september / setembro
2001 |
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Fogo
Encantado lambe os céus da Europa
Frankfurt, Alemanha - A banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado esteve
de passagem recentemente pela Europa em sua primeira turnê internacional,
mostrando o repertório de seu comovente álbum de estréia,
que saiu no Brasil em produção independente pelo selo rEc bEat.
O quinteto formado por Clayton Barros, Emerson Calado, Nego Henrique, Rafa
Almeida e Lirinha surpreendeu os cerca de quatrocentos espectadores que pagaram
ingressos para acorrer à concha acústica do Palmengarten (o
Jardim Botânico de Frankfurt) na tarde de 14 de agosto, para assistir
a mais um show ao ar livre do projeto «Summer In the City». O concerto
era o último de uma série de apresentações do
Cordel do Fogo Encantado, que passou pela Bélgica mais
especificamente pelo prestigiado festival Sfinks , pela França
(Paris), onde a banda fez seis shows, e pela Alemanha, com o grupo tocando
nas cidades de Lörrach, Berlim e Frankfurt, totalizando 5 shows e duas
workshops para o público germânico.
O concerto no Palmengarten não podia ter sido mais radiante. O sol
se manteve flutuando muito acima dos arranha-céus do centro financeiro
da Comunidade Européia, abençoando lá embaixo os cinco
músicos que vinham de muito longe para levar um som que tratava de
um outro planeta. Lirinha, Clayton e Emerson lá do sertão
pernambucano, saídos da cidade de Arcoverde, com cerca de 70 mil
habitantes. Rafa e Nego Henrique, do Morro da Conceição, em
Recife, a cidade-mangue onde se dá o fenômeno biológico
do nascimento de caranguejos com cérebros (leia mais a respeito nos
cadernos de cultura). Ornamentado com três painéis de motivo
rústico presos como móbiles no teto, o palco parecia um pouco
pequeno para o Cordel arrepiar com sua percussão poderosíssima
e todo o efeito cênico que a banda tem na bagagem. Bombo de macaíba,
zabumba, surdo, caixa e pandeiro, o Cordel do Fogo Encantado provou aos
alemães porque a banda fez por merecer Naná Vasconcelos como
produtor de seu primeiro álbum e seu maior entusiasta.
Não fosse a confusão bíblica na Torre de Babel, que
teria gerado o aparecimento dos milhares de idiomas espalhados pelo mundo,
e o público em Frankfurt teria entendido a extraordinária
força poética dos textos do Cordel do Fogo Encantado. Palavras
da lavra da principal estrela do grupo, o cantor, poeta e ator Lirinha, de
24 anos, figura algo franzina, mas que cantando com a mesma
determinação messiânica típica de tantos mitos
nordestinos, se agiganta frente àqueles que ouvem a sua voz
esgarçada, mas potente. «A bença Manoel Chudu/ O meu cordel
estradeiro/ Vem lhe pedir permissão/ Pra se tornar verdadeiro».
Manoel Chudu este, que como Zé da Luz, Ciço Gomes, João
Paraibano e Ivanildo Vilanova, dentre outros, tem também alguns de
seus versos populares incorporados à performance impressionante do
Cordel do Fogo Encantado. Textos de tamanho lirismo e felicidade poética
que a música só vem para levá-los ainda mais longe.
Segundo Antonio Gutierrez, o Gutie, produtor do Cordel, foi preciso mexer
na estrutura do show para a excursão européia. «Tiramos
poemas de cinco, seis minutos por causa da língua, mas a coisa funcionou
bem. A banda chegou a tocar para uma platéia de 5 mil pessoas na
Bélgica», comemora ele, que é também o principal
responsável pelo Rec Beat, festival que acontece anualmente na capital
pernambucana durante o carnaval. Lirinha era outro que não escondia
a satisfação pela primeira temporada além-mar do Cordel
que veio do sertão: «A experiência que colhemos com essa
viagem vai nos servir para abrir novos espaços. Recebemos convites
para o grupo voltar no ano que vem, mas isso não faria sentido se
só estivermos incluídos em festivais étnicos»,
percebe o cantor e principal compositor do Cordel.
Outra meta da banda é encontrar um bom selo europeu que lance o cd
no continente. Gutie fez contatos interessantes, mas nada que garanta que
o disco chegue às lojas da Europa ainda este ano. Mas o Cordel do
Fogo Encantado está mais do que pronto para ganhar a terra natal e
o estrangeiro. Como atesta Prince Vasconcelos Dubois, o mestre Naná,
a arte da banda «é uma música que o Brasil precisa ouvir
com atenção. As pessoas vão sentir falta de instrumentos
convencionais, mas a força do Cordel do Fogo Encantado está
na poesia e formação percussiva, com ritmos fora dos
clichês».
Felipe Tadeu |
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Felipe
Tadeu, 39,
é jornalista especializado em música brasileira e produtor
do programa radiofônico Radar Brasil (Rádio Darmstadt). Radicado
na Alemanha
desde 91, o autor é também conhecido como DJ Fila.
email:
brasilkult@aol.com
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