livros

musica

eventos

aus deutschen verlagen

publicações científicas

oktober / outubro
2001

angola

brasil

cabo verde

guiné-bissau

moçambique

portugal

são tomé
e príncipe

timor lorosae

bestellen

suchen

impressum

home

tfm-online


lula queirogaLula Queiroga e seu aboio metropolitano

Lula Queiroga lançou recentemente pela Trama um dos discos mais interessantes que a cena de Recife gerou nos últimos tempos. Intitulado Aboiando a Vaca Mecânica, o primeiro álbum-solo deste artista que estreou em long-play em 1982 junto a Lenine em Baque Solto nos revela um autor ainda mais original em suas composições, com letras invariavelmente espirituosas. Um músico que sabe imprimir também contemporaneidade ao universo sonoro pernambucano, extraindo de seu estúdio caseiro, o Luni, batidas conjugadas no futuro do presente.




«Aboiando a Vaca Mecânica» traz quinze músicas que hão de seduzir o ouvinte desde o primeiro segundo. As estórias que Lula Queiroga vai dizer cantando passam por temáticas atualíssimas como as da religiosidade, que anda acirrada no cerne das conversas desde o ataque diabólico à Nova York, meca do capitalismo mais fundamentalista: «Quem tem fé se levanta/ quem não tem, canta assim:/ I love the money», dispara Lula, descrente das religiões, contra as manipulações políticas em nome de Deus. Arnaldo Antunes participa desta faixa, Religion, instaurando sua tradicional anarquia.

Aliás, de participações especiais, o solo de estréia de Lula Queiroga anda muito bem povoado: há desde Felipe Falcão como piloto de estúdio até o profeta do Kaos, Jorge Henrique Mautner, que não só aparece em Último Minuto, como manda o texto de apresentação do álbum. Pedro Luís & A Parede comparecem em versão reduzida, com Mário Moura no baixo e Sidon na percussão, além do líder da banda na voz, ele que é autor com Lula de Noite Severina, um belo xote que envereda pelo mistério dos sonhos. Silvério Pessoa, que contou com Lula Queiroga como um dos produtores de seu último cd Bate o Mancá, também marca presença em Instigado, dentre outros que atuam no aboio de Lula. Lenine, é claro, pinta em voz & violão na ótima Rosebud, parceria dele com o dono do disco, e como um dos coristas em Último Minuto.

A violência urbana é outro tema abordado por Lula Queiroga em seu trabalho, ele que viveu quase vinte anos no Rio de Janeiro. Em Cano na Cabeça, o pernambucano desconcerta geral ao colocar um grupo de crianças entoando o refrão bandido. Canibal, vocalista da banda Devotos, vem no papel do ladrão principiante que limpa as suas vítimas sem querer saber dos documentos delas. Qual seria a utilidade deles, num país tão miserável de cidadania? Em É Nenhuma - faixa mais dançante do disco - Lula, Zé Brown (Faces do Subúrbio) e Lulu Oliveira dão o toque para o primordial dentre os seres humanos: "Olhar pro lado e entender/ o importante é a postura/ que a pessoa assuma/ no mais, a diferença é nenhuma/".

Está lá no Aurélio: aboio é uma melopéia plangente cantada aos bois para guiar a boiada num registro vocal monótono e triste. Mas quando se trata do aboio de Lula Queiroga - que não é grande cantor, diga-se de passagem -, que abóia gado feliz e marcado dando acalanto à rês desgarrada, nada se faz mais premente a um jornalista que se crê apto a julgar o trabalho de um músico, do que sugerir a audição do novo trabalho do pernambucano.

Felipe Tadeu
brasilkult@aol.com

Felipe Tadeu

Felipe Tadeu, 39,
é jornalista especializado em música brasileira e produtor
do programa radiofônico Radar Brasil (Rádio Darmstadt). Radicado na Alemanha
desde 91, o autor é também conhecido como DJ Fila.
email: brasilkult@aol.com


nas edições anteriores:
fogo Encantado lambe os céus da Europa








nova cultura (issn 1439-3077) www.novacultura.de
© 2001 Michael Kegler, sternstraße 2, 65719 hofheim / novacultura@gmx.de

TFM-Zentrum für Bücher und Schallplatten in portugiesischer Sprache www.tfm-online.de
disclaimer / Haftungsausschluss