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Felipe Tadeu

Céu – A música brasileira em diálogo com o mundo

O Brasil é um país que padece há séculos de dois males que não parecem ter cura: a corrupção de sua classe política, conseqüência direta de outra chaga, que é a irresponsabilidade de seus cidadãos. A gestão do outrora socialista e líder dos trabalhadores Luís Inácio Lula da Silva, que está no poder há seis anos, não tem se distingüido pela moralidade e o combate às práticas ilícitas do capital. Muito pelo contrário. O resultado é que a nação atravessa uma onda de ceticismo endossada pelo aumento da criminalidade nos grandes centros urbanos e a impunidade generalizada, que geram graves aberrações como a adesão desavergonhada de parte da classe média aos métodos do Bope, tema perturbador de um filme necessário, mas equivocado, que deveria se chamar “Tropa DA Elite”.

Nada de novo sob o sol, né? Mas a música continua a produzir os seus milagres. O mais recente deles atende pelo nome de Maria do Céu Whitaker Poças, ou simplesmente Céu, cantora e compositora nascida na cidade de São Paulo em 1980, que está deixando os amantes da boa música boquiabertos com tantas belezas: a de seu canto, a de sua modernidade, e a de sua figura.

Céu estava de malas prontas para traçar uma audaciosa turnê pelos Estados Unidos quando prestou essa entrevista, em outubro de 2007. O giro pelo norte do continente foi motivado pela significativa vendagem de seu primeiro e único cd gravado em 2005, intitulado “Céu”, que saiu no Brasil pela Ambulante Discos. Na terra de Dylan, o álbum foi distribuído pela cadeia de cafeterias Starbucks, e os críticos dos jornais mais influentes de lá não poupam elogios à artista, que vem sendo considerada por muitos como a maior sensação da música brasileira desde o lançamento de Astrud Gilberto (sic) cantando a emblemática “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim & Vinícius de Moraes.

Céu é realmente a melhor revelação dentre as cantoras-compositoras surgidas nesta década no Brasil. Sua música é um crossover muito inspirado de samba, jazz, reggae e música africana, com acabamento eletrônico irrepreensível produzido pela moça junto a Beto Villares. O disco de estréia é o encontro de influências marcantes que Céu teve em seus 27 anos de vida, indo do seminal Jorge Ben Jor a Miles Davis, passando por Dorival Caymmi, Villa-Lobos, Lee Perry (o mago do dub), Tom Jobim, Erykah Badu e Ella Fitzgerald. Das quinze faixas do disco de estréia, só duas não foram compostas por Céu e seus parceiros: “Concrete Jungle”, de Bob Marley, e “O Ronco da Cuíca”, dos infalíveis Aldir Blanc & João Bosco.


Felipe Tadeu – Você estará realizando em breve uma turnê de porte pelos Estados Unidos, indo tocar em 16 cidades. A rede de cafés Starbucks tem alguma participação nisso?

Céu – Não, a minha estória com eles já acabou. A Starbucks só foi a distribuidora do selo nos Estados Unidos, eles nunca me patrocinaram. A turnê está se pagando com a vendagem que viemos tendo até agora.

Felipe TadeuEm 1998 você foi viver uma temporada em Nova Iorque. O que você foi fazer lá? Aprimorar teus conhecimentos musicais?

Céu – O principal motivo foi mesmo a minha total afinidade com a música norte-americana, com o jazz, o blues e o funk. Quando estava lá, acabei descobrindo também o hip-hop. Eu tinha 18 anos e estava super a fim de viajar, aquela coisa de adolescente, sabe? Fiquei um ano em Nova Iorque, não sabia falar inglês, nunca tinha saído do Brasil e foi muito bacana, até por poder aprender uma outra língua.

Felipe Tadeu –  Os shows que você fará para o público norte-americano serão no mesm feitio dos espetáculos que você apresenta no Brasil, ou pretende incluir músicas em inglês?

Céu – O show é exatamente o mesmo. A única música que eu canto em inglês é “Concrete Jungle”, de Marley. Além das músicas do meu primeiro disco, há também um samba do Martinho da Vila (“Visgo de Jaca”, dele e Rildo Hora), e às vezes a gente faz também “Nanã”, de Moacir Santos. Como eu e minha banda já tocamos juntos há um tempão, sempre inventamos alguma coisinha. A gente tem um banco de músicas extras, que nós às vezes usamos.

Felipe Tadeu – Teu pai é musicólogo, é um grande conhecedor de música. Foi difícil para você desenvolver tua própria personalidade musical, aprimorar teu paladar auditivo, diante das inevitáveis influências?

Céu –  A pergunta é ótima. Sim, você tem razão, não foi nada fácil para mim. Quando se tem muita música dentro de casa, muita informação musical e opiniões fortes, você naturalmente segue o que teus pais falam. Isso foi uma sorte que tive, claro, mas também precisei procurar minha identidade, fazer uma viagem interna, vamos dizer assim. A estadia nos Estados Unidos foi boa também para eu poder perceber melhor o que eu gostava no meio de tantas raízes musicais brasileiras (risos). Eu comecei a gostar de rap, da música jamaicana. Eu procuro estar ligada no que está acontecendo, tenho interesse de conhecer o inconsciente coletivo.

Felipe Tadeu –  Houve uma fase na tua vida em que você se debruçou sobre as marchinhas de carnaval, músicas que fizeram a alegria dos brasileiros nas décadas de 40, 50 etc. Conte um pouco mais sobre esse repertório em que você mergulhou, um tesouro musical que tem sido pouco revisitado pelos cantores brasileiros da atualidade.

Céu – Eu adoro as marchinhas. Foi com elas que fiz o meu primeiro show profissional, cantando músicas numa homenagem a Braguinha, o João de Barro, em 1997. O espetáculo foi uma comemoração aos 90 anos do compositor e teve muita gente boa como Johnny Alf, Noite Ilustrada e outros. Eu pretendo retomar esse trabalho um dia.

Felipe TadeuComo não poderia deixar de ser, você também é grande admiradora de samba. Mas nos depoimentos que você presta à imprensa, você sempre destaca as obras de Nélson Cavaquinho, Martinho da Vila e outros componistas do Rio de Janeiro. Ok, é lá que o samba se cristalizou, mas e os sambistas da tua própria cidade, Geraldo Filme, Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini, por exemplo?

Céu –  Eu gosto deles sim! Geraldo Filme foi um artista que escutei quando era mais novinha, assim como o Adoniran. Já o Paulo Vanzolini eu só vim ouvir agora há pouco. Meu pai era quase xiita, sabe? Samba para ele é Nélson Cavaquinho, e nós não ouvíamos mesme tanto samba paulista. Mas esse trio que você comentou é realmente apaixonante.

Felipe TadeuNos anos 80, na década que você nasceu, brotou em São Paulo a chamada Vanguarda Paulista, que reunia artistas como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Suzana Salles, Grupo Rumo etc. A cantora e compositora Céu parece não ter sofrido a menor influência deles, certo?

Céu – Hoje eu sou muito fã de Itamar Assumpção, inclusive uma das filhas dele, a Anelis, é uma das minhas melhores amigas. Mas eu não escutei a Vanguarda Paulista. Acho um grupo super inteligente, mas não me tocou diretamente. Agora o Itamar (1950/ 2003) eu gosto muito. A banda Isca de Polícia é fantástica, e o entrosamento que rolava entre o Gigante Brazyl (baterista) e Paulinho Lepetit (baixo) é simplesmente sensacional.

Felipe TadeuOs produtores continuam ganhando cada vez mais relevância na indústria fonográfica, e duas das mais badaladas cantoras brasileiras desta década – Maria Rita e Bebel Gilberto -, ficaram meio desorientadas depois da morte prematura de seus respectivos produtores, Tom Capone e Suba. Você se imagina gravando teu segundo disco sem a produção de Beto Villares?

Céu – Eu me imagino trabalhando sem ele, com certeza, pois nosso trabalho não é uma coisa fechada. Mas eu tenho vontade de trabalhar com ele porque temos uma afinidade musical grande. Eu não fecho a porta para outros produtores, assim como ele também trabalha com outros cantores, e isso é bom, nos dá uma dinâmica interessante.

Felipe TadeuNa vez que você trabalhou com o produtor Rica Amabis, cantando no disco dele “Sambadelic”, você estava dentro de uma proposta mais radical de fazer música eletrônica.

Céu – Eu faço uma participação especial neste disco (Céu canta “Samba tal Sabá”, de Rica Amabis e “A Falsa Baiana”, de Geraldo Pereira). Rica me contratou como cantora, não que eu tenha co-produzido as faixas, como fiz no meu disco. Eu e Beto Villares chegamos a um acordo de sonoridade juntos. Eu tenho essa vontade de mexer com textura, loops, scratchs, samples, e o Beto prima por uma forma econômica, com uma sonoridade mais orgânica.

Felipe Tadeu –  Por falar em participação especial, você canta no último disco da Nação Zumbi, álbum intitulado “Fome de Tudo”. Foi difícil colocar a suavidade do teu canto no meio daquela sonzeira toda?

Céu – Eu e os músicos da Nação Zumbi somos bem próximos, nós convivemos bastante juntos. Temos inclusive outros projetos que vão ser lançados daqui a um tempo. Essa participação no disco deles, que tem produção do Mário Caldato, me deixou muito lisonjeada. Eu canto uma música chamada “Inferno”.

© Felipe Tadeu 2007



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O som do Brasil

Felipe Tadeu
é jornalista especializado em música brasileira, produtor do programa radiofônico Radar Brasil (Rádio Darmstadt). Radicado na Alemanha desde 91, o autor é também conhecido como DJ Fila



Die deutsche Übersetzung des Interviews erscheint in der November-Ausgabe der Zeitschrift Jazzthetik.

Homepage de CéuCéu na internet:
www.ceumusic.com
www.myspace.com/ceumusic