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Céu
A música brasileira em diálogo com o
mundo
O Brasil é um país que padece há
séculos de dois males que não parecem ter cura: a
corrupção de sua classe política, conseqüência
direta de outra chaga, que é a irresponsabilidade de seus cidadãos.
A gestão do outrora socialista e líder dos trabalhadores Luís
Inácio Lula da Silva, que está no poder há seis anos,
não tem se distingüido pela moralidade e o combate às
práticas ilícitas do capital. Muito pelo contrário.
O resultado é que a nação atravessa uma onda de ceticismo
endossada pelo aumento da criminalidade nos grandes centros urbanos e a
impunidade generalizada, que geram graves aberrações como a
adesão desavergonhada de parte da classe média aos métodos
do Bope, tema perturbador de um filme necessário, mas equivocado,
que deveria se chamar Tropa DA Elite.
Nada de novo sob o sol, né? Mas a música continua a produzir
os seus milagres. O mais recente deles atende pelo nome de Maria do Céu
Whitaker Poças, ou simplesmente Céu, cantora e compositora
nascida na cidade de São Paulo em 1980, que está deixando os
amantes da boa música boquiabertos com tantas belezas: a de seu canto,
a de sua modernidade, e a de sua figura.
Céu estava de malas prontas para traçar uma audaciosa turnê
pelos Estados Unidos quando prestou essa entrevista, em outubro de 2007.
O giro pelo norte do continente foi motivado pela significativa vendagem
de seu primeiro e único cd gravado em 2005, intitulado
Céu, que saiu no Brasil pela Ambulante Discos. Na terra
de Dylan, o álbum foi distribuído pela cadeia de cafeterias
Starbucks, e os críticos dos jornais mais influentes de lá
não poupam elogios à artista, que vem sendo considerada por
muitos como a maior sensação da música brasileira desde
o lançamento de Astrud Gilberto (sic) cantando a emblemática
Garota de Ipanema, de Tom Jobim & Vinícius de
Moraes.
Céu é realmente a melhor revelação dentre as
cantoras-compositoras surgidas nesta década no Brasil. Sua música
é um crossover muito inspirado de samba, jazz, reggae e música
africana, com acabamento eletrônico irrepreensível produzido
pela moça junto a Beto Villares. O disco de estréia é
o encontro de influências marcantes que Céu teve em seus 27
anos de vida, indo do seminal Jorge Ben Jor a Miles Davis, passando por Dorival
Caymmi, Villa-Lobos, Lee Perry (o mago do dub), Tom Jobim, Erykah Badu e
Ella Fitzgerald. Das quinze faixas do disco de estréia, só
duas não foram compostas por Céu e seus parceiros: Concrete
Jungle, de Bob Marley, e O Ronco da Cuíca, dos
infalíveis Aldir Blanc & João Bosco.
Felipe Tadeu Você estará realizando em breve
uma turnê de porte pelos Estados Unidos, indo tocar em 16 cidades.
A rede de cafés Starbucks tem alguma participação
nisso?
Céu Não, a minha estória com eles já
acabou. A Starbucks só foi a distribuidora do selo nos Estados Unidos,
eles nunca me patrocinaram. A turnê está se pagando com a vendagem
que viemos tendo até agora.
Felipe Tadeu Em 1998 você foi viver uma temporada
em Nova Iorque. O que você foi fazer lá? Aprimorar teus
conhecimentos musicais?
Céu O principal motivo foi mesmo a minha total afinidade
com a música norte-americana, com o jazz, o blues e o funk. Quando
estava lá, acabei descobrindo também o hip-hop. Eu tinha 18
anos e estava super a fim de viajar, aquela coisa de adolescente, sabe? Fiquei
um ano em Nova Iorque, não sabia falar inglês, nunca tinha
saído do Brasil e foi muito bacana, até por poder aprender
uma outra língua.
Felipe Tadeu Os shows que você fará para
o público norte-americano serão no mesm feitio dos
espetáculos que você apresenta no Brasil, ou pretende incluir
músicas em inglês?
Céu O show é exatamente o mesmo. A única
música que eu canto em inglês é Concrete Jungle,
de Marley. Além das músicas do meu primeiro disco, há
também um samba do Martinho da Vila (Visgo de Jaca, dele
e Rildo Hora), e às vezes a gente faz também
Nanã, de Moacir Santos. Como eu e minha banda já
tocamos juntos há um tempão, sempre inventamos alguma coisinha.
A gente tem um banco de músicas extras, que nós às vezes
usamos.
Felipe Tadeu Teu pai é musicólogo, é
um grande conhecedor de música. Foi difícil para você
desenvolver tua própria personalidade musical, aprimorar teu paladar
auditivo, diante das inevitáveis influências?
Céu A pergunta é ótima. Sim, você
tem razão, não foi nada fácil para mim. Quando se tem
muita música dentro de casa, muita informação musical
e opiniões fortes, você naturalmente segue o que teus pais falam.
Isso foi uma sorte que tive, claro, mas também precisei procurar minha
identidade, fazer uma viagem interna, vamos dizer assim. A estadia nos Estados
Unidos foi boa também para eu poder perceber melhor o que eu gostava
no meio de tantas raízes musicais brasileiras (risos). Eu comecei
a gostar de rap, da música jamaicana. Eu procuro estar ligada no que
está acontecendo, tenho interesse de conhecer o inconsciente
coletivo.
Felipe Tadeu Houve uma fase na tua vida em que você
se debruçou sobre as marchinhas de carnaval, músicas que fizeram
a alegria dos brasileiros nas décadas de 40, 50 etc. Conte um pouco
mais sobre esse repertório em que você mergulhou, um tesouro
musical que tem sido pouco revisitado pelos cantores brasileiros da
atualidade.
Céu Eu adoro as marchinhas. Foi com elas que fiz o meu
primeiro show profissional, cantando músicas numa homenagem a Braguinha,
o João de Barro, em 1997. O espetáculo foi uma
comemoração aos 90 anos do compositor e teve muita gente boa
como Johnny Alf, Noite Ilustrada e outros. Eu pretendo retomar esse trabalho
um dia.
Felipe Tadeu Como não poderia deixar de ser, você
também é grande admiradora de samba. Mas nos depoimentos que
você presta à imprensa, você sempre destaca as obras de
Nélson Cavaquinho, Martinho da Vila e outros componistas do Rio de
Janeiro. Ok, é lá que o samba se cristalizou, mas e os sambistas
da tua própria cidade, Geraldo Filme, Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini,
por exemplo?
Céu Eu gosto deles sim! Geraldo Filme foi um artista
que escutei quando era mais novinha, assim como o Adoniran. Já o Paulo
Vanzolini eu só vim ouvir agora há pouco. Meu pai era quase
xiita, sabe? Samba para ele é Nélson Cavaquinho, e nós
não ouvíamos mesme tanto samba paulista. Mas esse trio que
você comentou é realmente apaixonante.
Felipe Tadeu Nos anos 80, na década que você
nasceu, brotou em São Paulo a chamada Vanguarda Paulista, que reunia
artistas como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Tetê
Espíndola, Suzana Salles, Grupo Rumo etc. A cantora e compositora
Céu parece não ter sofrido a menor influência deles,
certo?
Céu Hoje eu sou muito fã de Itamar
Assumpção, inclusive uma das filhas dele, a Anelis, é
uma das minhas melhores amigas. Mas eu não escutei a Vanguarda Paulista.
Acho um grupo super inteligente, mas não me tocou diretamente. Agora
o Itamar (1950/ 2003) eu gosto muito. A banda Isca de Polícia é
fantástica, e o entrosamento que rolava entre o Gigante Brazyl (baterista)
e Paulinho Lepetit (baixo) é simplesmente sensacional.
Felipe Tadeu Os produtores continuam ganhando cada vez mais
relevância na indústria fonográfica, e duas das mais
badaladas cantoras brasileiras desta década Maria Rita e Bebel
Gilberto -, ficaram meio desorientadas depois da morte prematura de seus
respectivos produtores, Tom Capone e Suba. Você se imagina gravando
teu segundo disco sem a produção de Beto Villares?
Céu Eu me imagino trabalhando sem ele, com certeza,
pois nosso trabalho não é uma coisa fechada. Mas eu tenho vontade
de trabalhar com ele porque temos uma afinidade musical grande. Eu não
fecho a porta para outros produtores, assim como ele também trabalha
com outros cantores, e isso é bom, nos dá uma dinâmica
interessante.
Felipe Tadeu Na vez que você trabalhou com o produtor
Rica Amabis, cantando no disco dele Sambadelic, você estava
dentro de uma proposta mais radical de fazer música
eletrônica.
Céu Eu faço uma participação especial
neste disco (Céu canta Samba tal Sabá, de Rica
Amabis e A Falsa Baiana, de Geraldo Pereira). Rica me contratou
como cantora, não que eu tenha co-produzido as faixas, como fiz no
meu disco. Eu e Beto Villares chegamos a um acordo de sonoridade juntos.
Eu tenho essa vontade de mexer com textura, loops, scratchs, samples, e o
Beto prima por uma forma econômica, com uma sonoridade mais
orgânica.
Felipe Tadeu Por falar em participação
especial, você canta no último disco da Nação
Zumbi, álbum intitulado Fome de Tudo. Foi difícil
colocar a suavidade do teu canto no meio daquela sonzeira toda?
Céu Eu e os músicos da Nação Zumbi
somos bem próximos, nós convivemos bastante juntos. Temos inclusive
outros projetos que vão ser lançados daqui a um tempo. Essa
participação no disco deles, que tem produção
do Mário Caldato, me deixou muito lisonjeada. Eu canto uma música
chamada Inferno.
© Felipe Tadeu 2007 |
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