórias. Todos
nós, tarde ou cedo, regressamos pela imposição da viagem
ao nosso próprio universo mais reservado, vencendo territórios
estéreis para não morrermos, embora Santo Agostinho nos assegure
que «O Homem morre desde que nasce», e morreremos todas as vezes
que nos esquecermos de resgatar a nossa memória.
Ana Paula Tavares traz as suas mãos cheias de notícias. E diz-nos
dos alimentos, dos rios, dos pássaros, do fogo, dos animais, da
água. Devolve-nos muito do quanto perdemos. Entrega-nos uma poesia
sem lápides onde as palavras não estão gastas nem fora
de prazo. E sentimos que, de Manual Para Amantes Desesperados, se
solta um grito, que diz: amor, terra volta para o meu espanto e aceita
esta grinalda porque falta na minha língua o teu mel de pele intacta.
Afinal, Borges relembra-nos que a poesia retorna como a aurora e o ocaso.
Ivo Machado (Praia de Agudela)
|