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Cento e vinte e dois anos de Bandeira
Urariano Mota

No livro ideal em que Manuel Bandeira realizaria a ordem da sua obra, ela partiria da “vida inteira que poderia ter sido e que não foi”, para outra vida que viera ficando “cada vez mais cheia de tudo”. Esta seria a ordem ideal do grande livro, o da vida e poesia de Bandeira, segundo o crítico Otto Maria Carpeaux.

(E o leitor perdoe se aqui e ali estas linhas, que gostariam da fria racionalidade, cederem o passo à emoção.)

Na ordem ideal de Carpeaux, Bandeira começaria por

  PNEUMOTÓRAX

  Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
  A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
  Tosse, tosse, tosse.

  Mandou chamar o médico:
  — Diga trinta e três.
  — Trinta e três  … trinta e três  … trinta e três …
  — Respire.

...................................................................................................................................................

  — O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
  — Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
  — Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.«


E depois de espirais e crescendos, atingiria


  CANÇÃO DO VENTO E DA MINHA VIDA

  O vento varria as folhas,
  O vento varria os frutos,
  O vento varria as flores …
  E a minha vida ficava
  Cada vez mais cheia
  De frutos, de flores, de folhas.

  O vento varria as luzes,
  O vento varria as músicas,
  O vento varria os aromas …
  E a minha vida ficava
  Cada vez mais cheia
  De aromas, de estrelas, de cânticos.

  O vento varria os sonhos
  E varria as amizades …
  O vento varria as mulheres …
  E a minha vida ficava
  Cada vez mais cheia
  De afetos e de mulheres.

  O vento varria os meses
  E varria os teus sorrisos …
  O vento varria tudo!
  E a minha vida ficava
  Cada vez mais cheia
  De tudo.


É uma grande ordem, reconheçamos. Queremos dizer, a vida que gerou essa ordem é uma vida fecunda, apesar da tuberculose do poeta, apesar da vida de solteirão, e por causa mesmo dessa particular vida, uma particular obra, reconheçamos. Mas a ordem do grande livro de Bandeira, para os leitores, não precisa ser a ordem que lhe deu a melhor crítica literária. A nossa ordem particular, a nossa bandeira, o nosso Bandeira é uma viagem íntima com os poemas que nos derrubaram desde quando éramos adolescentes. E nos dizíamos, surpresos, então isto é poesia. E por isto mesmo, por força dessa revelação, passamos a louvar e a ser amantes da poesia.

PORQUINHO-DA-ÍNDIA

  Quando eu tinha seis anos
  Ganhei um porquinho-da-índia.
  Que dor de coração me dava
  Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!

  Levava ele pra sala
  Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
  Ele não gostava:
  Queria era estar debaixo do fogão.
  Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

  – O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.

A parte que vem do coração, a parte que vem da só razão, assaltam, parecem entrar em conflito, esse terreno é meu, esse terreno é seu. A parte do coração nos diz e nos ordena, “fala, desgraçado, não temas o cair no ridículo!”. A parte do coração nos diz que este último verso, “o meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada”, nos derrubou e nos tomou em um dia e uma tarde no subúrbio de Água Fria. E escrever isto ainda é meio mentir. Queremos dizer, aos 17 anos esse verso nos remeteu de imediato à primeira namorada, em um deserto de amor naqueles inesquecíveis e que o diabo os carregue tempos. E como era próprio esse verso, ao fazer de um roedor, de uma cobaia, a primeira namorada de um amante das areias sem oásis. E quem sabe mesmo se Delma, Elma, Alma, não importa o nome, quem sabe mesmo se não era uma cobaia da experiência, da inexperiência do amor, uma namorada aos 8 anos na lembrança de um jovem? Um sentimento que ruge, que rói, mói e dói num desassossego sem rumo. Ah, noites escuras, malditas noite em claro e vazias de subúrbio. Isto fala o coração que reflete esse verso.

A parte que vem da razão nos diz que por trás dessas linhas existe um bruxo, existe um homem experiente na arte de criar um poema, um ser feroz porque fere porque é poesia. Talvez, para não ficarmos a falar de gregos macedônios no planeta de Assurbanípal, talvez fosse melhor dizer o que é mesmo esse grego macedônio no planeta de Assurbanípal que chamamos de poesia. Se restringimos para o caso do Porquinho-da-índia, sabemos já a resposta. Assim, olhando para o poema e dizendo o que ele é, dizemos: - “Poesia é o escrito que nos emociona em poucas linhas”. Viram o Porquinho-da-índia nisso? Ele correu, se furtou arisco. Tentemos pegá-lo. (E pegar poesia é um pouco pegar um roedor rápido.) Tentemos. Poesia é o que nos retira a vergonha da comoção. Escapou, fugiu. Tentemos de novo. Poesia é o que retira da gente a humanidade escondida. Passou raspando, o danado. Agora, com as duas mãos e corpo inteiro abracemos. Poesia é o Porquinho-da-índia. Pegamos o condenado! Mirem, vejam, reflitam e meditem sobre esse poema que cresce pelo pequeno, pelo minúsculo, pelos diminutivos: porquinho, seis anos, bichinho, limpinhos, ternurinhas, até explodir no inusitado, no súbito golpe, no absurdo da relação entre uma cobaia e o amor, “o meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada”.

Uma sombra passou perto agora. Ela nos diz, ela não quer esperar, ela nos sopra: esse pernambucano tem uma voz e uma percepção aguçada, esse poeta possui um espírito muito fino. Há um modo pernambucano na sua expressão. Há um gosto na palavra, uma disposição das palavras, uma ordem e escolha das palavras que vão além do bichinho arisco que corre e se esconde. Vejam, Porquinho-da-índia é um poema escrito antes de 1930, mas um verso diz, “Levava ele pra sala”. Isso até então não era poesia nem português. Até hoje, em 2008, os gramáticos de boa fama condenam quem usa “levava ele”. Levava-o, corrigem, e vamos todos ser idiotas na felicidade da norma culta. Levava-o, para o inferno. E nada mais antipoético que um “levava ele”, sentenciariam os asnos, de 1930 a 2000 e vindouros.

  POÉTICA

  Estou farto do lirismo comedido
  Do lirismo bem comportado
  Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
  Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
  Abaixo os puristas.
  Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
  Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
  Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

  Estou farto do lirismo namorador
  Político
  Raquítico
  Sifilítico
  De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
  De resto não é lirismo
  Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de   cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

  Quero antes o lirismo dos loucos
  O lirismo dos bêbedos
  O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
  O lirismo dos clowns de Shakespeare.

  – Não quero saber do lirismo que não é libertação.
.

Os ótimos poemas, os bons poetas, os grandes criadores prescindem de comentário. O que deles se disser, já estará melhor dito no objeto por eles criado. O comentarista é um chato, um atrevido, um pretensioso, um mui digno representante da família Equus asinus. O máximo que poderemos pretender diante de um manifesto como Poética é falar à margem, rodear o capim, e mostrar nossos dentes cavalares para os semelhantes, a zurrar, mira, eu entendo esta ração assim. O sensato seria divulgar, divulgar e divulgar um poema que amamos, para com isto realizar o nosso homem civilizador. Para que todos gritem, em uma só voz, eu não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Por isso esta sombra a nosso lado, que é louca, mas não é estúpida, nos diz: fica à margem, não tentes pegar o poema pelo rabo, porque a poesia é um animal arisco veloz e escorregadio. Diz o que te sugere o poema e serás menos infeliz. Por isso o coração nos diz:

Não quero mais, nunca mais quero saber do lirismo que não é libertação. (Lembro o Gordo, e esta será uma sina, sempre lembrar o Gordo, lembro o Gordo no bar A Portuguesa, pela madrugada, num raro momento cívico. Bêbado, mais que bêbado, o Gordo se levantou e com as mãos para trás começou a cantar em voz alta: “Salve ó terra dos altos coqueiros, de beleza soberbo estendal. Nova Roma de bravos guerreiros, Pernambuco imortal, imortal”. Os bêbados todos no imenso bar, os vizinhos, os garçons todos se perfilaram e começaram todos a cantar em uma só voz o hino de Pernambuco. Aquilo, naquela ditadura policial em que vivíamos, foi um momento de lirismo que liberta.) Por ists, a parte da razão nos diz:

Bandeira é autor de versos que atingiram aquele estado raríssimo de ir além do gosto da gente culta. Viraram quase uma reflexão, um anexim, um provérbio. Exemplos disso vêm à razão, sem muita pesquisa: “A única coisa a fazer é tocar um tango argentino”, ouvimos, quando nada mais resta fazer. “Foi o meu primeiro alumbramento”, e vejam que palavra bela, alumbramento, posta em circulação e moda na língua. Todos apreendemos de imediato o significado, porque o poeta nos diz isto depois de “Um dia eu vi uma moça nuinha no banho/ Fiquei parado o coração batendo”. Assim como também apreendemos pelo poema o sentido de “Vou-me embora pra Pasárgada” – sentido de fugir, sumir, buscar abrigo em uma terra utópica de felicidade. “Tenho tudo que não quero... vida noves fora zero”.

Essas coisas não se escrevem por dom ou presente. Versos assim se conseguem ao longo de muita vida e estudo e observação. Em Itinerário de Pasárgada, livro fundamental de sua formação e poética, aqui e ali Bandeira nos deixa pistas:

“Antes de conhecer o manual de Castilho, eu embatucava diante de certos problemas. De uma feita fui, muito encalistrado, perguntar a meu tio Cláudio se ‘Vésper’ rimava com ‘cadáver’. A sua resposta negativa me inutilizou um soneto. Hoje vejo que quem tinha razão era o meu ouvido. Rima é igualdade de som. Tanto se rima consoantemente como toantemente e de outras maneiras. Só muito mais tarde vim a saber que os ingleses rimam ‘be’ com ‘eternity’. Vim a saber que afinal a aliteração nada mais é do que uma rima de fonemas iniciais. Mas eu nada sabia de trovadores, nada conhecia da poesia espanhola... Devo dizer que aprendi muito com os maus poetas. Neles, mais do que nos bons, se acusa o que devemos evitar. Não é que os defeitos que abundam nos maus não apareçam nos bons. Aparecem sim. Há poemas perfeitos, não há poetas perfeitos. Mas nos melhores poetas certos versos defeituosos passam muita vez despercebidos”.

É certo que todo verso é “produzido”, trabalhado, moído. Mas a linha no verso de Bandeira parece vir curtida, decantada, palavra por palavra. Raro ele corre em vôo livre de condor, antes plana, paira, na altura, contraditoriamente parecendo voar baixo, ao nível do chão. Do cotidiano, do minúsculo dos dias. Nele raro se vê o processo de livre associação, supondo que isso ocorra em um poema inteiro, inteiriço, que vem à luz. Queremos dizer, e contamos para isto com a boa vontade da compreensão de quem nos escuta, o seu verso não se derrama, não se espraia. O sentido geral do poema está antes no verso, o sentido geral do verso está antes em cada palavra. Isto poderia ser dito de todos os poetas, diz-nos uma invencível voz da contradição. A nossa resposta, o caminho que estamos procurando diz: vejam por exemplo uma obra-prima, José, de Carlos Drummond de Andrade:

  JOSÉ

  E agora, José?
  A festa acabou,
  a luz apagou,
  o povo sumiu,
  a noite esfriou,
  e agora, José?
  e agora, Você?
  Você que é sem nome,
  que zomba dos outros,
  Você que faz versos,
  que ama, protesta?
  e agora, José?

  Está sem mulher,
  está sem discurso,
  está sem carinho,
  já não pode beber,
  já não pode fumar,
  cuspir já não pode,
  a noite esfriou,
  o dia não veio,
  o bonde não veio,
  o riso não veio,
  não veio a utopia
  e tudo acabou
  e tudo fugiu
  e tudo mofou,
  e agora, José?

  E agora, José?
  sua doce palavra,
  seu instante de febre,
  sua gula e jejum,
  sua biblioteca,
  sua lavra de ouro,
  seu terno de vidro,
  sua incoerência,
  seu ódio, - e agora?

  Com a chave na mão
  quer abrir a porta,
  não existe porta;
  quer morrer no mar,
  mas o mar secou;
  quer ir para Minas,
  Minas não há mais.
  José, e agora?

  Se você gritasse,
  se você gemesse,
  se você tocasse,
  a valsa vienense,
  se você dormisse,
  se você cansasse,
  se você morresse …
  Mas você não morre,
  você é duro, José!

  Sozinho no escuro
  qual bicho-do-mato,
  sem teogonia,
  sem parede nua
  para se encostar,
  sem cavalo preto
  que fuja do galope,
  você marcha, José!
  José, para onde?

Se nos permitem uma heresia, afirmamos: nessa obra-prima os versos não sobrevivem sem o poema. Sem o conjunto de todo o poema. Se nos permitem mais uma, Bandeira, se o escrevesse, se guardasse as mesmas palavras – impossibilidade extraordinária, encerraria esse poema na pergunta “José, e agora?”. Com tanto “se”, sabemos, é fácil escrever qualquer leviandade. Por isso mais adentramos, para que não nos acusem dos crimes de heresia e embuste. Por isso dizemos, aquele verso lapidar, que sobrevive ao poeta, ao poema, à circunstância, não se encontra em outro poeta brasileiro com a freqüência com que se encontra em Bandeira. “A vida inteira que podia ter sido e que não foi” é um verso que nos fica, para sempre, é uma luz que guardamos sem nem preciso conhecer Pneumotórax. (Na verdade, perdoem-nos a franqueza bárbara, de Pneumotórax nem sentimos a falta.) “Terei a mulher que eu quero na cama que escolherei”, e por isso “Vou-me embora pra Pasárgada”, a isso retornamos sem que percebamos, como quem retorna a um mantra. Vejam se nos explicamos bem:

  O ÚLTIMO POEMA

  Assim eu quereria o meu último poema
  Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
  Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
  Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
  A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
  A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Qualquer verso desse poema, qualquer um, é um bem em si mesmo. Se isso é possível num gozo inteiro, cada verso é um momento de felicidade autônoma. E isso, e que se dane o hiato, e isso e nisso repete as circunstâncias da sua vida. Assim como a grafologia “explica” na letra hábitos do ser de uma pessoa, Bandeira refletia no poema a consciência da morte iminente. A vida se realizava em cada instante, como se fosse um breve independente, e o poema em cada verso, digamos assim, um pouco acima do afoito. A poesia, a criação, contra a morte próxima. Sabemos, claro, que isso deve ser assim para todo criador. Mas não com a urgência de Manuel Bandeira, ainda que tenha vivido 82 anos. Assim ele nos conta em Itinerário de Pasárgada:

“Quando caí doente em 1904, fiquei certo de morrer dentro de pouco tempo: a tuberculose ainda era a ‘moléstia que não perdoa’. Mas fui vivendo, morre-não-morre, e em 1914 o dr. Bodmer, médico-chefe do sanatório de Clavadel, tendo-lhe eu perguntado quantos anos me restariam de vida, me respondeu assim: ‘O senhor tem lesões teoricamente incompatíveis com a vida; no entanto está sem bacilos, come bem, dorme bem, não apresenta, em suma, nenhum sintoma alarmante. Pode viver cinco, dez, quinze anos ... Quem poderá dizer?’

Continuei esperando a morte para qualquer momento, vivendo sempre como que provisoriamente”.

No último 19 de abril de 2008, os zeladores de efemérides apontaram que o poeta completaria 122 anos. Se não houvesse morrido em 1968, acrescentaram.

“....Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada”

Idiotas, os zeladores de efemérides não sabem. Nem imaginam que onde houver jovens em desassossego Bandeira continua a iludir a morte.

Urariano Mota

Todos os livros e CDs apresentados na novacultura estão disponíveis na Alemanha através do TFM-Centro do Livro e do Disco de Língua portuguesa: http://www.TFMonline.de

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (Recife, 19. April 1886 — Rio de Janeiro, 13. oktober 1968)
Dichter und Übersetzer

Bandeira wird zur Generation von 1922 (Geração de 22) der modernen brasilianischen Literatur gezählt. Sein Gedicht  »Os Sapos« eröffnete die Semana de Arte Moderna von 1922. Seine Gedichte sind Klassiker der brasilianischen Literatur.


In deutscher Übersetzung erschien 1985 Der Weg nach Pasárgada (Gedichte und Prosa; Übers.: Karin von Schweder-Schreiner. Vervuert Verlag - vergriffen)
Veja etrada na
Wikipédia

Urariano Mota ist Schriftsteller und regelmäßiger Mitarbeiter der www.novacultura.de


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