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Adriana Lisboa 		  Rakushishaual para amantes 		  desesperados(A cabana dos caquis caídos)  Adriana Lisboa
Rakushisha
(A cabana dos caquis caídos) 


132 páginas
Editora Rocco, 2007

«Os jardins de Bashô»

[carta para a Adriana Lisboa, em torno do seu livro "A cabana dos caquís caidos"]

querida Adriana,

o teu livro – acabo de o frequentar com o coração – está cheio de coisas pequenas e invisíveis, às quais é preciso estar atento para se sonhar à medida das páginas e dos passos dos personagens.

Que tu estás no livro foi-me evidente desde o início. Que bashô te abençoou como quem sopra um incenso para o acender, vai-se descobrindo depois. Os teus personagens, como entidades expectantes, pactuaram contigo num ritmo delicado de ir entrando em novas fronteiras e mundos antigos por redescobrir.

«É como se eu tivesse entrado clandestina, apesar do visto no meu passaporte. De fininho, para que não me vissem, para que não vissem as coisas invisíveis que eu trazia na mala».

Mala como livro e livro como bagagem. Porque a vida é algo que se leva às costas, com custo, ou sobre as mãos, com delicadeza. A vida e os seus ritmos, as danças do humor e do amor, os fantasmas da sensibilidade que nos batem à porta como cartas sem selo vindas do passado. Cartas sem remetente. Rumos ora com paisagem incluída, ora com páginas em branco para o pincel desenhar futuros e fronteiras. O que nos faz humanos.

«é muito mais freqüente topar com criaturas que nunca mais vou ver do que o contrário. A vida não se faz de reencontros. Faz-se muito mais de tangentes, de movimentos periféricos, de olhares fugidios que no instante seguinte já se dissiparam».

A vida vai-se fazendo (e desfazendo), então, de viagens, de deslocamentos mais ou menos evidentes, de episódios que conferem veracidade aos sentimentos, ou de dúvidas que abrem novos abismos. Mas nem todos os abismos são labirintos obscuros. Por vezes, o labirinto é a própria porta e a pedra possível. Por vezes a vida desliza das costas para a mão, o leve faz-se pesado, e o pesado sorri com certa leveza. Isto é, os instrumentos da vida nem sempre são os pés para caminhar, mas o pressentimento de que, ali à frente (e aqui tão perto) há sempre mais caminho:

«como escreveu o poeta japonês Matsuo Bashô num diário de viagem, e aquilo que possuímos de fato, nosso único bem, é a capacidade de locomoção. É o talento para viajar.»

Trazes em frases curtas a rigorosa delicadeza dos japoneses. O teu livro parece – e talvez seja isso – uma aguarela pintada com leves haikais. Jogas com as identidades, mas as identidades interiores. Não as que outros julgam sobre nós, mas aquelas que por vezes havíamos escondido tão cá dentro que se transformaram em raízes. Assim a raiz pode apontar a direcção de um chão e a respectiva importância de cada chão pisado pelos personagens (outras vez como se fossem "chãos" de dentro). O dentro que nos destrói. O dentro que nos constrói.

«Todo o trabalho de Haruki como desenhista e ilustrador de livros era cuidadosamente transpassado por uma imagem, uma idéia, algo muito vago chamado Brasil, meio amazônico, um tanto litorâneo, invadido por paisagens de dentro e pela vontade de pegar com os olhos um chão que era vários».

O longe e o perto, perdem dimensão geográfica. Ganham terreno nisso que a tua voz quis que fosse tão humano. O lirismo e o ritmo com que descreves paisagens, é também a crueza e a pausa com que buscas nalgumas pessoas a verdade e a solidão de todas as pessoas. Os livros fazem-se, afinal, dessas verdades maiores: as mais pequenas, que são as mais simples, sendo também as mais difíceis. Como se, de mãos dadas a Bashô, inaugurasses uma irmandade entre o perto e o longe.

«Fazia algum tempo que todas as vozes humanas já tinham se calado dentro dos seus pensamentos. O mundo já não falava um idioma específico. Todas as coisas eram muito longe dali.»

Estão também presentes as celebrações, partilhadas entre quem escreve e quem é escrito («O incenso que comprei era um aroma inspirado por um livro»), foram anotadas as intuições («Seria, ainda, possível despistar o coração na linha melódica do pensamento?») e com a mão trémula - quis eu imaginar assim - as pinceladas de erotismo roçaram o amor. No que esta palavra tem de mistério, no que esse lugar tem de delicado:

«O desenhista e a moça que fabricava bolsas de pano dormiram juntos na mesma cama durante uma semana. Foi assim: vestidos, pegavam um travesseiro para cada um. Uma coberta para cada um.»

Se há um país no teu livro a sugerir uma viagem, há uma viagem no teu livro bem maior que um país. Porque todas as fronteiras foram criadas para que alguns de nós (viajantes, escritores, poetas, camponeses, contempladores) pudessem sorrir no momento de as ignorar. Na tua estória a ideia de perda aparece como janela-sugestão para o reencontro. Foi assim que li os olhares, foi assim que encontrei os silêncios que envolvem as páginas. Encontrei sonhos, mãos e flores como se fossem orações por acender.

«Deve haver como me perder para encontrar aquele lugar no mundo que nunca foi pisado antes, um território realmente virgem. Deve haver um modo, quem sabe, de partir em viagem e não regressar mais.»

Mas o «não regressar mais» é a sugestão irónica que persegue os personagens. Haverá caminho de volta? Haverá uma fresta aberta que nos leve à tranquilidade interna? Haverá uma flor à espera da nossa mão, num qualquer jardim, no Japão? Saberemos resistir à tentação, deixando a flor no seu contacto maternal com a terra, com o fluxo universal?

Sob as nuvens de um certo Japão, encontraste as flores que precisavas para contar a tua estória. Eram flores fortes como ponteiros de um relógio maior.

«Mas por que o sol, o gozo, o sorriso? O rio correndo, o vento? Mas por que a plenitude de horas mansas, se dentro da polpa dos dedos essas horas tinham agulhas?»

Gente com agulhas nas mãos e no coração. Agulhas que tinham aprendido algo com as flores: alternavam a sua característica pontiaguda com um estado de alquímica candura. Eram agulhas, como direi?, com uma tendência acentuada para virarem flores. Como as duras verdades que a poesia (quase sempre) transporta.

«O silêncio era um lugar dentro do coração. O silêncio encobria talvez o perdão necessário, o armistício, o silêncio era uma permanência.»


O teu livro, Adriana, está cheio de poemas pequenos e invisíveis, aos quais é preciso estar atento para se saber sonhar na frequência que propões: ao ritmo dos orvalhos. Como nos mistérios intrínsecos à poesia de Bashô. Como nas verdades puras que a poesia transporta, imitando a vida.

Que o silêncio da escrita permaneça em ti.

Um beijinho,
Ondjaki. [17.6.07]




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Todos os livros e CDs apresentados na novacultura estão disponíveis na Alemanha através do TFM-Centro do Livro e do Disco de Língua portuguesa: http://www.TFMonline.de

Adriana Lisboa nasceu em 1970, no Rio de Janeiro e mora em Teresópolis. Estudou música (trabalhou como cantora, flautista e professora) e literatura. Seu primeiro romance, Os fios da memória, foi finalista do Prêmio José Saramago em 2001. A honraria, concedida pela Fundação Círculo de Leitores, em Portugal, veio parar em suas mãos no ano de 2003, por Sinfonia em branco. Adriana também escreveu Um beijo de colombina e o livro de contos Caligrafias. Traduziu, entre outros, A jogadora de go e o dicionário infantil O pequeno rebelde. Língua de trapos é seu primeiro livro para crianças. Todos os títulos citados foram publicados pela Rocco.



Ondjaki nasceu em Luanda em 1977, é autor de romances, novelas, contos e poemas, e acaba de fimar um documentário sobre Luanda, Oxalá cresçam Pitangas.
Colabora na novacultura com vários textos publicados na "literatrip"




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