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Felipe Tadeu

Beatriz Azevedo – A alegria é a prova dos nove

Beatriz AzevedoA cantora, poeta e compositora Beatriz Azevedo lançou há pouco o terceiro disco de sua carreira, um álbum que chegou às boas casas do ramo via Biscoito Fino. “Alegria” é um trabalho fascinante por tudo que traz em termos de inventividade, graça, delicadeza, vigor e coragem. Poesia da flor à pele.

A mídia tem falado pouco dele, bem menos do que deveria. Mas vai ver esse é outro talento de Beatriz, além de cantar tão segura e de compor tantas surpresas. Beatriz não se expõe muito, preferindo chegar aos poucos àqueles que interessam. Você, por exemplo.


“Alegria” é o teu melhor trabalho lançado até agora. É também o primeiro em que você “banca” a produção musical sozinha. Isso fez a diferença nesse disco?

Beatriz Azevedo: AlegriaBeatriz Azevedo – “Alegria” é o meu terceiro CD. A princípio eu planejava ter um produtor musical, como tive nos 2 primeiros discos (N.dR: “Bum Bum do Poeta”, de 2000 e “Mapa-Mundi – Samba and Poetry”). Mas os produtores musicais com quem eu queria trabalhar estavam com a agenda tomada. Então eu não tive escolha, tive que assumir a produção musical de uma hora para outra, e acabei adorando! Também eu contava com a presença de músicos brilhantes ao meu lado, a direção musical do Cristóvão Bastos, o talento e a intimidade com Bocato, que toca comigo há muitos anos. Na verdade eu já sabia muito bem o que queria com o CD. Mas como nunca tinha assinado a produção musical, o que eu não sabia era se eu daria conta sozinha. A diferença é que tive total liberdade nas decisões finais e tive que me colocar ainda mais no trabalho, não só na composição e interpretação musical, mas na criação dos arranjos, na decisão dos instrumentos, de que músicos convidar, na sonoridade do CD, nos timbres, na mixagem, na arte da capa, enfim, em todo o processo de criação. Para o bem e para o mal, “Alegria” é a minha cara! Hoje acho isso muito importante, muito necessário, na música, na arte em geral. Muitos discos que a gente escuta por aí ficam devendo uma integridade, uma personalidade, uma entrega, um posicionamento total do artista. Quando a presença do produtor é muito marcante no trabalho, parece que isso "esconde" a personalidade (ou a falta de) do próprio artista. No caso de cantoras, principalmente, parece que você não está tocando a verdadeira pessoa, mas uma pele carregada de maquiagem, truques de estúdio, efeitos, peitos de silicone, vozes de botox.

O arranjo de “Speak Low” é maravilhoso, com aquela surpresa que é o berimbau, e a batida de maracatu. Com foi trabalhar com Cristóvão Bastos como diretor musical?

Beatriz Azevedo – Quanto ao “Speak Low”, fico muito contente que você curtiu, exatamente porque este foi um arranjo que nasceu na minha cabeça e tive que "brigar" um pouco com os músicos para convencê-los de que ficaria legal. Desde o princípio quis fazer “Speak Low” numa levada de maracatu. Na faculdade de artes cênicas eu tive aulas com a Raquel Trindade, uma mãe de santo que jogou os búzios para mim, filha do Solano Trindade, do Recife, e ela dava aulas de danças populares do Brasil. O maracatu me encantou, não é só um ritmo, é um ritual. Daí quis colocar esta atmosfera densa em “Speak Low”. É um standard, todo mundo já gravou, de Billie Holiday à Marisa Monte, e não teria o menor sentido eu fazer mais uma regravação. Só se acrescentasse realmente, fosse uma nova leitura da música do Kurt Weill. Daí fui convidada para tocar em Berlim e achei que era o momento certo de fazer esta devoração brasileira na terra dele. Exatamente porque Berlim, a Alemanha, é muito marcante para mim, eu me alimento desta cultura, de Nietzsche a Brecht, de Dietrich a Fassbinder, de Kurt Weill a Pole, de Peter Stein à Pina Bausch, à Sascha Waltz. Bom, mas musicalmente, Speak Low é em 2/4 e o maracatu é um dos poucos ritmos brasileiros que é em 4/4. Depois é barulhento, tem os tambores, as alfaias, e a letra diz para falar baixinho... Na cabeça da maioria dos músicos, “Speak Low” é uma balada, um jazz suave, eles já sabem tocar de cor, e não teria nada a ver a minha vontade de ter maracatu nesta canção. Mas aos poucos fui convencendo a banda e tocamos várias vezes em shows, até ficar orgânico para todo mundo. Nas gravações, levei a base já gravada para o percussionista Gui Kastrup, e disse: já tem bateria, caixa de maracatu, mas está faltando algo. Coloca umas alfaias bem graves. E não sei porque ouvi um berimbau (que normalmente nem entra em maracatu, tem mais a ver com capoeira, com Bahia do que com Recife) – e encomendei: não deixa de gravar um berimbau!

Quando fui ao Rio me encontrar com o Cristóvão para dialogar sobre os arranjos do CD, mostrei várias gravações dos shows, o repertório todo, e a gente conversou sobre o que poderíamos fazer com cada música, o que precisaria ser acrescentado ou retirado, que instrumentos usaríamos, que arranjos (envolvendo cordas ou metais) o Cristóvão precisaria escrever partitura, que harmonias ele achava que precisava refazer, etc. No caso de “Speak Low” ele falou: "está lindo assim como você já faz nos shows, não precisa tirar nem colocar nada, a onda está ótima".

Isto ilustra muito bem quem é o Cristóvão. Ele sabe tudo de música, tem tanta experiência que é tranquilo e não precisa ostentar nada. Coisa de sábio. Ele tanto está ligado às tradições do samba, do choro do Rio de Janeiro, como foi um dos fundadores da Banda Black Rio, de todo aquele suíngue. Por tudo isso, o que eu sinto é que quando ele vem tocar comigo, com gerações que estão surgindo agora, ele não fica querendo dar uma "receita" de como se faz ou deveria fazer música brasileira. Ele vem aberto, e está mais interessado na diferença que eu trago. Fui percebendo isso ao longo dos shows, e aí eu virei fã mesmo dele! No primeiro show no Sesc Pompéia, anos atrás, eu coloquei um poema maluco meio rap, longuíssimo, violento, barulhento, no repertório do show. Era o único número em que o Cristóvão não participava. Aquilo causou um estranhamento no meio das canções, de músicas mais "brasileiras" e delicadas que a banda tocou. O Cristóvão saiu do palco e ficou assistindo de fora. Eu cheguei a imaginar que na próxima vez que eu o convidasse para tocar comigo ele daria uma desculpa, não voltaria mais para trabalhar com aquela maluca. Afinal ele é o diretor musical da Nana Caymmi, do Paulinho da Viola, da Gal Costa, parceiro do Chico Buarque. Vamos combinar que ele realmente não "precisa" de mim para nada, né? Mas foi ao contrário! Quando o show acabou, ele me disse que o que ele mais havia gostado era justamente o poema.

Bocato está se tornando uma marca da tua sonoridade. Fale um pouco desse ilustre integrante da banda Isca de Polícia.

Beatriz Azevedo – Bocato é um músico genial também. Bem livre, malucão. Tem uma história muito ligada à música mais ousada de São Paulo, à chamada "vanguarda paulistana", criou a Banda Metalurgia. Eu não era nem nascida e ele já arrebentava por aí. Tocou com Elis Regina quando ele era ainda adolescente. Eu adoro o som dele, e acho que combina muito bem com a música que eu faço, o trombone do Bocato completa uma atmosfera meio cabaret que me atrai, ecoa também os metais de Goran Bregovic, aquelas cenas geniais do filme “Underground” do Kusturica, e as bandas das cidades do interior do Brasil, meio fanfarra, os metais graves tipo tuba. Tudo isso cabe como uma luva na música que eu componho, e o Bocato, com um trombone só, coloca um vasto mundo dentro do meu CD.

Um dos fatores que te distingüem dentre tantos novos valores da música brasileira é a literatura. Você encontra soluções inesperadas inclusive para poemas alheios, que estavam por aí, meio que esquecidos no tempo. Ainda que a palavra te seja tão íntima, tão própria, tem-se a impressão de que se fosse para a Beatriz fazer só literatura, ela não faria. Você se concebe sem o lado compositora?

Beatriz Azevedo – Olha, eu tenho este vício de encontrar contemporaneidade em textos antigos, eu sempre leio um texto, por mais antigo que seja, com a minha voz pessoal, atual, viva, leio em voz alta sem fazer salamaleques ao "tu e vós" que porventura o poema tenha, ou rimas rígidas que revelam a época em que foram criados e que hoje soam obsoletas. Eu procuro deixar o poema nu, sem estes fricotes e figurinos de uma época tal. Busco a palavra crua, nua, verdadeira. Acho que o "velho" está na cabeça de quem lê também. É como se eu visse a Maria Antonieta, ou o Napoleão Bonaparte, nadando pelados num rio, sem todas aquelas armaduras e espartilhos. Daí eles me soam tão naturais como eu, tão humanos, capazes dos mesmos sentimentos universais que eu. Lido assim com as palavras. E as pessoas. Por que se você ficar na armadura, na casca, na reverência, não tem a menor graça. Eu preciso escrever, creio que tenho uma inclinação natural e inevitável pela literatura. Por outro lado, não gosto de guetos, sou muito indisciplinada e nada formal com as pessoas, com as instituições. Daí não me sinto muito confortável no meio literário tradicional, que flerta muito com o acadêmico, que tem uma certa pose intelectual, uma afetação erudita. Claro que nem todos são assim! Mas de maneira geral este é o tom. Por outro lado, também ser escritor é totalmente solitário. O processo de criação, o escritor sozinho e em silêncio na sua casa, no seu quarto, e depois o processo de leitura, o leitor sozinho e silencioso no seu quarto. Eu já me sinto solitária e profunda o suficiente, por natureza. Então adolescente, me conhecendo, descobrindo, sabia que não poderia me furtar à esta profundidade, este mergulho vertical na vida, que acredito muitos poetas sentem como "chamado". Daí resolvi me embrenhar no teatro, na música, ficar em contato com as pessoas, desenvolver a comunicação, conectar com a vida simples, popular, sem torres de marfim. Sobretudo, hoje eu sei, busco a celebração coletiva, compartilhar a vida com as pessoas no momento presente. Procuro trazer toda a verticalidade da literatura para a situação horizontal do teatro, onde todos estão ali naquele momento e vão compartilhar as sensações naqueles instantes, seja numa canção ou num poema. Muito diferente do isolamento, do "egoísmo" da leitura individual sozinha no meu quarto. Tem seu prazer esta "masturbação" solitária, mas por enquanto prefiro os rituais coletivos, os "bacanais" de arte e humanidade. Por outro lado, já escrevi livros e alguns foram publicados. Digo nunca não or never. Quem sabe? Talvez quando eu ficar velhinha...

Você constrói a base da tua obra sobre a lage deixada pelos modernistas. Utiliza elementos da Tropicália, mas o faz de maneira renovadora, surpreendendo. O que acha de grupos como o Nuvem Cigana e os chamados poetas da “geração mimeógrafo”?

Beatriz Azevedo – Conheço só de nome estes grupos, a geração mimeógrafo. Tenho simpatia, acredito que foram jovens em seu tempo procurando se apropriar da poesia, sem tantos formalismos. Mas não posso falar muito, porque não conheço de verdade. Já com relação à antropofagia (muito mais do que o Modernismo em si) e com a Tropicália, a ligação é direta mesmo. Sinto que em diversas gerações surgiram artistas que tem um jeito de ver o Brasil dentro do mundo e o mundo dentro do Brasil, com os quais comungo desta percepção. Não se trata de reverenciá-los ou tentar fazer parecido, como muitos fazem por aí, porque o que mais me interessa na Tropicália, por exemplo, não é nem o resultado, mas os impulsos primordiais, a força motriz, a energia geradora é o que me toca até agora. Agora, hoje, no meu próprio tempo, me sinto viva e criando diálogos com o que me cerca, refletindo sobre o Brasil e o mundo, do meu jeito.

No Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira consta que você nasceu no Rio de Janeiro. Verdade? Será que o Rio só entrou na certidão de nascimento, ou teve alguma influência no teu labor criativo?

Beatriz Azevedo – É verdade, lá está assim, e muita gente acha que eu sou carioca. Mas eu nasci na Avenida Paulista, mêu. O que acontece é que minhas origens são mineiras, de Ouro Preto, e cariocas, muitos tios e primos vivem no Rio. Além de tudo, eu amo o mar, a natureza, a beleza, o curtir a vida com os pés descalços na areia. Odeio poluição, barulho, stress, a vida capitalista e brutal, o trânsito caótico. Por que será que pensam que eu sou carioca (risos)? Com certeza o Rio está no que eu faço, o humor, a graça, a leveza, a coisa mais suingada. Sou mais das curvas do que das linhas retas.

Você tem forte vínculo com Zé Celso Martinez. Como e quando vocês se conheceram?

Beatriz Azevedo – Foi engraçado. Eu estudava artes cênicas na Unicamp, e o Zé Celso foi lá fazer uma palestra, porque a Universidade comprou o arquivo do Teatro Oficina. Antes eu ganhei uma bolsa da Fapesp e estava estudando muito a obra de Oswald de Andrade, a antropofagia especialmente. Tive a sorte de conhecer a filha de Oswald, Marília de Andrade, bailarina, professora e chefe do Departamento de Dança, enfim uma mulher madura, com filhas mais ou menos da minha idade, mas que ficou muito minha amiga. Além do meu interesse pessoal por antropofagia, ela me liberou acesso aos arquivos de Oswald, aos cadernos, aos manuscritos inéditos, enfim um material riquíssimo e desconhecido pelas pessoas. Porque o arquivo dele não estava nem organizado, nem catalogado ainda. Eram pilhas de cadernos e anotações dele. Somente pela proximidade com a sua filha Marília, eu tive o privilégio de ser umas das primeiras pessoas a ler tudo aquilo. Vai daí que na palestra do Zé Celso ele começou a falar de antropofagia, de Oswald de Andrade, obviamente, ele também é muito ligado nisso tudo. Aí levanta uma garota insolente de 18 anos, recém ingressada na universidade, e questiona o mito Zé Celso de frente. Era eu a petulante! Porque eu estava totalmente imersa na antropofagia, literalmente, meus dedos tocavam diariamente os cadernos de Oswald, eu tocava a letra dele, estava naquele momento vivendo aquilo por dentro. O que eu sabia não era o tatibitati que as pessoas repetem por aí sobre antropofagia, o já mastigado, que já se tornara padrão. E na minha opinião, essa visão havia banalizado a própria essência antropofágica. Bom o Zé Celso é um gênio, um cara brilhante. Mas ele não sabia o tesouro que estava ali na minha mão, já que eu estudava na Unicamp e tinha acesso livre e intenso a coisas que ele desconhecia. Por exemplo, um detalhe engraçado: ele começou a falar "Ôswald", com acento inglês, forçando a sílaba forte no "ô", como se convencionou chamá-lo desde a década de 60. A platéia lotada de estudantes de teatro e de jornalistas. Eu interrompo e corrijo: "Oswáld", acentuando a sílaba no "a". Ninguém entendeu o que eu estava fazendo. Ele tentou prosseguir dizendo Ôswald e eu interrompia dizendo Oswáld. A platéia começou a rir achando que eu era maluca. Daí eu expliquei que o nome do cara não era Ôswald, que ele nasceu em 1890 e que naquela época toda a influência cultural no Brasil era européia, primordialmente francesa, e que ele foi batizado de Oswald, soando em francês. Que toda a geração dele o chamava de Oswáld, e críticos como Antonio Cândido, que o conheceram pessoalmente nas décadas de 20 a 50, conviveram com ele e ficavam putos com esse outro personagem que surgiu na década de 60. Oswald morreu em 1954. E morreu não só fisicamente, sua presença cultural, seus livros, tudo desapareceu, ele ficou esquecido totalmente por muitos anos. Ninguém falava mais dele. Daí na década de 60 os concretistas, os irmãos Campos, depois os tropicalistas, Glauber, e especialmente o Teatro Oficina, tudo isso ressuscitou Oswald de Andrade. Voltou-se a falar dele. Mas como estávamos no auge do governo militar, e da influência brutal da cultura norte-americana sobre o Brasil, desde a CIA até a coca-cola, as pessoas passaram a dizer Ôswald com pronúncia americana, na época o tal Lee Oswald aparecia na midia, etc... E o Zé Celso dizia Ôswald!!! Bom, isso só para relatar o contexto em que nos conhecemos, ele, o mito genial, e eu a fedelha petulante de 18 anos que o questionava publicamente naquilo em que ele era o maior entendedor. Mas como ele é realmente grande, ele não me odiou, ao contrário, me amou! Foi amor à primeira vista! No outro dia ele me ligava convidando para ir fazer parte do Teatro Oficina. Eu perguntei: mas para fazer o quê? Eu sou estudante ainda, nem sei se eu sou atriz, ou diretora, ou dramaturga, ou compositora, ou poeta ou nada disso. Ele respondeu: aqui você pode ser tudo, a poeta tem carta branca, no Oficina você vai fazer o que vc quiser, Beatriz. Eu fui, foi maravilhoso, aprendi muito, tranquei a faculdade por um semestre, e depois voltei para concluir a Unicamp, porque não gosto de deixar nada pela metade.

Você montou com ele, dentre outros trabalhos, um texto de Jean Genet, “Funâmbulo”, que teve tradução tua. Você domina o francês?

Beatriz Azevedo – Eu gosto de poder conhecer outras línguas para ler os poetas que amo no original. Mas não sou poliglota de jeito nenhum. Apenas me viro bem no francês. O poeta José Paulo Paes uma vez disse uma coisa com a qual me identifico muito. Ele traduzia textos do grego, do russo, do francês. Muitos o achavam pretensioso. Perguntado se ele dominava mesmo todas estas línguas, ele muito modesto e sincero disse: Não, exatamente porque eu não domino estas línguas é que eu traduzo. Como assim?, o incauto perguntou. E Paes respondeu: se eu dominasse estas línguas todas, eu abriria os livros e sairia lendo imediatamente, sem dificuldades, desfrutando do prazer da leitura. Mas como eu não domino, preciso pegar o dicionário, estudar, traduzir, senão não compreendo nada do que leio. Preciso ler e reler milhões de vezes, até capturar o sentido daquilo. Aí depois que já traduzi, com tanto trabalho e suor, aí eu publico, né? Com Jean Genet foi assim. Eu me apaixonei por este texto e ele ainda estava fugidio para mim, então mergulhei na tradução do francês para o português para sentir que ele era meu de verdade. Como trata da relação de um mestre - de circo - com um iniciado, da poesia total da arte e da vida, chamei o Zé Celso para fazer comigo, porque ele sabe de tudo aquilo que o Genet coloca ali.

Você encenou Hilda Hist no ano passado. O que achou do disco “Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé”, produzido por Zeca Baleiro, e centrado na escritora? Gostaria de ter participado dele?

Beatriz AzevedoBeatriz Azevedo – Achei muito bacana que o Zeca Baleiro tenha feito o projeto, que tenha homenageado a Hilda. Gostei mais da iniciativa do que do resultado artístico. Acho que não gostaria de ter participado deste disco em si, porque ele tem uma visão muito "solene" da Hilda e da obra dela. É meio passadista, tem um ar e umas linhas melódicas que aprisionam a poesia da Hilda num tempo remoto, quase medieval. Repito, achei extremamente válido que ele tenha feito este trabalho, eu só não comungo desta visão sobre a Hilda. Tive o privilégio de a conhecer diretamente, sem intermediários. Eu entendia completamente as atitudes dela no sentido de "popularizar" o acesso à sua obra, de cortejar alguém que estava na midia, de dizer que queria escrever novela de televisão. Mas sinceramente acho que a obra dela não "precisa" disso, está além, muito além. E hoje a profecia se cumpre, ela tem muito mais leitores e admiradores no mundo inteiro. E isto aconteceu não por "ajuda" de nomes famosos, mas pela força da própria literatura dela.

Você, que viveu uma temporada em Nova York, como vê o trabalho desenvolvido lá por músicos brasileiros como o Forro in The Dark, e mesmo o de Vinícius Cantuária, teu parceiro, desde que ele está nos States? Você imagina se radicando num outro país para azeitar a carreira artística?

Beatriz Azevedo – Eu convivi muito com eles nos anos em que morei em Nova York, e também com Cyro Baptista. Gosto muito destes músicos como amigos e como artistas. O Mauro Refosco e o Smokey Hormel do Forro in The Dark, o Didi Gutman do Brazilian Girls, o Michael Leonhart, todos eles tocaram na minha banda em Nova York. Fazíamos um som da pesada! O Vinicius Cantuária é um grande compositor, um grande cara, um amigo generoso, me convidava para dar umas canjas nos shows dele. O Cyro também me abriu espaço no Beat the Donkey, uma banda multicultural que é um barato! Eu já morei fora do Brasil, me adaptei super bem. Sofro um pouco com o excesso de frio, em invernos muito longos eu quero voltar correndo pro Brasil. Mas nunca se sabe, se pintar eu encaro.

Quando estará excursionando de novo pela Europa?

Beatriz Azevedo – Em outubro e novembro estaremos na Europa. Tem uns festivais a caminho. Espero que o CD “Alegria” seja lançado também na Europa, porque as pessoas veriam o show e poderiam levar para casa o trabalho. É sempre bom ter “Alegria” em casa!

Texto: © Felipe Tadeu 2008



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O som do Brasil

Felipe Tadeu
é jornalista especializado em música brasileira, produtor do programa radiofônico Radar Brasil (Rádio Darmstadt). Radicado na Alemanha desde 91, o autor é também conhecido como DJ Fila








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