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Maria Luiza
Fontenelle
Sentado também é LEGAL! |
Chovia e a cidade parecia
coberta por um véu gelado. Eu estava em Berlim acompanhando um diretor
de cinema em sua primeira apresentação na Alemanha. A bilheteria
já tinha fechado quando vi um vulto gesticulando na entrada, levantando
os braços, tentando entrar de qualquer jeito. Quando cheguei mais
perto mal acreditei no que vi: eu conhecia aquele cara, era brasileiro, a
gente tinha estudado junto, que legal!!!
Pode deixar moça, ele tá com a gente...
Velho Lelo de guerra, não tinha envelhecido nada, só estava
um pouco molhado. E triste. Na verdade ele estava desolado. Tinha perdido
o filme por causa de uma briga com a mulher mas antes que ele conseguisse
explicar o que tinha acontecido começaram os aplausos e eu tive que
correr para a sala de exibição. O filme tinha sido um sucesso
e o meu diretor parecia cada vez mais tranqüilo ao contrário
do Lelo cada vez mais inconformado com a Alemanha, revoltado com as mulheres,
furioso com o feminismo, espinafrando o sistema, a cultura e o ridículo
dos bons costumes do lugar.
O vinho começou a rolar e foi inevitável, quando eu dei por
mim, os dois já estavam conversando como se estivessem na Mooca, sem
nenhuma formalidade. Dois paulistas no fundo, são sempre dois italianos
e quando se juntam para salvar o mundo, o segundo assunto quase sempre é
mulher... mas o primeiro, é sempre futebol!
Bêbado, ressentido, ferido em seu orgulho mais íntimo, meu antigo
colega se explicava:
Você já foi obrigado a mijar sentado?
Constrangido, o diretor mexeu-se na cadeira, enquanto meu amigo aumentava
o tom dramático sem perceber.
Não, não sabe... Tenho certeza! Nenhum brasileiro sabe!
Lá, ninguém imagina!
O quê???, exclamava o diretor, ela te obriga a sentar na hora?
Obriga sim senhor! Ela quer que eu fique sentadinho com o pau lá
embaixo. Elas querem baixar o nego, humilhar, deixar ele ali exprimidinho
entre as pernas, desativado, como se não valesse nada.
Manda ela mijar de pé, porra. Diz que você só
senta, se ela levantar. Não dá mole, não hein? Olha
que isso só piora com o tempo!
Pensa que é só ela? Não senhor!!! Aqui elas são
todas assim, têm um verdadeiro exército atrás. A mãe
dela, por exemplo, é bem pior. Imagina o que eu passo cada vez que
a minha mulher volta da casa da mãe dela.... Um inferno! A velha é
uma víbora. Manja aquelas feministas que queimaram o sutiã
em praça pública? Minha sogra é uma dessas.
Já disse, insistiu o diretor em tom didático, se fosse
comigo eu fazia ela mijar de pé, depois traçava as pernas da
bruaca, dava um nó e atirava pela janela. Onde já se viu uma
coisa dessas?
Mês passado meu pai veio do Brasil me visitar e eu tive que
pedir para ele sentar...
O quê???? O velho teve que botar o pau entre as pernas? E ele
aceitou?
Que aceitou que nada! Mas fazer o que? Pedir o divórcio no
primeiro mês? Não dá!!! Minha família é
católica, italiana, meu filho é primeiro neto... não
dá pra cair fora assim... ou dá?
Ah, dá! Dá sim, ainda mais nesse caso. Vai em frente
que eles aceitam, você vai ver.
É que eu adoro meu filho.... e acho que também gosto
dela... quer dizer, eu achava...
Aí complica...Que merda!!!
E não é só isso. Eu mijaria na ponta do pé,
de costas, de gatinho, como ela quisesse, se isso resolvesse o problema.
Mas não resolve. Imagina a vergonha que eu passei na minha própria
casa: mês passado, depois de um puta esforço, meu pai descolou
um tempo e uma grana para e vir até aqui conhecer o neto, o
primogênito, o orgulho da família.... e o que ele descobre?
Que o moleque não tem o nosso sobrenome...
Mas afinal de contas você é ou não é casado
de papel?
Claro que sou, casadíssimo! O problema é que depois
de anos de dominação machista, as alemãs tão
querendo resolver tudo no braço. Na Alemanha, tem uma lei que diz
que tanto o pai como a mãe têm o direito de transmitir o
último sobrenome ao filho e minha mulher decidiu que era melhor para
o meu filho ter o nome da família dela. Veio com aquela conversa que
o meu nome era de estrangeiro, que ia complicar a vida dele na escola, coisa
e tal. Resultado, meu filho, sangue do meu sangue, não chama Leonardo
Bogliato, como eu, meu pai e meu avô e sim, HELFRID ZIMMERMANN. Agora
imagina a cara do meu pai? O neto dele com esse nome que além do mais,
ele nunca vai conseguir pronunciar!
Não acredito! Não consigo acreditar!
A madrugada estava cada vez mais fria e meu diretor já estava prestes
a revelar o grande sentimental que no fundo ele sempre escondeu que era.
Ah, as mulheres alemãs nunca o tinham enganado! Eram todas umas
horrorosas, frustradas e não gozavam nunca! Tava na cara.
Acho que é por isso que os homens aqui não querem nem
saber de comer elas direito
Ah, isso é verdade! O que tem de alemão casando com
estrangeira, você perde a conta!
Ele no entanto, tinha casado inocente: não conhecia a cultura, o
país, o sistema. Jamais imaginaria uma coisa dessas. A verdade é
que o Lelo tinha dado sorte na vida, pelo menos até encontrar a tal
mulher. Tinha se formado rápido e foi um dos escolhidos para participar
de uma importante escavação arqueológicas na Amazônia.
Aliás, foi nesse projeto, em plena selva, que ele conheceu sua mulher
alemã. Ela tinha os olhos bem azuis, o cabelo preto, era alta e super
ousada. Tomou todas as iniciativas e ele achou legal. Era exatamente isso
o que ele sempre esperara de uma mulher moderna. Ela parecia envolvida,
apaixonada e deu tudo certo! Tanto que quando terminou o projeto, ele pediu
uma licença e veio até Berlim visitá-la. E ela engravidou.
E ele fez questão de casar que ele era um cara decente e gostava dela
de verdade. E o que ele recebia em troca? Um filho que não tinha o
nome dele e o privilégio de virar a empregada da casa. Sem falar na
obrigação de mijar sentado.
Mas como é que ela descobre se você sentou ou não
na hora? Ela vai junto? Fica atrás observando?
Sei lá, alemã tem faro!!! Se derrama uma gotinha ela
saca! Dá um pulinho ali no banheiro do bar e dá uma checada.
Bobeou até aqui elas colocam aquelas plaquinhas: SENTADO TAMBÉM
É LEGAL! AMAR É SENTAR, AMAR É RESPEITAR OS OUTROS:
EXPERIMENTE SENTAR... E haja cartaz, desenhinho, um montão de conselho
e explicação.
Se elas vierem com isso para cima de mim eu nego. Ou elas vêm
olhar ali de pertinho ou nada feito! Ninguém vai saber nunca se eu
fiz ou não sentado.
Como se não bastasse o nome do moleque ser do além,
agora eu também tenho que andar por aí de carrinho de bebê
ao invés de trabalhar, terminar meu doutorado, assumir minhas aulas
em São Paulo.
Meu Deus essa história não acaba!!!
Pois é, eu estava terminando o doutorado mas quem disse que
o meu doutorado é mais importante que a graduação dela?
Não é não senhor. Então, se eu quiser continuar
casado, vendo meu filho e tendo algum direito familiar, a coisa tem que andar
como ela anda por aqui: um ano cada um. Ela já passou nove meses
grávida, agora é a minha vez de pagar o pato, acordar de noite,
trocar fralda, dar mamadeira, interromper minha carreira, viver fora de São
Paulo... e tudo para quê? Para que ela possa pagar uns créditos
no curso de história que ninguém sabe se ela vai terminar algum
dia! Eu já podia estar ganhando meu dinheiro, dando as minhas aulas,
entregando minha pesquisa, agitando meus projetos mas olha só o que
eu tô fazendo: levando o moleque para tomar sol, lavando roupa, fazendo
compra, preparando a comida e sabe o que mais? Outro dia eu estourei e disse
que ia embora. Eu nem sei falar alemão, nem sei o que eu estou fazendo
aqui e que se dane o resto: filho, lei alemã, o caralho! Eu vou voltar
para o Brasil!
A briga foi terrível e no final a gente estava completamente arrasado.
Ela caiu no choro e pediu para eu ficar. Parecia triste e totalmente sincera.
Aí eu amoleci, quer dizer, infelizmente, aconteceu exatamente o
contrário e a gente transou como há muito tempo, muuuuuuito
tempo não fazia. E sabe o que aconteceu? Ela engravidou de novo!!!!!!
A essas alturas a mulher do bar já estava colocando as cadeiras em
cima das mesas. Tempo regulamentar esgotado. E agora José? A
solução era mesmo dançar um tango argentino, concluiu
meu diretor ansioso para sair dali o mais rápido possível.
Na verdade, ele cansava rápido de qualquer história que não
fosse o seu filme e seu futuro sucesso no exterior. E foi sem palavras que
a gente se despediu. Boa sorte Lelo, vai tentando, pensa nos teus filhos,
sentado também é gostoso!
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© Maria Luiza Fontenelle 2001 |
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