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Felipe Tadeu

Guinga – Música dos segredos da alma

Guinga. Foto: Felipe Tadeu
Frankfurt, Alemanha – O compositor e violonista carioca Guinga realizou em fevereiro um belíssimo concerto na Brotfabrik de Frankfurt. Tendo ao seu lado dois virtuosos instrumentistas, o clarinetista italiano Gabrielle Mirabassi e o violonista Marcus Tardelli, Guinga cativou a platéia com seus preciosos temas instrumentais, num evento promovido pelo CCBF – Centro Cultural Brasileiro em Frankfurt.

Soltando a lábia como quem disfarça a timidez, o autor de “Catavento e Girassol” arrancou risos dos espectadores que sabiam português, dando um show de carisma com seu curioso palavreado. Ainda que só tenha cantado três canções durante todo o espetáculo – “Senhorinha”, dele e Paulo César Pinheiro, “Carinhoso”, de Pixinguinha e Braguinha, e uma versão surpreendente de “O Barquinho”, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli -, a apresentação foi irrepreensível. Depois do concerto, Guinga conversou conosco acerca de sua carreira (em plena expansão no exterior), seus parceiros e seus xodós.

Felipe Tadeu – Você vem com certa regularidade à Europa. Ela é muito especial pra você?

Guinga: A Itália, que é onde estou baseado há sete anos e onde já realizei 22 turnês, é como se fosse meu segundo país. A Europa foi para mim uma porta que se abriu, que valorizou minha carreira, um continente onde a maior parte dos países é do Primeiro Mundo, países fortes, onde é bom trabalhar e onde você ganha bem. Eu preciso sobreviver, sou autônomo, trabalho para sustentar minha família. Nunca tirei férias e nem pretendo tirar. Férias só no dia que eu morrer. Aqui na Europa há espaços bons para você tocar para quatrocentas, quinhentas pessoas, e já tive até a sorte de tocar para 2 mil espectadores. O fato dos europeus serem civilizados há muito mais tempo que nós gera uma facilidade de entendimento, mesmo com uma cultura diferente. A inteligência e a educação são fatores primordiais para que você evolua na vida e possa exercitar a tua sensibilidade.

– Você parece que está preparando um dvd, né? Conte mais um pouco a respeito.

Guinga: Há um jornalista espanhol, que é correspondente do El País no Brasil e é da TV espanhola, que se apaixonou pela minha música e tem muita vontade de fazer um dvd em preto-e-branco comigo. Ele pretende tirar como parâmetro um filme que foi feito com o Chet Baker. É um cara de muitas idéias, está tentando captar recursos e vai botar inclusive dinheiro do bolso dele. A gente vai fazer esse trabalho devagar. Vamos filmar minha vida por onde eu tenho passado e isso vai depender da disponibilidade financeira, porque vir aqui para a Europa já encarece muito. Já estão sendo sondadas também muitas locações no Brasil e já existe um material que foi feito por um amigo dele, que vai ceder o material pro dvd. A gente já tem uma velocidade inicial.

– Ainda que você tenha disco lançado também nos Estados Unidos, poderíamos dizer que a Europa é mais aberta para o tipo de música que você faz?

Guinga: Olha, eu tenho que ser sincero. Sou muito agradecido à Europa, aonde eu mais viajei foi aqui, sempre fui muito bem sucedido, graças a Deus, mas uma coisa eu não posso negar a você: o público norte-americano tem uma formação muito sólida por causa do jazz. Eles entendem a beleza muito rapidamente, não dá muito trabalho mostrá-la. Não estou dizendo que eles sejam um público melhor não, mas o europeu, talvez por ser mais antigo, é um ser mais desconfiado. Por ser berço das artes, o europeu talvez queira te avaliar melhor. Agora, eu adoro tocar aqui. Me diziam, por exemplo, que Londres é uma cidade fria. O público londrino é uma loucura, já dei bis lá que durou mais de 50 minutos!

Vamos dar um pulo lá no teu passado. Quando você estava começando a tocar violão, no início da adolescência, você teve a sorte de ser vizinho do guitarrista Hélio Delmiro, um dos maiores ases do instrumento no Brasil. Ele chegou a te influenciar de alguma forma na arte das seis cordas?

Guinga:
Se não fosse a existência de Marcus Tardelli, o Hélio seria o único no meu coração, o maior de todos os violonistas. Hélio é um deus para mim, inalcançável. Ele é uma genialidade absurda tocando violão, Deus tocou a alma daquele cara. É meu amigo desde que eu tinha 14 anos e é meu padrinho de casamento. É por causa de Hélio Delmiro que eu sou compositor, porque eu entendi que nunca seria um violonista que chegasse aos pés dele. Ele me salvou quando fui ser compositor. Agora, como não há um sem dois, apareceu na minha vida esse Marcus Tardelli, que é o maior violonista que eu já vi tocar! Você não imagina o que ele é, hoje você só viu a pontinha do iceberg. Aquilo que ele fez no show aqui não é nada perto do que ele toca. Nada, nada, nada. Ele é o maior violonista do mundo junto a Andre Segovia. Tardelli mudou a maneira de tocar violão e o mundo vai saber disso.

– Já que estamos falando de violão e estamos comemorando os 50 anos da Bossa Nova em 2008, o que você acha de João Gilberto? É um mito para Guinga?

Guinga: Não. Eu o ouvi muito, por incrível que pareça eu moro na rua dele e também nasci no mesmo dia 10 de junho, como ele. João Gilberto é um gênio, isso não se questiona. Ele é um inventor, e quem inventa fica para o resto da vida. Agora, dentro do meu coração, não é o músico que me cala mais profundamente. O Baden Powell me toca muito mais, assim como Luís Bonfá, Laurindo de Almeida, Garoto, Dino, Dilermando Reis, Hélio Delmiro, Toninho Horta e João Pernambuco. Agora, João é inventor. Ele pegou aquela batida que o Garoto já fazia e botou lá do jeito dele, igual a relógio suíço, que ninguém sabe fazer aquilo, só ele. Eu não tenho muita afinidade com a música de João Gilberto. Não tenho porque rasgar seda por ele, até porque perto dele eu não sou nada. Agora, esse papo de depois de João Gilberto só o silêncio…(citando verso da canção “Pra Ninguém”, de Caetano Veloso), eu diria que depois de Tschaikowsky só o silêncio. Ou depois de Villa-Lobos só o silêncio, ou depois de Tom Jobim, ou de Chico Buarque, ou de Milton Nascimento só o silêncio. As pessoas precisam ouvir mais. O Brasil padece de uma falta de cultura mesmo. Nós temos a matéria-prima, mas falta cultura. Os caras ouvem pouco e ficam enaltecendo violentamente coisas que são belas, mas que não me apaixonam. Os baianos que me comovem são Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Caetano Veloso. João Gilberto tem o mérito de ser um músico excepcional, um ouvido excepcional, uma estética muito bonita, mas que está muito longe desses outros todos.

– No show você fez uma versão de “O Barquinho”, clássico da Bossa, lincando com Caymmi.

Guinga:
O barquinho virou jangada, né? (Risos) Virou jangada e cruzou o Atlântico.

– Você morou na Tijuca, bairro tradicional do Rio de Janeiro, e tem Aldir Blanc como teu maior parceiro. Aldir foi integrante do MAU – Movimento Artístico Universitário, criado na década de 70. Você chegou a freqüentar aquelas reuniões históricas na Tijuca, de onde saíram nomes como Ivan Lins e Gonzaguinha, dentre outros?

Guinga: Sim, eu freqüentei dois anos seguidos a casa do doutor Aloísio Portocarrero, lá na rua Jaceguai. Eu ía todas as sextas-feiras às reuniões, só que eu era um desconhecido, e ficava calado, quieto, só aprendendo e ouvindo.

– Mas você já compunha naquela época, né?

Guinga:
É, mas não mostrava nada lá. Um dia, no Festival Internacional da Canção de 1971, quando eu tinha 21 anos, eu classifiquei uma música (Nota do Redator: A canção era “Pela Cidade”, numa época em que Guinga ainda assinava Carlos Escobar, numa parceria com Márcio Ramos). Nesse mesmo festival, Ivan Lins classificou música, César Costa Filho também, Sílvio da Silva Jr., Aldir Blanc, todos eles lá do MAU. Aí é que eles souberam que eu era compositor também. Eles me absorveram, foram muito bacanas comigo, e nossa amizade começou a partir daí. Não com o Aldir propriamente dito, porque o Aldir era muito fechado, mas com o Ivan Lins, com o Ronaldo Monteiro e com César Costa Filho. O Gonzaguinha também não ficou meu amigo porque também era muito fechado, falava pouco. Mas era um artista genial.

– Antes de Aldir Blanc se tornar teu parceiro mais assíduo, você empreendeu uma série de canções com Paulo César Pinheiro. Como é que vocês dois se encontraram na vida?

Guinga:
Conheci Paulo César Pinheiro com dezessete anos em Jacarepaguá, por intermédio de um amigo comum, Luís Carlos Nora, vulgo Veião. Ele me levou na casa dele para eu conhecer o Paulo César Pinheiro numa feijoada, e Paulinho tinha acabado de ganhar a Bienal do Samba com “Lapinha” (de Paulo César e Baden Powell). Ele tinha dezoito anos e a gente foi ficando amigo. Aí, quando fiz vinte e um, começamos a compor juntos. Minha obra está dividida entre dois artistas: Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro.

– Um dos fatos mais curiosos da tua biografia foi você ter tocado com a Banda Black Rio. Como foi que se deu esse acontecimento?

Guinga:
Foi a circunstância. Eu fui tocar num clube de Brás de Pina, no Suruí, com João Nogueira. Ele fazia uma participação no show da Banda Black Rio, e eu era muito amigo do Oberdan Magalhães – um dos fundadores da Black Rio -, assim como do Luís Carlos, baterista. Nesse dia eu tive que tocar com o João e o Zé Carlos, que era o guitarrista do grupo, me emprestou a guitarra dele para eu tocar. É a única foto da minha vida em que apareço com uma guitarra pendurada no pescoço. Tocamos eu, Barrosinho, Serginho Trombone, Luís Carlos, Oberdan, Zé Carlos e acho que o contrabaixista era Jamil Joanes. Só fera! Eu via a Banda Black Rio ensaiar lá em Vaz Lobo, na casa do Oberdan. Deus me botou no caminho muita música boa, sabe?

– Você cresceu ouvindo muita música erudita com o teu pai e jazz também. Rolava muito soul e funk também na tua vitrola?A chamada black music norte-americana era uma tremenda sensação na Zona Norte do Rio.

Guinga:
James Brown é um gênio. Little Richard eu adorava, Michael Jackson também. Por Stevie Wonder eu tenho verdadeira loucura. Sou um cara que estou aberto a ouvir a grande música.

– E o reggae de Bob Marley?

Guinga:
Não tenho nenhum amor por ele. Sei que ele é bom, mas não me bate. Eu gosto de música com harmonia. Música sem harmonia, só se for feita por Tom Jobim, ou por Ira e George Gershwin. Música com pouco acorde só “Águas de Março”, ou só de João Donato. Esses sabem mexer com o troço.

– Francis Hime fez um comentário certeiro sobre você, ao ouvir teu mais recente disco, “Casa de Villa”. Ele disse que Guinga tem “voz emocionada”.

Guinga:
Eu acho que todo compositor tem o direito de cantar a sua obra. Nenhum compositor é obrigado a ser cantor. O conceito de cantor mudou muito, hoje em dia você escuta mais são os compositores cantando as suas canções, porque eles sabem melhor a intenção. Há grandes cantores no momento, mas a coisa está diluída. Quer ver uma cantora que me emociona? Björk! A dificuldade dela às vezes é tanta, que aquilo se torna mais belo. Eu não acho que para se cantar bem tem que ter voz bonita, senão o Louis Armstrong não poderia cantar, nem Nelsono Cavaquinho, nem Billie Holliday. Eu acabei de citar três gênios do canto. E adoro Chico Buarque cantando. Ninguém canta a obra dele como ele. É um gênio. Aliás, vou citar outros gênios cariocas: Villa-Lobos, Chico, Edu Lobo, Tom, Ernesto Nazareth, Pixinguinha e Jacob do Bandolim. Chega, né?

– Milton Nascimento também nasceu no Rio.

Guinga:
Mas ele é mineiro. Milton para mim é o único compositor de canção que pode se ombrear com Chico Buarque. Dos compositores-cantores ele é o melhor de todos os tempos. Disparado. Aliás, Chico, Milton, Hermeto são fenômenos da natureza. Estão entre os maiores artistas do mundo.

– O desempenho de Gabrielle Mirabassi no show é inesquecível. Fale um pouco mais dele.

Guinga:
É um grande embaixador da música brasileira. Já gravou com Sérgio Assad, com André Mehmari…Dei sorte dele ter se apaixonado pela minha música. É um clarinetista monstruoso!

– Paulo Moura já teve o prazer de conhecê-lo?

Guinga:
Se conhecer, vai desmaiar. Vai ter um ataque, porque o Gabrielle é fogo.

– Vocês estão preparando o disco „Graffiando Vento“ 2?

Guinga:
Não sei. Já temos material gravado, mas não sei se a gravadora irá se interessar realmente em fazer o disco. Eu vou gravando, gravando, eles podem fazer uma compilação e lançar o disco. O que eles acharem melhor.

– O “Graffiando Vento” sairá mesmo no Brasil pela Biscoito Fino?

Guinga:
Sim.

– Você poderia ter cantado mais canções nesse show aqui na Alemanha, mas parece que você privilegia teu lado instrumental nas apresentações internacionais por causa do nosso idioma. Logo você, que tem parceiros como Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Nei Lopes e Chico Buarque de Hollanda.

Guinga. Foto: Felipe TadeuGuinga: A língua portuguesa é um código, ninguém a entende. Eu sou um compositor de canções que se manifesta instrumentalmente por circunstâncias. Hoje no show me bateu o dom de toccar violão, agora, eu não sou um concertista como Marcus Tardelli. Eu até poderia levar minha vida como violonista, mas o que eu sou é compositor.

– Tua parceria com Aldir Blanc “Catavento e Girassol” acaba de sair no novo disco de Sérgio Mendes. Já ouviu a versão dele?

Guinga:
Eu estou recebendo a notícia de você em primeira mão. Sérgio já havia me dito que a música estava no disco, e que ele seria lançado brevemente. Que bom que já saiu.

Texto e Fotos: © Felipe Tadeu 2008



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O som do Brasil

Felipe Tadeu
é jornalista especializado em música brasileira, produtor do programa radiofônico Radar Brasil (Rádio Darmstadt). Radicado na Alemanha desde 91, o autor é também conhecido como DJ Fila